Neste domingo, o Brasil chega a um momento que condensa décadas de tensões sociais, políticas e morais: a escolha entre Lula, o ex-presidente que saiu do poder com aprovação histórica e voltou após uma condenação anulada, e Bolsonaro, o presidente em exercício que governa sob a sombra de 686 mil mortos pela pandemia e acusações de erosão democrática. As pesquisas apontam vantagem de 14 pontos para Lula, mas o que está verdadeiramente em jogo vai além de nomes e números — é a disputa pelo sentido do que o Brasil quer ser. O resultado das urnas poderá encerrar um capítulo, mas as fraturas que el
Brasil vai às urnas com Lula na liderança e Bolsonaro em segundo lugar
O adversário passa à condição de inimigo, com toda violência decorrente disso
Por que essa eleição é tão diferente das outras que o Brasil já teve?
Porque não é apenas uma disputa entre dois projetos políticos diferentes. É uma confrontação onde cada lado vê o outro como uma ameaça existencial, não como um adversário legítimo.
Mas polarização política sempre existiu no Brasil, certo? O que exatamente mudou?
A qualidade mudou. Antes havia divergências ideológicas. Agora há uma ruptura — o inimigo deixa de ser alguém com quem se discorda e passa a ser alguém que precisa ser derrotado a qualquer custo.
E como isso se reflete na campanha?
Bolsonaro concentra sua mensagem em valores morais e ataques pessoais a Lula. Lula responde com críticas à gestão da pandemia e às políticas econômicas. Nenhum dos dois está realmente discutindo o que fará no futuro.
Mas as pesquisas mostram Lula com 14 pontos de vantagem. Isso não deveria encerrar a questão?
Teoricamente sim. Mas Bolsonaro está questionando a confiabilidade das pesquisas e das urnas eletrônicas sem apresentar provas. Isso levanta uma questão mais profunda: ele aceitará o resultado?
Há risco real de violência?
Especialistas divergem. Alguns acreditam que Bolsonaro não tem apoio militar ou político para se agarrar ao poder. Outros não descartam episódios de violência se ele não aceitar a derrota.
Qual é a base factual para essa preocupação? Bolsonaro fez algo concreto que sugira isso?
Ele repetiu o discurso de Trump sobre fraude eleitoral sem provas. Isso é preocupante porque Trump realmente teve apoiadores que invadiram o Capitólio.
Então estamos falando de um risco potencial baseado em paralelos históricos, não em ameaças diretas?
Exatamente. É importante distinguir entre o que Bolsonaro disse e fez, e o que especialistas temem que ele possa fazer.
Verdade. Mas o fato de especialistas em democracia estarem fazendo essa comparação já diz algo sobre como essa eleição é percebida.
O Pulso
- Com 48% contra 34% nas pesquisas, Lula parte como favorito a vencer já no primeiro turno, o que tornaria desnecessário o segundo turno de 30 de outubro.
- Bolsonaro intensifica ataques pessoais e apelos morais — 'Deus, pátria, família' — enquanto seu governo acumula críticas pela pandemia mal gerida, aumento da fome e recordes de desmatamento.
- A desconfiança de Bolsonaro nas urnas eletrônicas e nas pesquisas alimenta correntes de desinformação e levanta o temor de que ele não reconheça uma eventual derrota.
- Especialistas divergem sobre o risco real de ruptura institucional: alguns acreditam que Bolsonaro não teria apoio suficiente para resistir ao resultado; outros não descartam episódios de violência inspirados no que ocorreu no Capitólio americano em 2021.
- O país chega ao dia do voto profundamente dividido — não apenas entre candidatos, mas entre visões de mundo que transformaram adversários políticos em inimigos declarados.
Neste domingo, o Brasil chega a um momento que condensa décadas de tensões sociais, políticas e morais: a escolha entre Lula, o ex-presidente que saiu do poder com aprovação histórica e voltou após uma condenação anulada, e Bolsonaro, o presidente em exercício que governa sob a sombra de 686 mil mortos pela pandemia e acusações de erosão democrática. As pesquisas apontam vantagem de 14 pontos para Lula, mas o que está verdadeiramente em jogo vai além de nomes e números — é a disputa pelo sentido do que o Brasil quer ser. O resultado das urnas poderá encerrar um capítulo, mas as fraturas que ele revela levarão muito mais tempo para cicatrizar.
Neste 2 de outubro, o Brasil decide entre dois projetos radicalmente opostos de país. Luiz Inácio Lula da Silva, que governou entre 2003 e 2010 e saiu com aprovação superior a 80%, enfrenta Jair Bolsonaro, presidente em exercício marcado por uma gestão da pandemia que deixou 686 mil mortos, recordes de desmatamento e acusações de ataques sistemáticos ao Judiciário e à imprensa.
A última pesquisa Datafolha antes do pleito mostrava Lula com 48% das intenções de voto contra 34% de Bolsonaro — margem que o colocava perto de uma vitória no primeiro turno. Na reta final, o ex-presidente buscava atrair eleitores de Ciro Gomes (6%) e Simone Tebet (5%), enquanto recebia apoio de nomes como Caetano Veloso, Anitta e, surpreendentemente, Joaquim Barbosa, ex-ministro do STF que havia sido relator do caso do Mensalão. Bolsonaro, por sua vez, garantiu o apoio público do jogador Neymar.
A campanha bolsonarista apostou em três pilares: defesa do armamento, valores conservadores e ataques diretos ao adversário. Em debate tenso, Bolsonaro voltou a chamar Lula de 'ladrão', evocando a condenação por corrupção que foi anulada pelo STF mas que o manteve preso por um ano e meio. Lula respondeu com uma frase que sintetizou sua campanha: 'Em 2 de outubro, o povo vai te mandar para casa.'
Mas a tensão vai além dos candidatos. Bolsonaro passou a semana questionando, sem provas, a confiabilidade das urnas eletrônicas — discurso amplificado por redes de desinformação. O temor de que ele não reconheça uma derrota evoca o ataque ao Capitólio americano em janeiro de 2021. Cientistas políticos divergem sobre o risco real: Jairo Nicolau, da FGV, acredita que Bolsonaro não teria apoio militar nem político suficiente para resistir ao resultado; outros analistas não descartam violência. O que o país fará com o resultado das urnas permanece, até o último momento, uma pergunta em aberto.
Neste domingo, 2 de outubro, o Brasil escolhe entre dois caminhos radicalmente opostos. De um lado, Luiz Inácio Lula da Silva, ex-presidente que governou entre 2003 e 2010. Do outro, Jair Bolsonaro, o presidente em exercício. A disputa é a mais polarizada que o país vive em décadas, e as pesquisas apontam uma vantagem clara para o candidato de esquerda.
Segundo o Datafolha divulgado na quinta-feira anterior ao pleito, Lula acumula 48% das intenções de voto, enquanto Bolsonaro registra 34% — uma diferença de 14 pontos. Essa margem coloca o ex-presidente em posição confortável para vencer já no primeiro turno, evitando um segundo turno marcado para 30 de outubro. Na reta final da campanha, Lula buscava conquistar eleitores dos candidatos de centro-esquerda Ciro Gomes, que tinha 6%, e da centrista Simone Tebet, com 5%, oferecendo-se como alternativa para quem desejava evitar uma segunda votação.
A campanha de Lula recebeu apoio de nomes como Caetano Veloso e Anitta, além de uma adesão que surpreendeu muitos: Joaquim Barbosa, ex-ministro do Supremo Tribunal Federal que havia sido relator do caso do Mensalão, o escândalo que marcou seu primeiro governo. Bolsonaro, por sua vez, conquistou o apoio explícito do jogador Neymar na quinta-feira.
A estratégia de Bolsonaro concentrou-se em três pilares: a defesa do direito às armas, a invocação de valores morais resumidos na frase "Deus, pátria, família", e ataques diretos ao adversário. Em um debate eleitoral tenso, voltou a chamar Lula de "ladrão", referindo-se à condenação por corrupção que havia sido anulada pelo Supremo Tribunal Federal mas que o manteve preso por um ano e meio e o afastou das eleições de 2018. O presidente conta com apoio consolidado entre evangélicos, empresários e produtores rurais, mas enfrenta rejeição forte entre mulheres, jovens e população mais pobre. Sua gestão da pandemia de covid-19 deixou um saldo de 686 mil mortos no Brasil, fato que pesa contra sua candidatura. Além disso, seu governo é criticado pelo aumento da pobreza e da fome, por recordes de desmatamento na Amazônia, suspeitas de irregularidades envolvendo sua família e aliados, e por ataques frequentes ao Judiciário e à imprensa.
Lula saiu da Presidência em 2010 com aprovação superior a 80%, mas sua imagem foi abalada pela Operação Lava Jato, que investigou denúncias de corrupção na Petrobras. Ele promete voltar ao poder para "arrumar o país" e destaca as conquistas sociais de seus mandatos, embora não tenha apresentado um programa detalhado para o futuro. No debate, lançou contra Bolsonaro uma frase que resumia sua crítica: "Em 2 de outubro, o povo vai te mandar para casa", acusando um presidente que "mente o tempo todo".
O debate refletiu a profundidade da divisão política. André César, cientista político da consultora Hold, explica que a polarização atual no Brasil é diferente daquela que sempre existiu. "O que se vê agora é um fenômeno de natureza distinta — um confronto puramente ideológico, onde o adversário passa à condição de inimigo", com toda a violência que isso implica.
Na semana anterior ao pleito, Bolsonaro voltou a desacreditar as pesquisas e a questionar, sem apresentar provas, a confiabilidade das urnas eletrônicas — um discurso amplificado por correntes de desinformação nas redes sociais. "Estamos assistindo pela primeira vez, se a gente for acreditar no Datafolha, o presidente, segundo o Datafolha de hoje, que vai ganhar no primeiro turno, sem voto", criticou. Essa postura acendeu temores de que ele não reconheça uma eventual derrota, abrindo espaço para incidentes similares aos que ocorreram nos Estados Unidos em 2021, quando apoiadores do ex-presidente Donald Trump invadiram o Capitólio.
Especialistas divergem sobre o risco real de distúrbios. Jairo Nicolau, cientista político da Fundação Getúlio Vargas, acredita que Bolsonaro não dispõe do "apoio militar, da opinião pública ou do mundo político" necessário para se agarrar ao poder em caso de derrota. Outros analistas, porém, não descartam episódios de violência. Michael Shifter, do Inter American Dialogue, classificou Bolsonaro como o "presidente mais antidemocrático desde o regime militar" que durou de 1964 a 1985. O que acontecerá após o resultado das urnas permanece uma incógnita que paira sobre o país.
Citações Notáveis
Em 2 de outubro, o povo vai te mandar para casa— Lula, durante debate eleitoral
Um confronto puramente ideológico, onde o adversário passa à condição de inimigo— André César, cientista político da consultora Hold