Às vésperas das eleições de 2026, o Brasil apresenta uma melhora real no poder de compra de alimentos em relação a 2022, mas carrega ainda a cicatriz profunda deixada pela pandemia: o salário mínimo e a renda média do trabalho permanecem entre 13% e 15% abaixo dos patamares da década anterior à crise sanitária. É a geometria clássica do progresso incompleto — suficiente para ser notado, insuficiente para ser celebrado —, e é exatamente nesse intervalo que a política encontra seu campo de batalha.
Brasil vai às urnas com poder de compra de alimentos melhor que 2022, mas ainda abaixo da pré-pandemia
Melhora real, mas insuficiente para compensar a carestia acumulada
Como assim o poder de compra melhorou, mas ainda está pior que antes da pandemia? Isso não é contraditório?
Não é. Significa que a situação piorou muito durante a pandemia, e agora está melhorando, mas ainda não voltou ao patamar anterior. É como se você tivesse caído de um penhasco, conseguisse se agarrar em uma corda e estivesse subindo, mas ainda estivesse bem abaixo do topo.
Mas quanto tempo leva para recuperar? O texto diz que não há previsão de recuperação completa até fim de 2027. Isso é uma estimativa de Imaizumi ou há consenso entre economistas?
É a projeção dele especificamente. Ele usa dados do Dieese e do IBGE, mas a previsão é dele. Outros economistas podem ter visões diferentes.
E se o El Niño realmente prejudicar a colheita? Como isso afeta o cenário?
Se houver perdas no campo, os preços podem subir ainda mais, o que tornaria a recuperação ainda mais lenta. É um risco real que está sendo monitorado.
O texto menciona que não há uma média nacional para a cesta básica, apenas dados de São Paulo. Isso não limita a conclusão? Os preços variam muito entre regiões.
Verdade. São Paulo é uma referência importante, mas os preços em outras cidades podem ser diferentes. É uma limitação que o próprio texto reconhece.
Por que Lula reajustou o salário mínimo acima da inflação se o poder de compra ainda está tão baixo?
Porque a inflação foi muito alta durante a pandemia e depois. Mesmo reajustando acima da inflação, não foi suficiente para recuperar o que se perdeu. É como tentar recuperar uma queda com passos pequenos.
E quanto ao desemprego? O texto menciona que caiu, mas não dá números. Como está realmente a situação do emprego em 2026?
O Pulso
- O salário mínimo compra hoje 1,8 cesta básica em São Paulo, uma melhora de 11,3% sobre 2022, mas ainda 13% abaixo do que comprava antes da pandemia — a recuperação existe, mas não apaga a perda.
- A renda média do trabalho avançou 15% desde 2022, chegando a 4,07 cestas básicas por mês, porém segue 15% aquém da média de 2010 a 2019, revelando que a carestia acumulada ainda não foi absorvida.
- O custo dos alimentos virou arma eleitoral: Flávio Bolsonaro ataca o governo nos supermercados, enquanto Lula contra-ataca lembrando a alta do arroz e do feijão na gestão anterior.
- Economistas projetam que a lacuna no poder de compra persistirá pelo menos até dezembro de 2027, e o El Niño representa um risco adicional de pressão sobre os preços agrícolas a partir do fim de 2026.
- Para o cientista político José Niemeyer, o emprego tende a superar o poder de compra como tema dominante neste ciclo eleitoral, em meio ao temor crescente sobre o impacto da tecnologia no mercado de trabalho.
Às vésperas das eleições de 2026, o Brasil apresenta uma melhora real no poder de compra de alimentos em relação a 2022, mas carrega ainda a cicatriz profunda deixada pela pandemia: o salário mínimo e a renda média do trabalho permanecem entre 13% e 15% abaixo dos patamares da década anterior à crise sanitária. É a geometria clássica do progresso incompleto — suficiente para ser notado, insuficiente para ser celebrado —, e é exatamente nesse intervalo que a política encontra seu campo de batalha.
Os brasileiros chegam às eleições de 2026 com mais comida no carrinho do que tinham em 2022 — mas menos do que tinham antes da pandemia. É esse intervalo, ao mesmo tempo real e insuficiente, que define o humor econômico do país neste momento.
Segundo o economista Bruno Imaizumi, da consultoria 4intelligence, o salário mínimo de R$ 1.621 comprava 1,8 cesta básica em agosto de 2026, uma melhora de 11,3% sobre agosto de 2022. Os reajustes acima da inflação implementados desde 2023 explicam parte do avanço. Mas o patamar ainda fica 13% abaixo da média da década pré-pandemia, quando o mínimo chegava a comprar 2,07 cestas — e o pico histórico, em março de 2012, foi de 2,28.
O mesmo padrão aparece na renda média do trabalho. No trimestre encerrado em agosto de 2026, os R$ 3.777 mensais permitiam comprar 4,07 cestas básicas, 15% a mais do que em 2022. Ainda assim, ficam 15% abaixo da média de 4,82 cestas registrada entre 2010 e 2019. A mensagem é consistente: houve recuperação, mas ela é incompleta, e Imaizumi projeta que essa lacuna permanecerá pelo menos até dezembro de 2027. Um risco adicional paira sobre o horizonte: o El Niño pode pressionar a produção agropecuária a partir do fim de 2026, ameaçando o ritmo de recuperação.
O tema migrou rapidamente para a campanha presidencial. O senador Flávio Bolsonaro tem associado o preço nas gôndolas ao governo Lula, enquanto o presidente rebate em propaganda eleitoral, lembrando a alta do arroz e do feijão na gestão anterior e criticando isenções fiscais que, segundo ele, beneficiaram jet skis e jatinhos em vez do prato do trabalhador. Para o cientista político José Niemeyer, do Ibmec-Rio, o emprego tende a se sobrepor ao poder de compra como preocupação central do eleitor em 2026, em meio ao temor crescente sobre o avanço da tecnologia e a destruição de postos de trabalho.
Os brasileiros chegam às urnas neste domingo com mais capacidade de comprar comida do que tinham quatro anos atrás, mas ainda não recuperaram o que perderam com a pandemia. É um cenário incômodo para quem governa: melhora real, mas insuficiente. A análise vem do economista Bruno Imaizumi, da consultoria 4intelligence, que rastreia quantas cestas básicas um salário mínimo consegue adquirir ao longo do tempo.
Em agosto de 2026, o salário mínimo de R$ 1.621 comprava o equivalente a 1,8 cesta básica em São Paulo, onde a cesta custa em média R$ 900,59. Quatro anos antes, em agosto de 2022, quando o país se preparava para eleger Lula, o mínimo era R$ 1.212 e a cesta custava R$ 749,78 — o que permitia comprar 1,62 cestas. A melhora é de 11,3%, números que refletem os reajustes acima da inflação que o governo implementou desde 2023. Mas há um porém que pesa: esse poder de compra ainda fica 13% abaixo da média da década anterior à pandemia, entre 2010 e 2019, quando o mínimo comprava 2,07 cestas. O pico histórico foi em março de 2012, quando chegou a 2,28 cestas.
O quadro se repete quando se olha para a renda média do trabalho. No trimestre encerrado em agosto de 2026, a renda média brasileira era de R$ 3.777 por mês, suficiente para comprar 4,07 cestas básicas. Isso representa um avanço de 15% em relação a agosto de 2022, quando a renda média permitia comprar 3,54 cestas. Mas novamente, está 15% abaixo da média pré-pandemia de 4,82 cestas. A mensagem é consistente: houve recuperação, mas incompleta.
Imaizumi ressalta que o custo dos alimentos é um ponto sensível para os eleitores brasileiros. Os dados sugerem que a melhora dos rendimentos sob o governo Lula não foi suficiente para compensar toda a carestia acumulada desde o choque da pandemia. As projeções do economista indicam que essa lacuna permanecerá pelo menos até dezembro de 2027, considerando tanto o salário mínimo quanto a renda média do trabalho. Um risco adicional paira sobre esse cenário: o El Niño, que pode alterar a distribuição das chuvas e prejudicar a produção agropecuária a partir do final de 2026, potencialmente elevando ainda mais os preços dos alimentos.
A questão do poder de compra virou munição na campanha presidencial. O senador Flávio Bolsonaro, do PL, tem associado o custo dos alimentos nas gôndolas dos supermercados ao governo Lula em seus vídeos de campanha. O presidente rebateu em propaganda eleitoral, lembrando que quando seu antecessor estava no poder, o arroz e o feijão "chegaram às alturas", e apontando que os impostos que foram zerados beneficiaram jet skis e jatinhos, enquanto a distribuição e o refino de combustíveis foram entregues a estrangeiros. "Tudo isso doeu no seu bolso, no posto e no supermercado", disse Lula.
O cientista político José Niemeyer, professor do Ibmec no Rio, observa que emprego, inflação e poder de compra podem influenciar processos eleitorais. Em 2026, ele vê o emprego se sobrepondo em importância, em meio a receios sobre a tecnologia tirar postos de trabalho. Apoiadores de Lula têm procurado ressaltar indicadores econômicos desde 2023, incluindo a queda do desemprego, além de medidas como o reajuste do salário mínimo acima da inflação e a defesa do fim da escala 6x1. A Secretaria de Comunicação Social da Presidência não respondeu quando questionada sobre os dados de poder de compra.
Citações Notáveis
O custo dos alimentos é um ponto sensível para os eleitores, e os dados sinalizam que a melhora dos rendimentos não foi suficiente para fazer frente a toda a carestia acumulada pela comida a partir do choque da pandemia— Bruno Imaizumi, economista da consultoria 4intelligence
Tem gente prometendo baixar o preço das coisas. Mas, quando eles tiveram a caneta na mão, o arroz e o feijão chegaram às alturas— Lula, em propaganda eleitoral