Brasileiro e ex-imigrante irregular é eleito deputado estadual na Flórida

Um ex-imigrante irregular chega à Câmara da Flórida com cerca de 63% dos votos
Felipe Sousa Lazaballet venceu o republicano na região de Orlando nas eleições de meio de mandato.
Mark

Por que essa eleição chama tanta atenção?

Mimi

Por ser a primeira vez que um brasileiro chega à Câmara estadual da Flórida. E ele também é o primeiro imigrante abertamente gay no cargo, depois de anos sem documentos.

Mark

Como ele chegou aos EUA?

Mimi

Aos 14 anos, em 2001, com visto de turista, levado pela irmã mais velha. Só aos 16 entendeu o que a situação irregular significava.

Luke

Vale separar o que é fato do que é relato dele. A irregularidade e a eleição estão confirmadas, mas a memória sobre o colégio e o desempenho escolar vem do que ele contou à reportagem.

Mark

E o Daca, qual o papel?

Mimi

Em 2012 ele recebeu a proteção de dois anos e a autorização de trabalho. Hoje há 2.990 brasileiros entre os 436 mil beneficiários.

Luke

E o resultado? "Cerca de 63%" é aproximado; o texto não traz o número final da apuração nem o nome do adversário republicano.

Mark

O que o texto diz sobre o que ele fará no mandato?

Mimi

Que ele sempre defendeu a agenda migratória. Mas uma Câmara estadual não legaliza dreamers, isso é questão federal.

Luke

Exato. O que ele fará concretamente ainda não está dito.

  • Eleito com cerca de 63% dos votos na região metropolitana de Orlando, ele quebra uma barreira inédita para brasileiros na Câmara estadual da Flórida.
  • Chegou aos 14 anos com visto de turista e viveu anos sob o risco da irregularidade, sem poder cursar universidade.
  • Encontrou uma saída numa faculdade que aceitava imigrantes sem documentos e, depois, uniu-se à luta dos dreamers em marchas e atos pela legalização.
  • Beneficiado pelo Daca, agora carrega a agenda migratória para dentro do Legislativo, num momento em que o programa segue sob disputa.
  • Sua eleição coloca em pauta a legalização dos dreamers, com a Câmara da Flórida como novo palco para uma batalha que ainda não terminou.

Num dia em que os Estados Unidos votavam nas eleições de meio de mandato, um homem nascido em Duque de Caxias, que chegou à Flórida aos 14 anos com um visto vencido no bolso e a promessa de uma vida melhor, passou a ocupar uma cadeira na Câmara estadual. Sua trajetória, marcada pela busca de educação, pela sombra da irregularidade e pela proteção incerta de um programa criado por decreto, mostra como uma política pública pode transformar o destino de uma pessoa e, ao mesmo tempo, deixar em aberto a pergunta sobre quem pertence de fato a um país. Felipe Sousa Lazaballet não representa apenas a primeira vitória de um brasileiro nesse cargo, mas a chegada ao poder de alguém que conhece a fronteira por dentro.

Na terça-feira (3), dia de eleições de meio de mandato nos Estados Unidos, o democrata Felipe Sousa Lazaballet, 40 anos, foi eleito deputado estadual na Flórida com cerca de 63% dos votos, na região metropolitana de Orlando. Ele é o primeiro brasileiro a ocupar uma cadeira na Câmara estadual e também o primeiro imigrante abertamente gay a chegar ao cargo no estado.

A história começa em Duque de Caxias, no Rio de Janeiro, onde ele cresceu com a mãe, empregada doméstica natural do Ceará. Aos 14 anos, em 2001, foi levado aos EUA pela irmã mais velha, que havia emigrado seis anos antes. Viajou com visto de turista, com a promessa de que seria trazido em definitivo quando a família se estabilizasse. Na escola, destacou-se entre os melhores alunos.

Aos 16 anos, percebeu que estava em situação irregular, o que o impedia de cursar uma universidade, segundo o orientador escolar. Foi um conhecido da igreja que lhe indicou o Miami Dade College, que aceitava imigrantes sem documentos. Ali estudou relações internacionais.

Na mesma época, crescia a mobilização dos dreamers, jovens trazidos aos EUA na infância. Em 2010, Felipe ajudou a organizar a Trail of Dreams, marcha de cerca de 1.500 km da Flórida a Washington. Dois anos depois, o programa Daca, criado por Obama, lhe deu proteção temporária e autorização de trabalho. Hoje, 436 mil pessoas ainda têm esse benefício, sendo 2.990 brasileiros.

Após uma passagem por Nova York, voltou à Flórida em 2016 para apoiar as vítimas do ataque à boate Pulse, que matou 49 pessoas. Depois, liderou a Hope CommUnity Center, organização de apoio a imigrantes. Casou-se, obteve o green card e, em 2021, a cidadania americana.

Em 2025, a deputada Anna Eskamani, que cumpria o limite de quatro mandatos, o convidou a disputar sua vaga. Agora, ele leva à Câmara estadual a mesma agenda que defendeu a vida inteira: a legalização dos dreamers.

Na terça-feira (3), dia de eleições de meio de mandato nos Estados Unidos, o democrata Felipe Sousa Lazaballet, 40 anos, foi eleito deputado estadual na Flórida com cerca de 63% dos votos, contra o adversário republicano, na região metropolitana de Orlando. É o primeiro brasileiro a conquistar uma vaga na Câmara estadual. Também é o primeiro imigrante abertamente gay a ocupar o cargo no estado.

A trajetória até aí começa em Duque de Caxias, no Rio de Janeiro. Filho de uma mãe solo, empregada doméstica natural do Ceará, Felipe foi levado aos EUA em 2001, aos 14 anos, pela irmã mais velha, de quem era muito próximo e que havia emigrado para a Flórida seis anos antes. Viajou com visto de turista e já sem planos de voltar ao Brasil. A irmã prometera levá-lo assim que se estabilizasse, para que ele tivesse mais oportunidades. Ele foi matriculado na escola, tornou-se um dos melhores alunos, segundo contou à reportagem, e fez amigos.

Por volta dos 16 anos, entendeu o que significava estar em situação irregular: o visto de turista vencera havia muito tempo. O orientador de carreiras da escola lhe disse que, nessa condição, ele não poderia cursar uma universidade. Felipe passou meses desolado, já que o ensino superior era um sonho. Então um brasileiro conhecido da igreja lhe contou que o Miami Dade College, uma das principais faculdades da Flórida, aceitava imigrantes sem documentos. Isso já não acontece hoje, mas na época ele aproveitou a chance e estudou relações internacionais.

Nesse período, cresceu nos EUA o debate que lhe dizia respeito diretamente: a mobilização para legalizar os imigrantes levados ao país na infância, conhecidos como "dreamers". Felipe passou a participar de reuniões e atos em 2006. O mais expressivo foi em 2010, quando ele e outros jovens sem documentos, trazidos aos EUA antes dos 18 anos, organizaram a Trail of Dreams, marcha a pé da Flórida a Washington, cerca de 1.500 km, entre janeiro e maio. Era o primeiro governo de Barack Obama, visto como mais propenso a apoiar a pauta, embora anos depois se soubesse que foi em sua gestão que mais imigrantes foram deportados, até a chegada do atual governo de Donald Trump.

A primeira tentativa de aprovar o projeto no Congresso fracassou. Dois anos depois, Obama criou o Daca, programa que dava proteção temporária de dois anos, renovável, e autorização de trabalho a quem entrou nos EUA antes dos 16 anos, tinha menos de 31 e possuía diploma do ensino médio. Felipe, então com 26 anos, se enquadrava nos critérios e recebeu o benefício. Hoje, 436 mil imigrantes ainda o têm; 2.990 são brasileiros, a sétima nacionalidade na lista, liderada pelos mexicanos, com 356 mil.

Depois de um breve período em Nova York, Felipe voltou à Flórida em 2016 para ajudar a Prefeitura de Orlando. Em junho daquele ano, o atirador Omar Mateen matou 49 pessoas na boate gay Pulse, considerado o maior ataque à comunidade LGBTQIA+ na história dos EUA. Felipe trabalhou no apoio a sobreviventes e familiares das vítimas. Em seguida, passou a liderar a Hope CommUnity Center, organização de apoio a imigrantes. Casou-se, obteve o green card e, em 2021, a cidadania americana.

Em 2025, recebeu um convite inesperado da deputada democrata Anna Eskamani, filha de imigrantes iranianos e nascida nos EUA, que cumpriu quatro mandatos consecutivos de dois anos, o limite legal, e não podia concorrer de novo. Segundo Felipe, ela lhe disse que sua história falava por si e que atuar sempre em favor dos mais marginalizados, tendo sido ele mesmo imigrante irregular, lhe dava credibilidade para disputar a vaga. Em videochamada, um mês antes da eleição, ele resumiu o que aprendeu com a mãe: a importância da educação, do trabalho duro e da honestidade.

Agora, a vitória leva à Câmara da Flórida um ex-dreamer que sempre atuou na defesa da agenda migratória, tema que deve acompanhá-lo no mandato.

Minha mãe sempre me ensinou a importância da educação, do trabalho duro, da honestidade.
— Felipe Sousa Lazaballet, em videochamada um mês antes da eleição
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