Em meio à crescente disputa por autonomia financeira global, os países do BRICS debatem a construção de um corredor de pagamentos que conectaria sistemas instantâneos, moedas digitais e transações em moedas locais — sem criar uma moeda única, mas reduzindo a dependência das rotas controladas pelo dólar. A Índia apresenta sua plataforma UPI, que processou mais de 23 bilhões de transações em julho de 2026, como possível espinha dorsal dessa arquitetura. O projeto revela tanto a ambição coletiva do bloco quanto as tensões internas que acompanham qualquer tentativa de redistribuir poder financeiro
BRICS discute corredor de pagamentos para reduzir dependência do dólar
Construir autonomia financeira sem concentrar poder em um único país
Por que o BRICS está discutindo isso agora? O dólar não é a moeda padrão há décadas?
É verdade, mas a pressão aumentou. Sanções, bloqueios de acesso a sistemas ocidentais — os países do bloco querem alternativas reais. A UPI da Índia processou 23 bilhões de transações em um mês. Isso mostra que a tecnologia existe.
Mas existe uma diferença entre uma plataforma doméstica bem-sucedida e uma rede internacional. A UPI funciona porque todos os indianos usam. Conectar cinco países com moedas, regulações e sistemas bancários diferentes é outra história.
Quais são os maiores obstáculos técnicos?
Padrões comuns, segurança de dados, conversão entre moedas. Mas o maior é político — como garantir que nenhum país, especialmente a China, controle a rede?
Exatamente. O BRICS quer sair da dependência do dólar, mas está correndo o risco de trocar uma dependência por outra. E ainda não sabemos se os bancos centrais vão realmente confiar uns nos outros o suficiente para isso funcionar.
E se conseguirem? O que muda?
Exportadores liquidam mais rápido. Remessas custam menos. Comércio entre os países fica mais fluido. E, estrategicamente, o bloco ganha autonomia.
Se conseguirem. Mas essa é uma palavra grande. Ainda estão em discussão. Sem cronograma, sem padrões definidos, sem acordo sobre quem governa a rede.
Il Polso
- A urgência cresce à medida que sanções ocidentais demonstram a vulnerabilidade dos países do BRICS a mecanismos financeiros que não controlam.
- A proposta agita o bloco ao colocar em disputa quem definirá os padrões técnicos e quem concentrará influência sobre a nova infraestrutura — com a China no centro das preocupações.
- A Índia avança como protagonista tecnológica ao oferecer a UPI, mas a integração com os sistemas de pagamento dos demais membros exige negociações complexas sobre soberania de dados e protocolos comuns.
- O projeto busca permitir que exportadores, viajantes e remetentes internacionais liquidem operações em reais, rúpias, yuans e rublos — sem passar pelo dólar como moeda intermediária.
- A trajetória ainda é incerta: sem padrões definidos, sem mecanismos de conversão acordados e sem confiança política consolidada, o corredor permanece mais intenção estratégica do que realidade operacional.
Em meio à crescente disputa por autonomia financeira global, os países do BRICS debatem a construção de um corredor de pagamentos que conectaria sistemas instantâneos, moedas digitais e transações em moedas locais — sem criar uma moeda única, mas reduzindo a dependência das rotas controladas pelo dólar. A Índia apresenta sua plataforma UPI, que processou mais de 23 bilhões de transações em julho de 2026, como possível espinha dorsal dessa arquitetura. O projeto revela tanto a ambição coletiva do bloco quanto as tensões internas que acompanham qualquer tentativa de redistribuir poder financeiro entre nações com interesses distintos.
O BRICS discute a criação de um corredor de pagamentos internacional que funcionaria como alternativa aos canais financeiros dominados pelo dólar. A proposta não prevê moeda única, mas busca conectar sistemas de transferência instantânea, moedas digitais de bancos centrais e operações em moedas locais — permitindo que os países do bloco negociem entre si com menor dependência da moeda americana.
A Índia entra no debate com vantagem concreta: a UPI, plataforma que processou 23,66 bilhões de transações em julho de 2026, movimentando cerca de US$ 314 bilhões. Essa escala coloca o sistema indiano como candidato natural à espinha dorsal do corredor. A questão é se essa infraestrutura pode ser integrada às redes de pagamento dos demais membros do bloco.
As implicações práticas seriam imediatas. Exportadores, viajantes e pessoas que enviam remessas poderiam liquidar transações com menos intermediação e em moedas locais — real, rúpia, yuan, rublo — reduzindo a exposição a mecanismos controlados por potências ocidentais. O objetivo estratégico é construir autonomia financeira diante de um sistema internacional que pode ser usado como instrumento de pressão política.
Mas o projeto enfrenta obstáculos reais. Os países precisam definir padrões técnicos comuns, estabelecer protocolos de segurança de dados e criar mecanismos eficientes de conversão entre moedas. Há também uma tensão interna delicada: ao buscar escapar da dependência do dólar, o bloco precisa evitar que a nova infraestrutura concentre poder excessivo em um único membro — especialmente a China.
O corredor permanece sem definição final. Sua viabilidade dependerá da capacidade dos países de alinhar interesses técnicos e políticos entre sistemas financeiros que historicamente operaram de forma isolada — um desafio que combinará ambição econômica com complexidade diplomática por anos.
O BRICS está explorando a criação de um corredor de pagamentos internacional que funcionaria como uma alternativa aos canais financeiros dominados pelo dólar e pelas instituições ocidentais. A proposta, ainda em fase de discussão, não prevê o lançamento de uma moeda única entre os membros do bloco. Em vez disso, busca conectar sistemas de transferência instantânea, moedas digitais emitidas por bancos centrais e operações comerciais realizadas em moedas locais — uma arquitetura que permitiria aos países do BRICS negociar entre si com menos dependência da moeda americana.
A Índia entra nesse debate com uma vantagem tecnológica significativa: a UPI, sua plataforma de pagamentos instantâneos. Em julho de 2026, o sistema processou 23,66 bilhões de transações, movimentando aproximadamente US$ 314 bilhões. Essa escala operacional coloca a UPI como candidata natural para servir como espinha dorsal de um corredor mais amplo. A questão central agora é se essa infraestrutura indiana pode ser integrada a uma rede que conecte os sistemas de pagamento dos demais membros do bloco.
Uma rede desse tipo teria implicações práticas imediatas. Exportadores, viajantes, empresas multinacionais e pessoas que enviam dinheiro para o exterior poderiam liquidar transações mais rapidamente e com menos intermediação. Mais importante ainda, as operações entre economias do BRICS poderiam ocorrer predominantemente em moedas locais — real, rúpia, yuan, rublo — reduzindo a necessidade de converter tudo para dólar e, com isso, diminuindo a exposição a mecanismos financeiros controlados por potências ocidentais.
O objetivo estratégico é claro: construir autonomia financeira. O BRICS há anos busca reduzir sua vulnerabilidade a sanções e pressões exercidas através do sistema de pagamentos internacional. Um corredor próprio representaria um passo concreto nessa direção. Mas a construção dessa alternativa enfrenta obstáculos técnicos e políticos reais. Os países precisam definir padrões técnicos comuns, estabelecer protocolos robustos de segurança de dados, criar mecanismos eficientes de conversão entre moedas e, talvez o mais delicado, construir confiança política suficiente para sustentar uma rede transfronteiriça de pagamentos.
O debate envolve múltiplas frentes. Além da UPI, estão em análise as moedas digitais dos bancos centrais, o projeto BRICS Pay e o papel do Novo Banco de Desenvolvimento, instituição criada pelo bloco para financiar infraestrutura. Cada uma dessas peças poderia contribuir para a rede final, mas também representa interesses distintos e, em alguns casos, competição entre os membros.
Aqui emerge uma tensão interna ao BRICS. Enquanto o bloco busca se libertar da dependência do dólar, precisa evitar que uma nova infraestrutura concentre poder excessivo em um único país — particularmente a China, que já exerce influência significativa sobre as finanças regionais. Para a Índia, integrar a UPI a uma rede internacional do BRICS ampliaria o alcance de sua tecnologia financeira e reforçaria seu papel como potência tecnológica. Para o bloco como um todo, a proposta representa uma tentativa de criar caminhos próprios para comércio, liquidação e remessas em um contexto de disputa crescente por autonomia financeira.
O projeto permanece sem definição final. Sua viabilidade dependerá da capacidade dos países do BRICS de alinhar padrões técnicos, proteger dados sensíveis, garantir conversão eficiente entre moedas e, acima de tudo, construir confiança entre sistemas financeiros que historicamente operaram de forma isolada. Trata-se de um desafio que combina ambição econômica com complexidade política — e cujo resultado moldará a arquitetura financeira dos próximos anos.
Citazioni salienti
A proposta não trata da adoção de uma moeda comum entre os países do bloco— The Times of India