Em meio à corrida global pela infraestrutura de inteligência artificial, o Brasil emerge como um destino estratégico para data centers de grande escala, ancorando essa ambição não apenas em incentivos fiscais, mas em um modelo energético que une o sol da Amazônia às demandas do mundo digital. A promessa é de que o crescimento tecnológico não precise ser sinônimo de desequilíbrio — nem na rede elétrica, nem nas comunidades ribeirinhas que, pela primeira vez, conhecem a luz que vem do céu.
Brasil se posiciona como hub global de data centers com energia solar integrada
Cada data center terá sua própria usina solar para não impactar o preço regional
Por que o Brasil é especialmente atrativo para data centers de inteligência artificial agora?
Porque temos energia abundante — especialmente solar — e já estamos exigindo que cada novo data center traga sua própria usina fotovoltaica. Isso resolve o problema de impacto regional e atrai investidores que querem infraestrutura sustentável.
Mas espera — quatro data centers demandam energia equivalente a Tucuruí. Isso é uma quantidade verificável ou é uma estimativa de um professor?
É o que Otavio Chave afirmou no painel. Ele é especialista, mas é uma declaração única, não há confirmação de outras fontes no material.
E quanto ao custo? US$ 1 bilhão por data center — isso é fixo?
Marcos Siqueira da Ascenty disse que é um custo aproximado. Varia conforme o projeto, mas é a ordem de grandeza que os investidores estão considerando.
O ReData foi aprovado ou ainda está no Congresso?
Ainda está no Congresso. Foi encaminhado como medida provisória, e o setor continua sugerindo mudanças no texto.
E a questão das baterias — quando exatamente chegam ao Brasil?
Chave prevê que até 2029 vários reservatórios estarão instalados. Não há data específica de chegada, é uma projeção.
Então a intermitência solar é um problema conhecido, mas a solução ainda não está aqui?
Exato. É um desafio que será resolvido em breve, mas hoje ainda existe.
E esses projetos de inclusão na Amazônia — estão ligados aos data centers?
Não diretamente. São iniciativas paralelas da USP que também usam energia solar e tecnologia, mas não fazem parte da estratégia de data centers.
Quantas comunidades foram beneficiadas pela biofábrica de chocolate?
O material não especifica. Sabemos que existe um projeto na Ilha do Marajó e outro no Tapajós, mas não há números de pessoas impactadas.
Le Pouls
- Quatro data centers de IA já em construção no Brasil consumirão juntos energia equivalente à de Tucuruí, pressionando os limites do sistema elétrico nacional.
- A solução adotada exige que cada projeto traga sua própria usina fotovoltaica, blindando o preço da energia regional contra choques de demanda.
- O programa ReData oferece incentivos fiscais federais, mas sem adesão dos estados o capital pode migrar para países vizinhos mais competitivos.
- A intermitência da energia solar — abundante ao meio-dia, ausente ao anoitecer — ainda é um gargalo técnico que o BESS promete resolver até 2029.
- Enquanto bilhões de dólares circulam em torno de servidores e baterias, comunidades amazônicas ganham biofábricas de chocolate, biobancos em blockchain e drones que protegem o pirarucu.
Em meio à corrida global pela infraestrutura de inteligência artificial, o Brasil emerge como um destino estratégico para data centers de grande escala, ancorando essa ambição não apenas em incentivos fiscais, mas em um modelo energético que une o sol da Amazônia às demandas do mundo digital. A promessa é de que o crescimento tecnológico não precise ser sinônimo de desequilíbrio — nem na rede elétrica, nem nas comunidades ribeirinhas que, pela primeira vez, conhecem a luz que vem do céu.
São Paulo sediou a 30ª edição da Futurecom, e o Brasil se apresentou ao mundo como um dos destinos mais viáveis para data centers de inteligência artificial. A avaliação é do professor Otavio Chave, da Universidade Federal Rural da Amazônia, que participou de um painel do IEEE sobre tecnologia e meio ambiente durante o evento.
O desafio de escala é imediato: quatro projetos já iniciados no país demandarão, juntos, energia equivalente à produzida pela usina de Tucuruí. Para evitar que essa demanda sobrecarregue o Sistema Interligado Nacional, cada data center será obrigado a construir sua própria usina fotovoltaica. A rede nacional funcionará apenas como backup em caso de falha local. O TikTok já planeja uma grande estrutura no Ceará, estado estratégico por concentrar boa parte do cabeamento submarino que liga a América do Sul à Europa.
O governo federal lançou o ReData, programa de incentivos fiscais para atrair esses investimentos, com medida provisória assinada pelo presidente Lula e enviada ao Congresso. Mas Marcos Siqueira, da Ascenty — empresa que opera 38 data centers no Brasil —, alertou que cada estrutura custa cerca de US$ 1 bilhão e que investidores comparam ofertas de vários países. Sem desoneração estadual, o capital vai embora. Para evitar uma guerra fiscal entre estados, um acordo está sendo estudado no Conselho Nacional de Política Fazendária.
A energia solar é o eixo de toda essa estratégia. Chave lembrou que usinas fotovoltaicas já transformaram comunidades remotas da Amazônia: na Ilha do Marajó, uma instalação feita durante a pandemia de 2020 levou freezers, computadores e internet a moradores que nunca haviam tido acesso a esses recursos. O obstáculo técnico — a queda brusca de geração ao pôr do sol — será enfrentado com sistemas de armazenamento em baterias de lítio (BESS), previstos para estar amplamente instalados até 2029. Até 2030, a potência solar instalada no país deve dobrar, chegando a 132 mil megawatts.
Além da infraestrutura digital, a tecnologia avança como ferramenta de inclusão na Amazônia. A professora Tereza Cristina Carvalho, da USP, apresentou uma biofábrica de chocolates naturais à beira do rio Tapajós, que opera com energia solar, não gera resíduos e purifica a água contaminada por mercúrio do garimpo ilegal. O projeto integra um biobanco em blockchain que remunera comunidades locais quando empresas se interessam por amostras da biodiversidade amazônica. Drones também monitoram a pesca ilegal do pirarucu, em parceria com o governo britânico — um sinal de que as soluções gestadas na floresta já dialogam com o mundo.
São Paulo sedia a 30ª edição da Futurecom, um dos maiores encontros de tecnologia e telecomunicações da América Latina, e o Brasil emerge como um dos destinos mais viáveis do planeta para receber data centers especializados em inteligência artificial. A afirmação vem de Otavio Chave, professor da Universidade Federal Rural da Amazônia, que participou de um painel sobre soluções tecnológicas para questões ambientais promovido pelo IEEE durante o evento.
O cenário é promissor, mas exigente. Quatro novos projetos de data centers já iniciados no Brasil demandarão, em conjunto, uma quantidade de energia equivalente à produzida pela usina de Tucuruí, no Pará — uma das maiores hidrelétricas do país. Essa demanda colossal poderia sobrecarregar o Sistema Interligado Nacional, mas há uma solução integrada: cada um desses projetos será construído com sua própria usina fotovoltaica. Segundo Chave, essa exigência garante que nenhum data center de inteligência artificial que chegue ao Brasil impactará o preço da energia em uma região específica. Em caso de falha na geração solar local, o acesso à rede interligada funcionará como backup temporário, sem comprometer a estabilidade do sistema nacional.
O interesse internacional é real. O TikTok planeja construir uma grande estrutura no Ceará, estado estratégico porque concentra boa parte do cabeamento que conecta a América do Sul à Europa. Esse movimento ganhou força após o lançamento do ReData, um programa governamental que oferece incentivos fiscais para a instalação de data centers de inteligência artificial no Brasil. A medida provisória foi publicada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva e encaminhada ao Congresso.
Mas os investimentos enfrentam obstáculos. Marcos Siqueira, CRO da Ascenty — empresa brasileira que opera 38 data centers — explicou que construir um data center custa aproximadamente US$ 1 bilhão. Os investidores comparam ofertas de diferentes países, e o Brasil precisa ser competitivo. Sem desoneração fiscal dos governos estaduais, o capital migrará para nações vizinhas. A demanda atual é particularmente forte por data centers de nuvem, já que empresas buscam hospedar seus dados em infraestruturas localizadas no Brasil. Affonso Nina, presidente da Brasscom (Associação das Empresas de Tecnologia da Informação e Comunicação e de Tecnologias Digitais), afirmou que o ReData foi construído após dois anos de debate entre setor e poder público, mas o texto continua aberto a sugestões de aprimoramento. Para evitar uma guerra fiscal entre estados competindo por esses projetos, um acordo está sendo estudado no Conselho Nacional de Política Fazendária.
A expansão da energia solar é central nessa estratégia. Otavio Chave destacou que usinas fotovoltaicas têm sido fundamentais para levar eletricidade a regiões remotas da Amazônia, onde geradores a diesel ainda dominam. Em 2020, durante a pandemia, uma usina fotovoltaica foi instalada na Ilha do Marajó, no Pará, transformando a vida de comunidades que nunca tinham acesso a freezers, computadores ou internet. Mas a expansão acelerada de energia solar apresenta um desafio técnico: a produção é alta durante o dia e cai abruptamente ao pôr do sol, o que pode estressar o Sistema Interligado. Essa intermitência será resolvida com a chegada do BESS (Battery Energy Storage System), tecnologia de armazenamento por baterias de lítio. Chave prevê que até 2029 vários reservatórios de baterias estarão instalados, eliminando as flutuações da microgeração distribuída. Até 2030, a potência instalada de energia solar deve dobrar, atingindo 132 mil megawatts.
Além da infraestrutura de data centers, a tecnologia está promovendo inclusão social na Amazônia. Tereza Cristina Carvalho, professora da Escola Politécnica da USP, apresentou projetos que capacitam comunidades locais. Uma biofábrica de chocolates naturais foi desenvolvida à beira do rio Tapajós, no Pará, permitindo que as comunidades produzam um produto de maior valor agregado localmente. O projeto também integra um biobanco que usa blockchain: moradores coletam amostras de plantas da biodiversidade amazônica, que são processadas e, se uma empresa se interessar, o valor é compartilhado com as comunidades. A biofábrica não gera resíduos e funciona com energia fotovoltaica, enquanto a água usada é purificada para remover mercúrio do garimpo ilegal. Outro projeto monitora a pesca ilegal do pirarucu com drones, em parceria com o governo britânico. Vanessa Schramm, professora da Universidade Federal de Campina Grande, reforçou que projetos similares estão sendo desenvolvidos em várias partes do mundo para resolver questões globais, incluindo mudanças climáticas.
Citations marquantes
Todo projeto de data center para IA que vier para o Brasil terá de contar com projeto próprio de usina fotovoltaica, para não impactar no preço da energia de uma determinada região— Otavio Chave, professor da Universidade Federal Rural da Amazônia
Se não houver desoneração fiscal, esse investimento não virá para o Brasil e vai para países vizinhos— Marcos Siqueira, CRO da Ascenty