Caiado encerra campanha sem se consolidar como alternativa a Lula e Flávio

Tentou, mas derrapou no objetivo de se tornar a opção mais lembrada
Caiado não conseguiu consolidar-se como alternativa viável apesar de cenário favorável com alta rejeição aos dois principais candidatos.
Mark

Por que Caiado não conseguiu aproveitar um cenário onde quase metade dos eleitores rejeita os dois principais candidatos?

Mimi

Ele tinha o espaço, mas não conseguiu ocupá-lo. Seus debates foram fracos, ele não conseguia detalhar propostas, e cometeu erros básicos como confundir o cargo que disputava. Além disso, sua campanha não saiu de São Paulo e Goiás — ele não era conhecido nacionalmente.

Luke

Mas espera: a pesquisa mostra 45% de rejeição a Lula e Flávio. Caiado tem 4%. Onde estão os outros candidatos? Cury tem 3%, Renan tem 3%, Zema não pontuou. Isso significa que mesmo com espaço, nenhum terceiro candidato conseguiu decolar. Pode ser um problema estrutural da campanha dele, ou pode ser que o eleitor simplesmente não queira um terceiro nome.

Mimi

Cury chegou a dois dígitos em algumas pesquisas em agosto e setembro. Então é possível. Caiado tinha recursos, tinha o apoio do PSD, tinha empresários por trás. Mas não conseguiu transformar isso em voto.

Mark

O episódio do Kassab dormindo — quanto peso isso realmente teve?

Luke

Viralizou, virou meme. Mas é um sintoma, não a causa. O sintoma de uma campanha que não estava funcionando. Se Caiado estivesse em alta, ninguém ligaria para Kassab dormindo.

Mimi

Exatamente. O problema era mais profundo: falta de clareza nas propostas, dificuldade de se comunicar, desconexão com o eleitorado fora de seu reduto.

Mark

E agora? Ele vai apoiar Flávio no segundo turno?

Mimi

A tendência é essa. Caiado sempre foi opositor de Lula, sempre atacou o PT. Se ficar entre Flávio e Lula, é lógico que apoie Flávio.

Luke

Mas ele evitou antecipar isso durante a campanha. Pode ser que esteja negociando algo — ministério, apoio para reeleição em Goiás, algo assim.

Mark

Então a polarização entre Lula e Flávio fica ainda mais forte?

Mimi

Parece que sim. Caiado não conseguiu ser a terceira via. Vai virar mais um apoiador de um dos dois lados.

  • Com 45% dos brasileiros rejeitando Lula e Flávio simultaneamente, havia um vácuo político imenso — e Caiado não conseguiu preenchê-lo, encerrando a campanha com apenas 4% das intenções de voto.
  • Uma série de tropeços corroeu sua credibilidade: respostas vagas sobre o programa de governo, a confusão ao dizer que seria 'governador do estado' e o vice Kassab flagrado dormindo ao vivo no debate da Band.
  • A cena de Kassab viralizou nas redes e, mesmo com a tentativa de Caiado de transformá-la em piada, o dano à imagem da chapa já havia se consolidado no imaginário do eleitorado.
  • Sem reconhecimento nas ruas de São Paulo e sem conseguir nacionalizar seu discurso, Caiado recuou para Goiás — onde seus índices de aprovação ultrapassam 80% —, sinalizando os limites reais de sua candidatura.
  • A tendência é que Caiado apoie Flávio Bolsonaro em um eventual segundo turno, reforçando a polarização que sua candidatura prometia romper.

Em um ciclo eleitoral marcado por rejeição recorde aos dois candidatos dominantes, Ronaldo Caiado chegou ao fim de sua campanha presidencial sem jamais ocupar o espaço que a política parecia reservar para ele. O ex-governador de Goiás, com décadas de trajetória e aprovação expressiva em seu estado, não conseguiu traduzir credenciais regionais em apelo nacional — lembrando que a distância entre governar um lugar e representar um país inteiro pode ser intransponível. A história registra sua candidatura não como uma alternativa que falhou, mas como uma oportunidade que nunca chegou a se tornar real.

Ronaldo Caiado encerrou a campanha presidencial sem cumprir a missão que o PSD lhe atribuiu: ser a alternativa consistente para os brasileiros que rejeitam tanto Lula quanto Flávio Bolsonaro. Vencedor da disputa interna do partido e por meses visto por setores do empresariado paulista como uma opção mais estável, o ex-governador de Goiás viu sua trajetória rumo ao segundo turno desmoronar sob o peso de tropeços sucessivos.

Os números eram implacáveis. Com Lula em 42% e Flávio em 40%, Caiado marcava apenas 4% — mesmo diante de um cenário em que 45% dos eleitores rejeitavam os dois líderes. O espaço existia; a candidatura não soube habitá-lo. Augusto Cury chegou a ultrapassá-lo temporariamente durante agosto e setembro, antes de terminar em 3%.

As crises se acumularam. Nos debates, Caiado era criticado por respostas imprecisas, recorrendo à metáfora médica de 'examinar o paciente' sem convencer. Em sabatina da Folha e do UOL, confundiu o cargo que disputava, dizendo que seria 'governador do estado'. O episódio mais devastador, porém, foi o vice e presidente do PSD, Gilberto Kassab, flagrado dormindo durante sua fala no debate da Band — cena que viralizou nas redes. Kassab negou, Caiado tentou transformar o momento em piada, mas o estrago já estava feito.

Sua agenda junto ao empresariado paulista não resistiu aos golpes. Caiado circulava pela capital sem ser reconhecido nas ruas, distante de um eleitorado sem conexão com Goiás. O programa de governo — com propostas de endurecimento penal, controle de gastos atrelado ao PIB e uso de inteligência artificial na saúde — e nomes como Armínio Fraga e Roberto Azevêdo para o ministério nunca ganharam tração suficiente.

Ao longo da campanha, mudou de marqueteiro e passou a atacar Flávio de forma mais direta, mas sem alterar sua trajetória nas pesquisas. Com a candidatura estagnada, voltou o olhar para Goiás — onde sua aprovação ultrapassa 80% —, e no domingo de apuração estaria em Goiânia ao lado da esposa Gracinha, candidata ao Senado. Sua vasta experiência política, da Câmara ao governo estadual, e suas bandeiras históricas de segurança pública e combate à corrupção não foram suficientes para transformá-lo na alternativa que o momento político parecia oferecer.

Ronaldo Caiado chegou ao final da campanha presidencial sem conseguir o que o PSD esperava dele: consolidar-se como a opção clara para quem rejeita tanto Lula quanto Flávio Bolsonaro. O ex-governador de Goiás venceu a disputa interna do partido contra Eduardo Leite e Ratinho Jr., e durante meses alguns empresários paulistas o enxergaram como uma alternativa mais estável que o senador bolsonarista. Mas a trajetória que deveria levá-lo ao segundo turno desabou sob o peso de uma série de tropeços que expuseram as fragilezas de sua candidatura.

Os números falam por si. Na pesquisa Datafolha divulgada no sábado anterior ao pleito, Caiado marcava 4% das intenções de voto, enquanto Lula e Flávio dominavam com 42% e 40% respectivamente. O cenário era propício: 45% dos brasileiros rejeitavam ambos os principais candidatos, segundo levantamento do mesmo instituto. Era exatamente o espaço que Caiado deveria ocupar. Augusto Cury, do Avante, havia chegado a dois dígitos em algumas pesquisas durante agosto e setembro, ultrapassando temporariamente o goiano. Cury terminou em 3%, mesmo patamar de Renan Santos. Romeu Zema não pontuou.

A campanha enfrentou uma sucessão de crises que minaram sua credibilidade. Nos debates e entrevistas, Caiado foi criticado por não conseguir detalhar seus planos de governo com clareza. Quando questionado, o médico respondia que só era possível "examinar o paciente" — uma metáfora que não convencia. Houve ainda o episódio em que confundiu o cargo que disputava, dizendo durante sabatina da Folha e do UOL que se tornaria "governador do estado". Mas talvez o momento mais prejudicial tenha sido quando seu vice e presidente do partido, Gilberto Kassab, foi flagrado dormindo durante sua fala no debate da TV Bandeirantes em agosto. A cena viralizou nas redes sociais. Kassab negou, afirmando que mexia no celular. Depois, Caiado tentou transformar o episódio em brincadeira, publicando que "comigo na Presidência, você vai dormir tranquilo igual ao Gilberto Kassab no debate". O estrago já estava feito.

Sua agenda junto ao empresariado de São Paulo em busca de apoio não resistiu aos golpes. Caiado pedia que "espalhassem a palavra" para torná-lo mais popular, mas seguia em compromissos na capital paulista sem ser reconhecido nas ruas, distante do eleitorado que não tinha conexão com Goiás. A nacionalização do discurso nunca saiu do papel.

O programa de governo focava em temas que Caiado sempre tentou associar a seu nome. Na segurança pública, prometia endurecer penas, classificar organizações criminosas como terroristas e criar uma polícia conjunta com países vizinhos. Na economia, propunha reduzir despesas e atrelá-las a no máximo 50% do PIB, com ênfase no corte de emendas parlamentares. Para a saúde, defendia reduzir filas do SUS, investir em prevenção e usar inteligência artificial para auxiliar profissionais. Citou nomes como Armínio Fraga para a Fazenda, Roberto Azevêdo para Relações Exteriores e a cardiologista Ludhmila Hajjar para a Saúde. O promotor Lincoln Gakiya foi mencionado para Segurança Pública, embora tenha se recusado a comentar o convite por estar na ativa.

Ao longo da campanha, Caiado ajustou sua estratégia. Inicialmente não atacava Flávio Bolsonaro frontalmente, mas depois passou a criticá-lo de forma mais direta, tentando conquistar eleitores críticos ao filho do ex-presidente. A mudança foi tão significativa que resultou na troca de seu marqueteiro Paulo Vasconcelos pelo publicitário Marcos Carvalho, que defendia uma postura de maior embate. Seu alvo permanente, porém, era Lula, contra quem reforçava oposição forte e associava à corrupção. Essa dinâmica sugeria que em um eventual segundo turno entre Flávio e Lula, Caiado apoiaria o senador, embora tenha evitado antecipar essa decisão.

Na medida em que a campanha não decolava, Caiado voltou sua atenção para Goiás, onde gostava de lembrar que seus índices de aprovação ultrapassavam 80%. No domingo de apuração, estaria em Goiânia ao lado da esposa Gracinha, que disputava uma vaga no Senado pelo União Brasil. Sua trajetória política havia começado como deputado federal em 1991, passando por cinco mandatos. Em 2014 foi eleito senador por Goiás. Chegou ao Executivo estadual em 2018 e foi reeleito em seguida. Sua atuação sempre se marcou pela defesa do agronegócio, oposição ao PT e apelo às bandeiras de segurança pública e combate à corrupção. Mas nenhuma dessas marcas foi suficiente para transformá-lo na alternativa que o momento político parecia oferecer.

Examinar o paciente — equivalente a dar mais detalhes sobre como sanar os problemas do país estando na cadeira de presidente
— Ronaldo Caiado, respondendo críticas sobre falta de detalhamento de propostas
Comigo na Presidência, você vai dormir tranquilo igual ao Gilberto Kassab no debate
— Ronaldo Caiado, em publicação nas redes sociais tentando transformar em brincadeira o episódio do vice dormindo
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