Caixa se reúne com Uruguai para estudar modelo de monopólio estatal em apostas

Taxa de ludopatia no Uruguai é 2%, enquanto jogo problemático no Brasil ultrapassa 5%, indicando impacto na saúde mental da população.
O Brasil estuda como outros países estruturaram monopólios estatais
Após vetar as apostas privadas, o governo explora modelos alternativos de regulação através da experiência uruguaia.
Mark

Por que a Caixa estava no Uruguai justamente quando o Brasil vetava as bets? Parece contraditório.

Mimi

A viagem foi planejada antes do veto, mas o timing revela algo importante: o governo estava explorando alternativas enquanto tomava a decisão de banir o mercado privado. Lula havia mencionado interesse na política uruguaia dias antes.

Luke

Mas precisamos ser claros: a Caixa diz que a viagem não representa uma retomada das apostas. Isso é uma afirmação dos auxiliares, não uma confirmação de fato. Não sabemos ainda qual será a política final.

Mark

E qual é a diferença prática entre o modelo uruguaio e o que o Brasil tinha?

Mimi

O Uruguai tem monopólio estatal puro desde 2017. Nenhuma operadora privada. O Brasil, entre 2024 e setembro de 2026, vendeu licenças para empresas privadas. Agora está voltando atrás.

Luke

Importante: o Uruguai também bloqueia sites ativamente e restringe fluxos financeiros. É um controle muito mais rigoroso do que o Brasil estava fazendo.

Mark

E quanto aos números de vício em jogos? O modelo uruguaio funciona melhor?

Mimi

Os dados sugerem que sim, mas com ressalva. A ludopatia no Uruguai é 2%, enquanto no Brasil era 0,8% a 1%. Mas jogo problemático no Brasil está em 5%, acima dos 4% do Uruguai.

Luke

Aqui temos um problema de interpretação. O Brasil tem uma cena de jogos muito mais recente. Machado, do Hospital das Clínicas, diz que em mercados novos, o jogo problemático é mais relevante. E o dado brasileiro é de 2023, já desatualizado.

Mark

Então não sabemos realmente qual modelo é mais eficaz?

Mimi

Não completamente. A Noruega oferece um exemplo mais claro: duopólio estatal, banimento de propaganda privada, e a taxa de jogadores adoecidos caiu de 1,4% para 0,6% entre 2019 e 2022.

Luke

Mas Noruega é um contexto muito diferente do Brasil. Renda, educação, acesso à saúde mental. Não é uma comparação direta.

  • O governo Lula vetou as bets na última sexta-feira de setembro de 2026, mandando bloquear mais de 5.200 sites de apostas em uma virada abrupta após dois anos de mercado aberto.
  • Ao mesmo tempo em que o veto era anunciado, três altos executivos da Caixa Loterias estavam em Montevidéu estudando o modelo uruguaio — um monopólio estatal que proíbe plataformas privadas e bloqueia provedores de internet não autorizados.
  • O timing não foi coincidência: um dia antes da viagem ser registrada no Diário Oficial, o presidente Lula havia mencionado publicamente ao presidente uruguaio seu interesse no modelo de apostas do país vizinho.
  • O Brasil enfrenta uma taxa de jogo problemático acima de 5%, mais grave do que os 4% do Uruguai, e especialistas alertam que os dados oficiais brasileiros já têm três anos de defasagem.
  • O exemplo norueguês, onde um duopólio estatal reduziu a taxa de jogadores adoecidos de 1,4% para 0,6% em três anos, aponta o caminho que o Brasil pode estar considerando seguir.

Enquanto o governo Lula decretava o fim das apostas privadas no Brasil, executivos da Caixa Loterias estavam em Montevidéu observando como o Uruguai construiu, desde 2017, um monopólio estatal que simplesmente não deixa espaço para operadoras privadas. A visita revela que o Brasil não está apenas fechando uma porta, mas procurando ativamente um modelo diferente para atravessar outra. No horizonte, a questão não é apenas econômica: países com maior controle estatal sobre jogos apresentam taxas menores de dependência, sugerindo que a escolha regulatória tem consequências profundas na saúde coletiva.

Na última semana de setembro, enquanto o veto às apostas online era anunciado em Brasília, três executivos da Caixa Loterias — incluindo o diretor-presidente Renato Silva Siqueira — estavam em Montevidéu reunidos com a agência uruguaia que controla a Supermatch, empresa estatal de apostas. A viagem, registrada no Diário Oficial em 24 de setembro, não foi casual: um dia antes, o presidente Lula havia mencionado publicamente ao seu colega uruguaio Yamandú Orsi, durante a Assembleia-Geral da ONU, seu interesse no modelo de jogos do país vizinho.

O que os brasileiros foram estudar é radicalmente diferente do que o Brasil praticou nos últimos dois anos. Desde 2017, o Uruguai proíbe qualquer plataforma de apostas sem concessão estatal, bloqueia provedores de internet que hospedam sites não autorizados e restringe fluxos financeiros de operadoras clandestinas. Não há licenças para privados — o Estado simplesmente controla tudo através da DNQL e da Supermatch. O Brasil, ao contrário, abriu o mercado para operadoras nacionais e estrangeiras em 2024, e agora recua: o Ministério da Justiça já solicitou o bloqueio de 5.209 sites.

O contraste aparece também na saúde pública. O Brasil registra taxa de jogo problemático acima de 5%, enquanto o Uruguai está em 4%. Especialistas alertam que os dados brasileiros são de 2023 — uma fotografia do passado, não um diagnóstico atual. O modelo norueguês, onde um duopólio estatal reduziu a taxa de jogadores adoecidos de 1,4% para 0,6% entre 2019 e 2022, oferece uma perspectiva de longo prazo sobre o que o controle estatal pode alcançar. O que a Caixa aprendeu em Montevidéu pode moldar como o Brasil regulará jogos nos próximos anos.

Na última semana de setembro, enquanto o governo Lula anunciava o veto às apostas online no Brasil, executivos da Caixa Loterias estavam em Montevidéu estudando como o Uruguai construiu um modelo radicalmente diferente: um monopólio estatal que bane praticamente todas as plataformas privadas de jogos.

Três funcionários de alto escalão viajaram para a capital uruguaia entre 24 e 26 de setembro. Gabriel Antunes Hess, superintendente nacional de loterias, Tiago Cordeiro de Oliveira, diretor-executivo de governança e estratégia, e Renato Silva Siqueira, diretor-presidente da Caixa Loterias, se encontraram com representantes da DNQL (Dirección Nacional de Loterías y Quinielas), a agência que controla a Supermatch, a empresa estatal uruguaia de apostas. A viagem foi registrada no Diário Oficial em 24 de setembro. O timing não era casual: apenas um dia antes, o presidente Lula havia mencionado ao seu colega uruguaio, Yamandú Orsi, seu interesse na política de apostas do país vizinho, em uma publicação nas redes sociais durante a Assembleia-Geral da ONU.

O modelo uruguaio que os executivos brasileiros foram estudar é austero comparado ao que o Brasil experimentou nos últimos dois anos. Desde decretos de 2017, o Uruguai proíbe qualquer forma de jogo de azar ou aposta oferecida por aplicativos, internet ou plataformas tecnológicas, a menos que tenha concessão e autorização governamental prévia. Não existe sistema de licenciamento aberto para operadoras privadas, nacionais ou estrangeiras. O Estado controla diretamente a Supermatch através da DNQL e vai além: realiza bloqueio sistemático de provedores de internet que hospedam plataformas não autorizadas e restringe fluxos financeiros de operadoras internacionais clandestinas.

Este é o oposto do que o Brasil fez entre o segundo semestre de 2024 e a última sexta-feira de setembro de 2026. Naquele período, o governo brasileiro vendeu outorgas para operadoras privadas estrangeiras e nacionais, criando um mercado aberto. Agora, com a medida provisória que veta as bets, o Ministério da Justiça já solicitou o bloqueio de 5.209 sites de apostas. A Caixa, em nota oficial, disse que a viagem foi parte de seu acompanhamento contínuo e responsável do mercado de loterias, realizado com frequência através de visitas institucionais e participação em eventos. Auxiliares do governo afirmaram que a visita, embora tenha sido planejada antes do veto total, não representa uma retomada das operações de apostas no Brasil, e que o foco institucional agora é priorizar as loterias tradicionais.

O contraste entre os dois modelos aparece também nos números de saúde pública. No Uruguai, a taxa de ludopatia (vício em jogos) fica em 2%, enquanto o Brasil registrou entre 0,8% e 1% segundo o Lenad (Levantamento Nacional de Álcool e Drogas) de 2023. Mas quando se olha para jogo problemático, um estágio anterior à ludopatia, o Brasil está em situação mais delicada: a taxa ultrapassa 5%, acima dos 4% encontrados no Uruguai. Rodrigo Machado, coordenador do Grupo de Dependências Tecnológicas do Ambulatório de Psiquiatria do Hospital das Clínicas, explica que em países onde a cena de jogos é mais recente, como o Brasil, o número de casos de jogo problemático tende a ser mais relevante. Ele também aponta que o dado oficial mais recente do Brasil é de 2023, oferecendo uma fotografia do passado, não um diagnóstico atual da situação.

O exemplo norueguês oferece uma perspectiva de longo prazo. Lá, o governo criou um duopólio estatal com duas empresas públicas e baniu a propaganda de agentes privados do exterior. Entre 2019 e 2022, a taxa de jogadores adoecidos caiu de 1,4% para 0,6%, mostrando que modelos de controle estatal podem reduzir danos à saúde pública ao longo do tempo. O Brasil agora está em um ponto de inflexão: depois de experimentar um mercado aberto de apostas privadas, o governo estuda como outros países estruturaram alternativas baseadas no monopólio estatal. O que a Caixa aprendeu em Montevidéu pode informar as decisões sobre como o Brasil regulará jogos nos próximos anos.

Em países como o Brasil em que a cena de jogo é mais recente, o número de casos de jogo problemático é mais relevante
— Rodrigo Machado, coordenador do Grupo de Dependências Tecnológicas do Hospital das Clínicas
A viagem dos servidores não representa uma retomada do funcionamento das empresas de apostas no Brasil, e o foco foi tratar de lotéricas
— Auxiliares do governo
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