Brasil vai às urnas com emprego recorde, mas famílias sufocadas por dívidas

Técnica em enfermagem vítima de fraude digital acumula dívidas fraudulentas, vendeu pertences e depende de doações para sobreviver.
Meu nome sujou. Não consegui pagar cartão, não consegui fazer mais nada, me atolei em dívida
Técnica em enfermagem vítima de fraude digital acumula dívidas fraudulentas e depende de doações para sobreviver.
Mark

Como é possível o Brasil ter desemprego em mínima histórica e ao mesmo tempo endividamento em máxima histórica?

Mimi

Porque juros altos afetam quem já tem dívidas antigas muito mais do que beneficiam quem consegue emprego novo. O emprego cresceu, mas os juros subiram para conter inflação, e isso apertou o orçamento de quem já devia.

Luke

Mas a gente sabe que essas pessoas que estão desempregadas agora são as mesmas que estavam desempregadas antes? Ou são grupos diferentes?

Mimi

A reportagem não especifica isso. Sabemos que 103,5 milhões estão ocupados agora, o recorde, mas não sabemos o perfil de quem saiu do desemprego versus quem entrou em dívida.

Mark

E essas dívidas — são principalmente de consumo ou de sobrevivência?

Mimi

Segundo Bentes, não são de consumo. São dívidas antigas que ficaram impagáveis quando os juros subiram. As famílias estão se endividando para tentar equilibrar orçamentos que já estavam quebrados.

Luke

A reportagem menciona "efeito das bets" na inadimplência. Mas não explica o que é ou quanto pesa isso. É um fator significativo ou menção passageira?

Mimi

É mencionado por Vale como parte do problema, mas não há números sobre o impacto. Fica como uma observação sem peso quantificado.

Mark

Luana Dutra Gomes é um exemplo de fraude, não de endividamento por juros altos. Ela representa o quadro geral?

Luke

Não. Ela é um caso extremo — vítima de crime digital. A maioria das famílias endividadas não sofreu fraude. Luana ilustra o sofrimento, mas não é típica do fenômeno que a reportagem documenta.

Mimi

Ainda assim, ela mostra o que acontece quando alguém já vulnerável sofre um choque. Ela tinha emprego, tinha renda, mas um golpe a derrubou completamente.

Mark

Então o governo pode estar certo em destacar emprego, e a oposição pode estar certa em destacar dívida. Não há mentira em nenhum lado.

Luke

Exato. Os dois lados estão falando de realidades diferentes do mesmo país. A questão é qual realidade pesa mais na cabeça do eleitor.

  • Taxa de desemprego em 5,3% — menor para o trimestre em série histórica do IBGE desde 2012
  • 103,5 milhões de pessoas ocupadas — maior número já registrado
  • 82% das famílias com dívidas a vencer em agosto — patamar máximo desde 2010
  • 29,9% das famílias inadimplentes em agosto de 2026
  • Taxa Selic em 13,75% ao ano

Taxa de desemprego em 5,3% é a menor para o trimestre em série histórica do IBGE; renda média atinge recorde de R$ 3.777 mensais. 82% das famílias têm dívidas a vencer em agosto, patamar máximo desde 2010; 29,9% estão inadimplentes, refletindo impacto do aperto monetário.

Brasil chega às eleições de 2026 com mercado de trabalho recuperado, mas famílias enfrentam endividamento recorde impulsionado por juros altos que atingem 13,75% ao ano.

O Brasil chega ao domingo de eleições com uma economia que conta duas histórias ao mesmo tempo, e nenhuma delas é simples. O mercado de trabalho recuperou-se. A taxa de desemprego caiu para 5,3% nos três meses até agosto — o menor patamar registrado pelo IBGE para esse período desde que começou a medir, em 2012. Cento e três milhões e meio de pessoas estão ocupadas com algum tipo de trabalho, formal ou informal, o maior número já documentado. A renda média mensal atingiu R$ 3.777, um recorde para o trimestre. Esses números são reais, e o governo Lula os explora nas campanhas como prova de que a recuperação funciona.

Mas enquanto o emprego crescia, as famílias brasileiras se afundaram em dívidas. Em agosto, 82% delas tinham contas a vencer — cartão de crédito, cheque especial, carnês, empréstimos de toda ordem. É o patamar mais alto desde que a Confederação Nacional do Comércio começou a medir esse indicador em 2010. Quatro anos atrás, na eleição anterior, o percentual era de 79%. Agora é 82%. Quase três em cada dez famílias estão inadimplentes, com contas em atraso. E 12,5% delas dizem não ter condições de pagar o que devem — um número que subiu desde 2022.

O culpado, segundo economistas, é a taxa básica de juros. O Banco Central elevou a Selic para 13,75% ao ano para tentar conter a inflação após a economia ter sido estimulada por medidas do governo. Juros altos apertam o orçamento domiciliar. Fabio Bentes, economista-chefe da Confederação Nacional do Comércio, explica que as famílias não estão se endividando para consumir mais. Estão se endividando porque carregam dívidas antigas que se tornaram impossíveis de equilibrar quando os juros subiram. "Esse cenário evidencia o impacto que o aperto monetário teve sobre as famílias", diz Bentes. A questão é que, em qualquer democracia, um governante que mantém as pessoas empregadas e com ganhos de renda tende a ser reeleito. Mas quando essas mesmas pessoas estão sufocadas por dívidas, a história muda.

Os dois candidatos favoritos nas pesquisas — Luiz Inácio Lula da Silva, pelo PT, e Flávio Bolsonaro, pelo PL — exploram essas contradições. Lula destaca os recordes de emprego e renda. Bolsonaro chama a atenção para a pressão do endividamento e do custo de vida. Sergio Vale, economista-chefe da consultoria MB Associados, diz que o cenário econômico em linhas gerais ainda favorece o governo na busca pela reeleição, citando a queda do desemprego e sinais recentes de trégua da inflação. Mas ele aponta o lado negativo: "O que tem de negativo, e que afeta potencialmente a popularidade do governo, é a questão da inadimplência. Tem uma conjunção de juros elevados e população endividada, além do efeito das bets, que também afeta a inadimplência."

Pesquisadores do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas observam que a liberação de crédito continua crescendo, mas ocorre em um ambiente de maior pressão sobre os orçamentos e se apoia em linhas mais caras. A proporção de famílias endividadas, o comprometimento da renda e a inadimplência bancária estão em níveis recordes ou muito próximos deles. A pressão é especialmente intensa entre as famílias de menor renda.

Luana Dutra Gomes, técnica em enfermagem de 37 anos, vive essas dificuldades na pele. Ela já estava com o orçamento apertado por um empréstimo vinculado ao seu salário quando foi vítima de um golpe digital no ano passado. Outras duas operações de crédito foram tomadas em seu nome de modo fraudulento. Luana não conseguiu lidar com os custos financeiros e tenta na Justiça uma resolução para o caso. "Meu nome sujou. Não consegui pagar cartão, não consegui fazer mais nada, me atolei em dívida", afirma. Ela vendeu pertences, recorre a bicos e recebe doações de alimentos para sobreviver.

Bentes resume o dilema: em qualquer lugar do mundo, uma população empregada e com ganhos em consumo e qualidade de vida tende a favorecer a reeleição de um governante. "A questão é que o Brasil chega a este domingo com sinais dúbios na economia, o que traz incerteza para as projeções eleitorais." Faz sentido, diz ele, que a disputa esteja tão acirrada como está. O país tem emprego recorde e dívida recorde. Tem renda em alta e famílias que não conseguem pagar as contas. Essas duas realidades não se reconciliam facilmente — e neste domingo, os eleitores terão que escolher qual história acreditam que importa mais.

Esse cenário evidencia o impacto que o aperto monetário teve sobre as famílias. As famílias não estão se endividando para consumir. Estão se endividando por outro motivo: o histórico de dívidas passadas que dificulta muito o reequilíbrio orçamentário.
— Fabio Bentes, economista-chefe da Confederação Nacional do Comércio
O que tem de negativo, e que afeta potencialmente a popularidade do governo, é a questão da inadimplência. Tem uma conjunção de juros elevados e população endividada, além do efeito das bets, que também afeta a inadimplência.
— Sergio Vale, economista-chefe da consultoria MB Associados
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