Câmeras digitais e fones com fio retornam: jovens buscam autenticidade na era digital

As fotos tiradas com celular distorceram nossa percepção do tempo
Criadora de conteúdo reflete sobre como câmeras digitais capturam momentos que parecem mais autênticos e duradouros.
Mark

Por que você acha que esses aparelhos antigos estão voltando agora, em 2026, quando temos tecnologia muito mais avançada?

Mimi

Acho que as pessoas perceberam que "mais avançado" nem sempre significa melhor para o que elas realmente querem fazer. Uma câmera digital tira uma foto e pronto — você vê depois. Um celular tira a foto, mas também quer sincronizar, fazer backup, aplicar filtros automáticos. Às vezes você só quer tirar uma foto.

Mark

Mas isso é nostalgia, não é? As pessoas só querem voltar ao passado?

Mimi

Não acho que seja só nostalgia. Sim, há um elemento disso — as pessoas lembram de tempos mais simples. Mas o que realmente está acontecendo é que as pessoas querem propriedade. Querem possuir a música que ouvem, as fotos que tiram. Não querem alugar experiências através de aplicativos.

Mark

Qual é a diferença prática entre tirar uma foto com um iPod e tirar com um celular?

Mimi

Com o celular, a foto vai para a nuvem, para os servidores da empresa, talvez seja analisada por algoritmos. Com a câmera digital, você tira a foto, leva para casa, conecta o cartão de memória ao seu computador. É seu. Ninguém mais vê, ninguém mais controla.

Mark

E quanto aos fones de ouvido com fio? Qual é a vantagem real além do preço?

Mimi

O preço é real — 20 libras em vez de centenas. Mas também há algo sobre não perder as coisas. Fones sem fio desaparecem. Com fio, eles estão sempre ali, emaranhados na sua bolsa, mas ali. E há qualidade no microfone, simplicidade na conexão.

Mark

Você acha que isso vai durar ou é só uma tendência passageira?

Mimi

Acho que vai durar enquanto as empresas continuarem tentando controlar nossas experiências. Se o modelo mudar — se as pessoas pudessem realmente possuir seus dados, suas fotos, sua música — talvez a tendência diminuísse. Mas enquanto isso não acontecer, as pessoas vão continuar procurando formas de recuperar o controle.

  • As vendas de iPods e Walkman no Reino Unido subiram quase 50% em 2025, e buscas por iPod mini cresceram 48% — números que contradizem a narrativa de que o passado tecnológico está enterrado.
  • Jovens relatam cansaço das notificações constantes, da dependência de servidores em nuvem e da estética excessivamente nítida dos smartphones, buscando dispositivos que simplesmente funcionem sem exigir atenção.
  • Criadores de conteúdo e usuários comuns apontam que câmeras digitais produzem uma qualidade visual mais 'real' e que o ato de revelar fotos ao conectar um cartão de memória resgata o elemento de surpresa perdido na era do instantâneo.
  • Especialistas como Andrew Przybylski, de Oxford, alertam que a tendência expõe uma falha estrutural do modelo digital atual: quando servidores caem, até quem possui jogos físicos fica sem acesso — e as pessoas estão percebendo isso.
  • A trajetória aponta para um mercado de eletrônicos recondicionados em expansão e para um questionamento crescente do modelo de 'aluguel de experiências' que domina o ecossistema digital contemporâneo.

Em meio à saturação digital de 2026, jovens no Reino Unido e além estão redescubrindo câmeras digitais, iPods e fones com fio — não por ignorância do presente, mas por uma busca deliberada de autenticidade, controle e propriedade sobre suas próprias experiências. O crescimento de 50% nas vendas de dispositivos como iPods e Walkman no eBay britânico revela que a nostalgia, aqui, é menos sentimentalismo e mais resistência: uma geração que cresceu alugando músicas, fotos e memórias começa a questionar o modelo. O que parece um passo atrás é, talvez, o primeiro passo em direção a algo mais humano.

Era um sábado à tarde quando a bateria de uma câmera digital esquecida há quinze anos finalmente terminou de carregar. O plano era simples: levá-la a um show como experimento pessoal. O que se revelou, porém, foi muito maior do que uma curiosidade individual.

No Reino Unido, as vendas de iPods e Walkman pelo eBay cresceram quase 50% em 2025. As buscas por iPod mini subiram 48% no mesmo período. Globalmente, havia 42 milhões de usuários ativos de câmeras digitais, com mais de um terço entre 18 e 30 anos. A tecnologia que parecia enterrada estava viva — e jovem.

Para Lily Redman, criadora de conteúdo de 26 anos do País de Gales, a câmera digital capturava algo que o celular não conseguia: uma suavidade, uma imperfeição que parecia mais real. Ela notava também que fotos tiradas com smartphone distorciam a percepção do tempo — imagens de cinco anos atrás pareciam ter sido tiradas ontem. A câmera digital devolvia o envelhecimento natural às memórias.

Cheri Sanih, de 30 anos, administrava uma conta no Tumblr sobre tecnologia antiga que acumulava milhares de seguidores. Seu iPod verde-menta, cheio de capas de álbuns de décadas passadas, era um refúgio: sem notificações, sem algoritmos, apenas música. Monique Wellman-Mason, de 23 anos, havia voltado aos fones com fio depois de se cansar de perder os sem fio — e descobriu vantagens práticas além da nostalgia, por cerca de 20 libras.

Andrew Przybylski, professor de tecnologia e comportamento humano em Oxford, via no fenômeno algo mais profundo do que saudade: um desejo genuíno de controle e propriedade. Ele lembrava da falha nos servidores do Xbox, quando usuários não conseguiam jogar mesmo tendo os jogos em disco físico. 'Imagine se um livro funcionasse dessa maneira', ele dizia. A questão central não era o passado — era a recusa de um presente onde tudo, inclusive a própria experiência, é apenas alugado.

Sábado à tarde, e a primeira complicação já aparecia: a bateria da câmera digital estava em casa, carregando. Quinze anos haviam passado desde a última vez que aquele aparelho havia sido usado, em um passeio de férias em família pelas Ilhas Canárias. Agora, com a bateria finalmente pronta, a ideia era levá-la a um show como experimento.

O que começou como um exercício pessoal revelou algo maior acontecendo nas redes sociais e nas prateleiras de lojas de eletrônicos usados. Câmeras digitais, iPods, fones de ouvido com fio — tecnologias que pareciam enterradas no passado — estavam voltando. No Reino Unido, as vendas de iPods e Walkman através do eBay subiram quase 50% em 2025. As buscas por iPod mini cresceram 48% no mesmo período. Não era um fenômeno isolado. Havia 42 milhões de usuários ativos de câmeras em todo o mundo, com mais de um terço deles entre 18 e 30 anos, amplamente influenciados pelas tendências das redes sociais.

No show, o simples ato de tirar a câmera e olhar através de seu visor minúsculo chamava atenção. "Não vejo uma dessas há anos", comentou um homem que passou. Ele tinha razão. As câmeras digitais tiveram seu apogeu no final dos anos 1990 e início dos 2000, pouco antes dos smartphones explodirem em popularidade. Mas para Lily Redman, criadora de conteúdo de 26 anos do sul do País de Gales, havia uma razão concreta para voltar. As câmeras digitais capturavam uma qualidade que seu celular simplesmente não conseguia reproduzir. O flash do telefone era granulado, com definição muito alta. O resultado de uma câmera digital era mais suave, mais real. "Acho que as pessoas estão buscando um pouco de autenticidade ou algo que pareça um pouco mais real", ela explicava. Isso também explicava por que fotos com baixa exposição — onde as pessoas evitavam filtros prontos para reduzir artificialmente a claridade — estavam ganhando popularidade nas redes. Com câmeras digitais, havia um elemento de surpresa: conectar o leitor de cartão de memória ao computador em casa revelava os momentos capturados. "Se eu olhar para fotos que minha mãe tirou quando eu tinha dois anos, elas parecem tão antigas, mas quando olho para fotos que tirei há cinco anos, elas parecem ter sido tiradas ontem", dizia Redman. "As fotos tiradas com celular distorceram nossa percepção do tempo."

Não eram apenas câmeras que ressurgiam. Os iPods também estavam impulsionando uma tendência maior de retorno aos dispositivos de MP3. Segundo a Backmarket, site especializado em eletrônicos recondicionados, as vendas de iPods cresceram 48% entre 2024 e 2025, com a demanda esperada para acelerar ainda mais em 2026. Cheri Sanih, de 30 anos, administrava uma conta no Tumblr sobre tecnologia antiga que havia ganho milhares de seguidores recentemente. Enquanto navegava pela biblioteca de músicas em seu iPod verde-menta, repleto de capas de álbuns de 15 a 20 anos atrás, as memórias da infância voltavam. Para ela, tudo se resumia à nostalgia de "querer se lembrar de tempos mais simples" e poder "mergulhar no escapismo". Seu celular estava sempre recebendo notificações. Com o iPod, ela podia apenas ouvir música tranquilamente. O design bonito do aparelho e sua interface menos confusa — pensada para humanos, não para algoritmos — faziam diferença.

Os fones de ouvido com fio também ganhavam espaço. Monique Wellman-Mason, de 23 anos, de Bristol, havia trocado seus fones sem fio pelos com fio alguns meses antes. Ela se cansara de perder os aparelhos sem fio e de passar dois minutos desembaraçando cabos toda vez que os tirava da bolsa. Mas havia vantagens reais: o microfone de alta qualidade era útil para seu trabalho como gestora de redes sociais, e havia nostalgia no gesto. Além disso, custavam cerca de 20 libras — aproximadamente 140 reais. "A tecnologia só evolui e estamos sempre buscando a solução mais rápida, mas isso é um passo atrás, de certa forma — e eu adorei", ela dizia.

Andrew Przybylski, professor de tecnologia e comportamento humano na Universidade de Oxford, tinha uma explicação para o fenômeno. A preferência por tecnologias mais básicas se fundamentava no "desejo profundo das pessoas de controlar suas experiências". As pessoas queriam mais do que simplesmente alugar as coisas pelas quais eram apaixonadas. Comprar sua própria música, tirar suas próprias fotos, criar uma conexão real com o objeto — isso importava. Przybylski mencionava a falha nos servidores do Xbox no final de julho, quando usuários não conseguiam jogar mesmo que possuíssem os jogos em discos físicos. "Imagine se um livro funcionasse dessa maneira", ele acrescentava. A questão não era apenas nostalgia. Era sobre propriedade, controle e a recusa de um modelo onde tudo era aluguel.

Acho que as pessoas estão buscando um pouco de autenticidade ou algo que pareça um pouco mais real
— Lily Redman, criadora de conteúdo
A tecnologia só evolui e estamos sempre buscando a solução mais rápida, mas isso é um passo atrás, de certa forma — e eu adorei
— Monique Wellman-Mason, gestora de redes sociais
As pessoas querem mais do que simplesmente alugar as coisas pelas quais são apaixonadas
— Andrew Przybylski, professor de tecnologia e comportamento humano
Envie de l'histoire complète ? Lire l'original sur bbc.com ↗
Nous contacter FAQ