Um queijo azul é um queijo azul, mas um gorgonzola é história
Queijos com mofo azul produzidos no Brasil após 2020 já são comercializados como 'queijo azul' para se antecipar ao acordo que ainda não entrou em vigor. Apenas produtores que usavam comercialmente nomes como gorgonzola, parmesão, gruyère e grana antes de datas específicas poderão continuar usando essas denominações.
- Acordo UE-Mercosul de 2019 ainda não entrou em vigor, mas já muda rótulos de queijos
- Brasil reconhecerá 355 indicações geográficas europeias; UE reconhecerá apenas 38 brasileiras
- Produtores que usavam gorgonzola antes de 2017 podem continuar; após 2020, novos produtos são 'queijo azul'
- Violação de Indicação Geográfica é crime tipificado na Lei de Propriedade Industrial
Um acordo entre União Europeia e Mercosul estabelece que queijos como gorgonzola só podem usar esse nome se produzidos na região italiana de origem. Fabricantes brasileiras já adotam 'queijo azul' para se adequar às novas regras de Indicação Geográfica.
Procure por gorgonzola nas prateleiras de um supermercado brasileiro e você pode encontrar algo chamado simplesmente 'queijo azul'. Não é coincidência. Um acordo entre a União Europeia e o Mercosul, assinado em 2019 mas ainda não implementado, está redesenhando como os queijos europeus clássicos podem ser nomeados e vendidos no Brasil. A mudança gira em torno de um conceito chamado Indicação Geográfica — a ideia de que certos produtos só merecem certos nomes se vêm de certos lugares.
O gorgonzola, por exemplo, é um queijo que existe há séculos numa pequena vila italiana com o mesmo nome. Sob as novas regras, apenas produtores daquela região específica têm direito legal de chamar seu produto de gorgonzola. O mesmo vale para parmesão, gruyère, grana e outros queijos europeus tradicionais. Mas há uma salvaguarda: fabricantes que já usavam esses nomes comercialmente antes de datas específicas — até 2012 para gruyère e grana, até 2017 para gorgonzola e parmesão — podem continuar usando essas denominações. Segundo Silmara Figueiredo, coordenadora de marketing da Associação Brasileira das Indústrias de Queijo, essa janela de proteção foi negociada para evitar que empresas estabelecidas perdessem seus nomes de um dia para o outro.
O que é curioso é que o acordo ainda nem entrou em vigor, mas já está mudando o que você vê nas lojas. Fabricantes brasileiras, especialmente aquelas lançando novos produtos, já adotaram a nomenclatura 'queijo azul' em seus rótulos. Laticínios que começaram a produzir queijos com mofo azul a partir de 2020 — usando tecnologia de maturação específica — registraram seus produtos com esse novo nome genérico. Não é por acaso. Essas empresas estão se antecipando, evitando ter que mudar rótulos, embalagens e estratégias de marketing quando o acordo finalmente virar lei. O Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços reconhece esse padrão, apontando que a experiência com o roquefort — um queijo já protegido como denominação de origem — mostrou aos produtores o caminho: não use o nome protegido agora, e você não terá problemas depois.
As Indicações Geográficas funcionam em duas categorias no Brasil. Uma é a indicação de procedência, que marca uma região famosa por oferecer determinado produto. A outra é a indicação de origem, aplicada quando as características do produto vêm especificamente das condições daquele lugar — o clima, o solo, a água, a tradição. Para que uma IG seja aprovada, essas características naturais ou culturais precisam ser determinantes para a qualidade do que é produzido ali. Não é apenas um nome; é uma promessa sobre o que o consumidor está comprando.
O desequilíbrio no acordo é notável. O Brasil se comprometeu a reconhecer 355 indicações geográficas europeias. A União Europeia, em troca, reconhecerá apenas 38 produtos brasileiros. Essa disparidade reflete uma realidade econômica: a Europa tem séculos de tradição em produtos regionais protegidos, enquanto o Brasil ainda está construindo essa reputação. O Ministério da Agricultura definiu em 2022 uma lista de produtores que podem continuar usando nomes como fontina, gorgonzola, grana, gruyère e parmesão, além de bebidas como genebra e steinhaeger. Quem não está nessa lista não poderá usar esses termos após a implementação do acordo. Restaurantes, pizzarias e importadores não são afetados — apenas produtores.
Para quem viola as regras, as consequências são sérias. A violação de uma Indicação Geográfica é crime sob a Lei de Propriedade Industrial, tipificada em três artigos. Além de multas, produtos podem ser apreendidos e a empresa impedida de continuar produzindo e comercializando. Elton Minasse, sócio de um escritório de advocacia especializado no tema, enfatiza que o sistema é rigoroso. Ele também aponta que o Brasil precisa investir em seus próprios regionalismos — cachaça de Salinas, por exemplo, já é protegida dessa forma — para que produtos nacionais ganhem a mesma estatura internacional que os europeus.
Laís Novoa, especialista em queijos, vê a mudança com pragmatismo. Ela trabalha educando consumidores a pensar além do nome, a entender as características do queijo — sua textura, seu sabor, sua categoria — em vez de se fixar em uma denominação. A composição dos produtos permanece a mesma, ela ressalta. Um queijo azul brasileiro continua sendo um queijo azul brasileiro, independentemente do que está escrito no rótulo. Mas há algo perdido quando um nome desaparece das prateleiras. Nomes carregam história, tradição, expectativa. A mudança de gorgonzola para queijo azul é, em certo sentido, uma democratização — qualquer produtor pode fazer um queijo azul. Mas também é uma perda de identidade, uma homogeneização de algo que era específico.
Notable Quotes
Laticínios que lançaram produtos com tecnologia de maturação de queijos com mofo azul a partir de 2020 passaram a registrá-los como queijo azul, para não ter que mudar quando o acordo passar a vigorar— Silmara Figueiredo, coordenadora de marketing da ABIQ
Decisões como essas fazem bem para nós, consumidores, para conseguirmos comprar mais pelas características que o queijo tem do que pelo que ele é chamado— Laís Novoa, especialista em queijos
The Hearth Conversation Another angle on the story
Por que um acordo comercial entre blocos econômicos está mudando o que está escrito nas embalagens de queijo?
Porque nomes como gorgonzola não são apenas palavras — são propriedade intelectual. A Europa protege seus produtos regionais há séculos. O acordo reconhece isso legalmente, dizendo que só quem produz em Gorgonzola, na Itália, pode chamar seu queijo de gorgonzola.
Mas as empresas brasileiras já usavam esses nomes há anos. Por que perdem agora?
Nem todas perdem. Quem usava gorgonzola comercialmente antes de 2017 pode continuar. Mas quem começou depois disso não pode. É uma linha na areia. E muitas empresas novas estão se antecipando, mudando para 'queijo azul' antes mesmo do acordo entrar em vigor.
Isso é bom ou ruim para o consumidor?
Depende do que você valoriza. Se você compra pelo nome e pela tradição que ele carrega, é uma perda. Se você compra pelas características do produto — textura, sabor, origem — muda pouco. Um queijo azul é um queijo azul.
E para o Brasil como país?
Há um desequilíbrio. O Brasil reconhece 355 indicações geográficas europeias. A Europa reconhece apenas 38 brasileiras. Isso significa que produtos europeus ganham proteção legal aqui, mas produtos brasileiros não ganham a mesma proteção lá.
O Brasil tem produtos regionais que mereceriam essa proteção?
Tem. Cachaça de Salinas, por exemplo, já é protegida. Mas o Brasil precisa investir mais em construir a reputação internacional de seus regionalismos. A Europa tem séculos de vantagem.
E se uma empresa não se adequar às novas regras?
É crime. Seus produtos podem ser apreendidos. A empresa pode ser impedida de produzir e comercializar. Não é apenas uma multa — é uma violação tipificada na Lei de Propriedade Industrial.