Em um país onde o endividamento familiar se tornou uma ferida crônica, o governo Lula prepara uma terceira versão do Desenrola que vai além da mediação: o Estado passará a comprar diretamente carteiras de dívidas inadimplidas, assumindo o papel de credor e repassando descontos de até 90% às famílias. É uma aposta de que a intervenção ativa do poder público pode desfazer nós financeiros que o mercado, sozinho, não conseguiu desatar.
Caixa e BB farão cobranças no Desenrola 3.0; governo comprará dívidas com até 90% de desconto
O governo compra com noventa por cento de desconto e repassa o benefício inteiro
Por que o governo decidiu comprar as dívidas em vez de apenas garantir as renegociações como fazia antes?
Porque assim ele tem controle total sobre o desconto oferecido. Quando o governo era apenas garantidor, dependia do acordo entre credor e devedor. Agora, comprando as carteiras com noventa por cento de desconto, consegue repassar esse benefício inteiro para quem deve.
Mas quem garante que os credores vão vender com noventa por cento de desconto? Isso é o desconto mínimo que o governo quer, ou é o que ele espera conseguir?
É o mínimo que o governo pretende oferecer. O leilão vai selecionar os credores que derem o maior desconto, então na prática pode ser ainda mais.
E como a Caixa e o Banco do Brasil vão cobrar essas dívidas? Eles vão ser agressivos?
A ideia é que usem as políticas de crédito que já têm. Não é cobrar agressivamente, é recuperar o que foi comprado. Mas o devedor pode parcelar se não conseguir pagar à vista.
Espera — o devedor precisa sinalizar que quer o benefício. Quantas pessoas vão saber disso? Quantas vão conseguir se mobilizar para isso?
Boa pergunta. A comunicação ainda não foi totalmente definida. Mas se não sinalizarem, não recebem o desconto.
Qual é o tamanho real do problema que o Desenrola 3.0 está tentando resolver?
O governo estima cento e cinquenta bilhões de reais em dívidas das famílias. Esse programa vai focar nas dívidas de até dez mil reais que estão inadimplidas há dois a quatro anos e meio.
Cento e cinquenta bilhões é uma estimativa do governo ou de uma fonte independente?
É a meta que o governo está usando. Não há confirmação externa disso.
E quando isso começa?
O leilão sai em novembro, propostas em dezembro, e depois leva uns três meses para homologar, assinar contratos e receber as carteiras. Então provavelmente no meio do ano que vem.
El Pulso
- Cerca de R$ 150 bilhões em dívidas de famílias brasileiras estão na mira do programa — um volume que revela a escala do endividamento crônico no país.
- A ruptura com as versões anteriores é estrutural: o governo deixa de ser fiador e passa a ser comprador, adquirindo carteiras inadimplidas diretamente dos credores com desconto mínimo de 90%.
- Caixa Econômica Federal e Banco do Brasil assumem a linha de frente da cobrança, operando um FIDC cujo único cotista seria o Tesouro Nacional — uma arquitetura financeira inédita no programa.
- O devedor não entra automaticamente: precisa sinalizar disposição de quitar o débito para receber o benefício, podendo pagar à vista ou parcelar o saldo restante.
- O leilão das carteiras está previsto para novembro, mas detalhes críticos — como a plataforma de leilão e a definição dos lotes — ainda estão em aberto entre governo e setor privado.
Em um país onde o endividamento familiar se tornou uma ferida crônica, o governo Lula prepara uma terceira versão do Desenrola que vai além da mediação: o Estado passará a comprar diretamente carteiras de dívidas inadimplidas, assumindo o papel de credor e repassando descontos de até 90% às famílias. É uma aposta de que a intervenção ativa do poder público pode desfazer nós financeiros que o mercado, sozinho, não conseguiu desatar.
O governo Lula está desenhando uma terceira versão do Desenrola com uma mudança de fundo: em vez de garantir renegociações já acordadas entre credores e devedores, o Estado entrará como comprador ativo de carteiras de dívidas inadimplidas. A Caixa Econômica Federal e o Banco do Brasil assumirão a cobrança dos beneficiados.
O programa mira dívidas bancárias e não bancárias de até R$ 10 mil, inadimplidas entre dois e quatro anos e meio. O critério de seleção será simples — o governo priorizará as carteiras com maiores descontos oferecidos pelos credores. A meta é aliviar até R$ 150 bilhões em débitos das famílias brasileiras, com a União negociando desconto mínimo de 90% e repassando esse benefício integralmente aos devedores, que poderão quitar à vista ou parcelar o saldo remanescente.
A estrutura prevista é um fundo de investimento em direitos creditórios (FIDC) com o Tesouro Nacional como único cotista. Uma medida provisória já autoriza o Ministério da Fazenda a contratar Caixa ou BB, sem licitação, como agentes operadores — responsáveis pelo leilão, administração das carteiras e cobrança em nome da União.
Ao contrário das versões anteriores, a adesão não será automática: o devedor precisará manifestar disposição de resolver o débito para ter acesso ao desconto. O cronograma prevê o chamamento para propostas em novembro e a chegada das ofertas em dezembro, com o processo completo — leilão, homologação, contratos e recebimento das carteiras — estimado em cerca de três meses. Pontos como a plataforma do leilão e a definição dos lotes ainda estão sendo negociados com o setor privado.
O governo de Luiz Inácio Lula da Silva está estruturando uma terceira versão do Desenrola, seu programa de alívio de dívidas, desta vez com uma mudança fundamental: em vez de apenas garantir renegociações, o Estado comprará carteiras de débitos inadimplidos diretamente dos credores. A Caixa Econômica Federal e o Banco do Brasil assumirão a responsabilidade de cobrar os devedores que aderirem ao programa.
O desenho inicial prevê que o governo adquira carteiras de dívidas bancárias e não bancárias de até dez mil reais, desde que os débitos estejam inadimplidos há no mínimo dois anos e no máximo quatro anos e meio. A seleção das carteiras seguirá um critério simples: o governo escolherá aquelas em que os credores oferecerem o maior desconto. A meta é ambiciosa — eliminar até cento e cinquenta bilhões de reais em dívidas das famílias brasileiras. Para isso, a União negociará um desconto mínimo de noventa por cento junto às instituições financeiras credoras e repassará esse benefício aos devedores, que poderão pagar a dívida à vista ou dividir o saldo remanescente em parcelas.
Este modelo representa uma ruptura com as versões anteriores do Desenrola Brasil, quando a participação estatal se limitava a garantir, por meio de um fundo público, as renegociações que credores e devedores já haviam acordado entre si. Agora o governo entra como comprador ativo no mercado de dívidas. A operacionalização ainda está sendo alinhada entre o governo, os bancos e demais credores, com reuniões técnicas em andamento para definir os detalhes finais.
A estrutura financeira prevista é um fundo de investimento em direitos creditórios, ou FIDC, no qual o Tesouro Nacional seria o único cotista. Esse fundo compraria as carteiras de dívidas. Depois da aquisição, a Caixa e o Banco do Brasil ficariam encarregados da cobrança junto aos beneficiados do programa, aproveitando a expertise que essas instituições já possuem em gestão de crédito. A medida provisória que instituiu a nova fase autoriza o Ministério da Fazenda a contratar, sem licitação, qualquer uma dessas duas instituições como agentes operadores. Suas atribuições incluem operacionalizar o leilão, administrar as carteiras, fazer a cobrança em nome da União e recolher os valores recuperados.
Diferentemente do que ocorria antes, a participação dos devedores desta vez não dependerá de adesão ou consentimento prévio automático. Porém, se uma pessoa tiver um débito na carteira que o governo comprou, ela precisará sinalizar sua disposição de resolver o débito em aberto para receber o benefício. Sem essa manifestação, o desconto não será concedido. Os descontos que a União conseguir junto aos credores serão repassados integralmente aos devedores, que então poderão quitar a dívida de uma só vez ou parcelar o restante, acrescido de juros.
O cronograma do governo prevê a publicação do chamamento para entrega de propostas para o leilão em novembro, com as propostas chegando em dezembro. Depois de lançado o edital, a expectativa é que o processo de leilão, homologação do resultado, assinatura de contratos com os credores e recebimento das carteiras leve cerca de três meses. Ainda há pontos em aberto no setor privado — não está claro se haverá uma plataforma única para o leilão ou como os lotes serão definidos. O governo está priorizando, neste momento, preparar o próprio leilão, fechando o formato, montando regras de verificação e auditoria das carteiras que serão colocadas à venda.
Citas Notables
A participação dos devedores não deve depender de adesão ou anuência prévia, mas a pessoa precisará sinalizar disposição de resolver o débito em aberto para receber o benefício— Interlocutor da equipe econômica