No inverno de 2024, quando o silêncio gelado deveria reinar sem contestação, uma ferida do tamanho de Portugal abriu-se na Baía de Breid, na Antártida Oriental — um vazio de quase 89 mil quilômetros quadrados onde deveria haver gelo sólido. Seis rios atmosféricos de intensidade sem precedente histórico, combinados ao calor ascendente do oceano, conspiraram para manter essa abertura por meses. O evento desafia a narrativa simples do derretimento e revela que as conversas entre atmosfera e oceano nos confins do planeta são mais turbulentas e imprevisíveis do que a ciência havia imaginado.
Buraco do tamanho de Portugal surge no gelo antártico durante inverno e intriga cientistas
O oceano mantinha a superfície aberta de dentro para fora
Como um buraco desse tamanho consegue se abrir no meio do inverno antártico? Não deveria estar tudo congelado?
Deveria, sim. É por isso que é tão intrigante. A cobertura de gelo começou a diminuir antes mesmo do fenômeno extremo chegar — caiu de 96% para menos de 25% em um mês. Depois vieram seis rios atmosféricos carregando umidade extrema.
Mas qual foi a causa raiz? O gelo enfraqueceu primeiro, ou os rios atmosféricos chegaram e causaram o enfraquecimento?
Parece ter sido uma sequência. O gelo já estava se reduzindo em julho, deixando a região vulnerável. Depois os rios atmosféricos chegaram e mantiveram a superfície aberta.
E o oceano? Qual foi o papel dele?
Tão importante quanto a atmosfera. O oceano começou a fornecer calor de baixo para cima, impedindo que novas áreas congeladas se formassem. Não foi apenas o ar quente derretendo o gelo — foi o oceano aquecendo a superfície de dentro para fora.
O estudo quantifica quanto do aquecimento veio de cada fonte? Quanto foi atmosférico e quanto foi oceânico?
O estudo estima um aquecimento atmosférico anormal de 19 graus Celsius, mas não separa precisamente as contribuições. Sabe-se que ambas foram significativas.
Isso pode acontecer novamente?
É a grande pergunta. Não há precedentes desde 1979, então não sabemos se é um evento raro ou se está se tornando mais comum.
E quanto aos rios atmosféricos — eles estão se tornando mais frequentes ou mais intensos em geral?
O estudo não aborda isso diretamente. Apenas documenta que este foi extremo — percentil 99 nos registros históricos.
Então basicamente, temos um evento sem precedentes causado por uma combinação de fatores que ainda não entendemos completamente.
Exatamente. E isso é o que torna a pesquisa importante — mostra que nossas explicações simples sobre derretimento de gelo não capturam a complexidade do que está realmente acontecendo.
El Pulso
- Em apenas 30 dias, a cobertura de gelo da Baía de Breid despencou de 96% para menos de 25% — uma velocidade de colapso que não tem paralelo nos registros satelitais desde 1979.
- Seis rios atmosféricos consecutivos transportaram umidade em níveis que superaram o percentil 99 de todos os eventos registrados nas últimas quatro décadas, transformando o inverno antártico em algo irreconhecível.
- O aquecimento atmosférico anormal chegou a 19°C acima do esperado, enquanto o oceano, aquecido por baixo, impedia ativamente a recongelação da superfície.
- Pesquisadores publicados na Geophysical Research Letters alertam que o fenômeno não se explica por uma causa única — foi uma amplificação mútua entre forças atmosféricas e oceânicas operando ao mesmo tempo.
- O buraco na Antártida Oriental sinaliza que os sistemas de gelo do planeta podem ser mais vulneráveis e mais voláteis do que os modelos climáticos atuais conseguem prever.
No inverno de 2024, quando o silêncio gelado deveria reinar sem contestação, uma ferida do tamanho de Portugal abriu-se na Baía de Breid, na Antártida Oriental — um vazio de quase 89 mil quilômetros quadrados onde deveria haver gelo sólido. Seis rios atmosféricos de intensidade sem precedente histórico, combinados ao calor ascendente do oceano, conspiraram para manter essa abertura por meses. O evento desafia a narrativa simples do derretimento e revela que as conversas entre atmosfera e oceano nos confins do planeta são mais turbulentas e imprevisíveis do que a ciência havia imaginado.
Em julho de 2024, no auge do inverno antártico, uma abertura do tamanho de Portugal surgiu na Baía de Breid, na Antártida Oriental. Quase 89 mil quilômetros quadrados de mar aberto apareceram onde a região deveria estar no seu estado mais congelado — um evento sem precedentes em toda a era de observação por satélite, iniciada em 1979.
A velocidade do colapso foi tão impressionante quanto a escala. No início de julho, cerca de 96% da superfície da baía estava coberta por gelo. Trinta dias depois, essa cobertura havia recuado para menos de 25%. Esse enfraquecimento acelerado deixou a região exposta ao que viria a seguir: uma sucessão de seis rios atmosféricos extremos entre julho e agosto, corredores de ar carregados de vapor de água que percorrem milhares de quilômetros. O transporte de umidade em direção ao polo superou o percentil 99 de todos os registros históricos entre 1979 e 2023 — um evento fora da escala conhecida.
Os pesquisadores, cujas conclusões foram publicadas em 2026 na revista Geophysical Research Letters, identificaram múltiplas forças agindo ao mesmo tempo: aumento da radiação de ondas longas, aquecimento anormal da atmosfera, precipitação de neve relativamente quente e, de forma decisiva, o próprio oceano fornecendo calor de baixo para cima, impedindo a recongelação da superfície. O aquecimento atmosférico anormal estimado chegou a aproximadamente 19 graus Celsius — um salto extraordinário para uma das regiões mais frias do planeta.
O fenômeno da Baía de Breid desafia explicações simples. Não foi apenas temperatura mais alta derretendo gelo — foi uma confluência de forças atmosféricas e oceânicas que se reforçaram mutuamente, mantendo aberta uma ferida no inverno antártico por meses. Para a ciência, o episódio sugere que as interações entre atmosfera e oceano na Antártida são mais complexas e potencialmente mais voláteis do que se compreendia até agora.
Em julho de 2024, durante o inverno antártico, uma área de mar aberto do tamanho de Portugal abriu-se na Baía de Breid, na Antártida Oriental — um evento que não tem precedentes nos registros de observação por satélite que começaram em 1979. A cratera de gelo cobria quase 89 mil quilômetros quadrados, uma abertura que intrigou cientistas porque ocorreu justamente quando a região deveria estar mais congelada.
O que tornou o fenômeno extraordinário foi sua velocidade e a sequência de condições que o provocaram. No início de julho, aproximadamente 96% da superfície da baía estava coberta por gelo. Trinta dias depois, em 30 de julho, essa cobertura havia caído para menos de 25%. Esse enfraquecimento rápido deixou a região vulnerável ao que viria a seguir — um bombardeio de seis rios atmosféricos extremos entre julho e agosto.
Os rios atmosféricos, também chamados de "rios no céu", são corredores de ar que transportam quantidades enormes de vapor de água por milhares de quilômetros. Durante o episódio na Antártida, o transporte de umidade em direção ao polo superou o percentil 99 quando comparado a todos os registros observados entre 1979 e 2023. Não era apenas um evento extremo — era um evento fora da escala histórica.
Mas o derretimento não foi simples. Os pesquisadores, cujas conclusões foram publicadas em 2026 na revista Geophysical Research Letters, descobriram que múltiplas forças trabalhavam simultaneamente. Houve aumento da radiação de ondas longas direcionada à superfície, aquecimento anormal da atmosfera, precipitação de neve relativamente quente e, crucialmente, o oceano começou a fornecer calor de baixo para cima. Essas condições atmosféricas dificultaram a formação de novas áreas congeladas enquanto o oceano mantinha a superfície do mar aberta.
O estudo estimou que esses eventos provocaram um aquecimento atmosférico anormal de aproximadamente 19 graus Celsius — um salto extraordinário para uma região que já é uma das mais frias do planeta. Os cientistas ressaltam que o fenômeno não pode ser explicado apenas pela ideia simplista de que o calor derreteu o gelo. O que ocorreu foi uma interação complexa entre a atmosfera e o oceano, onde condições extremas em ambos os domínios se reforçaram mutuamente.
O buraco na Baía de Breid representa um desafio às explicações convencionais sobre como o gelo antártico responde ao aquecimento. Não foi apenas uma questão de temperatura mais alta. Foi uma confluência de rios atmosféricos carregados de umidade, ondas de calor, e um oceano que contribuiu ativamente para manter a superfície aberta durante meses quando deveria estar congelada. O fenômeno sugere que as interações entre atmosfera e oceano na Antártida são mais complexas e potencialmente mais voláteis do que se compreendia anteriormente.
Citas Notables
O fenômeno não pode ser explicado apenas pela ideia de que o calor derreteu o gelo— Pesquisadores do estudo publicado em Geophysical Research Letters