Brasil pode se tornar a 'Opep da energia verde' com expansão de biocombustíveis

O Brasil precisa garantir a soberania da sua matriz energética
Vice-presidente do Grupo Potencial argumenta que bioenergia deve ser política de Estado, não apenas cumprimento de lei.
Mark

Por que exatamente agora o Brasil consegue se posicionar como líder em biocombustíveis? Não é algo que deveria estar acontecendo há anos?

Mimi

Sim, mas o timing importa. A insegurança energética global — refinarias destruídas na Rússia, fechamento do Estreito de Ormuz — criou escassez real de combustíveis. Ao mesmo tempo, o Brasil tem 7 bilhões de litros de capacidade de biodiesel ociosa. Isso não é teórico; é oferta pronta para um mercado que precisa agora.

Luke

Mas espera — 7 bilhões de litros de excedente significa que ninguém está comprando. Por que acreditar que o mundo vai comprar agora só porque há crise?

Mimi

Porque a crise é estrutural, não temporária. As refinarias russas levam anos para se recuperar. Os EUA estão sinalizando restrições de exportação. Não é um pico de demanda; é reconfiguração de oferta global.

Mark

E quanto aos investimentos? R$ 289 bilhões é muito dinheiro, mas para quem está entrando nesse setor agora?

Mimi

A Lei do Combustível do Futuro criou segurança regulatória. Investidores sabem que há marco legal, que há demanda projetada. Mas Hammerschmidt deixou claro: precisa ser política de Estado, não só lei.

Luke

Aqui está meu incômodo: ele diz que precisa ser política de Estado, mas o que isso significa na prática? Subsídios? Proteção tarifária? Porque se for, outros países vão reclamar.

Mimi

Ele não especificou, mas sugeriu antecipar a mistura de biodiesel de 2030 para agora. Isso é uma ação concreta — usar a crise para acelerar a transição.

Mark

E quanto à dependência da China que Campos mencionou? Como o Brasil evita isso?

Mimi

A bioenergia é produção agrícola, não manufatura de painéis solares. O Brasil tem terra, clima, tecnologia agrícola. Não precisa importar da China para fazer biodiesel.

Luke

Mas precisa de tecnologia para refino, para SAF, para biometano. Essas tecnologias vêm de onde?

Mimi

Algumas já existem aqui. A Petrobras tem expertise em CO2. Mas você tem razão — há gaps tecnológicos que precisam ser preenchidos.

Mark

Então o Brasil está realmente pronto para ser a "Opep da energia verde"?

Mimi

Tem os ingredientes: capacidade, demanda, investimento, segurança regulatória. Mas precisa de execução política consistente e inovação contínua.

Luke

E se a crise global se resolver? Se as refinarias russas voltarem, se o Estreito de Ormuz reabrir?

Mimi

Aí a vantagem competitiva fica em custo e sustentabilidade. O Brasil produz biodiesel mais barato que muitos concorrentes. Mas é verdade — a janela pode fechar.

  • O fechamento do Estreito de Ormuz e a destruição de refinarias russas criaram uma escassez global de combustíveis que pressiona países a buscar alternativas com urgência.
  • O Brasil opera com 7 bilhões de litros de capacidade ociosa de biodiesel — um excedente que poderia abastecer mercados internacionais famintos por energia segura.
  • Especialistas alertam que a vantagem brasileira pode se dissipar se a bioenergia continuar sendo tratada como obrigação regulatória em vez de projeto estratégico de nação.
  • A antecipação da mistura de 20% de biodiesel no diesel — prevista para 2030 — é defendida como resposta emergencial à falta de diesel já sentida em partes do país.
  • O Brasil avança em frentes como combustível de aviação sustentável e biometano sem depender da cadeia tecnológica chinesa, o que representa uma vantagem geopolítica rara.

Em meio à instabilidade energética global provocada por conflitos e sanções, o Brasil emerge como candidato natural à liderança em biocombustíveis — não por acaso, mas por décadas de construção silenciosa de capacidade produtiva. Com 7 bilhões de litros de biodiesel ociosos, R$ 289 bilhões em investimentos mobilizados e um terço de sua matriz já ancorada em bioenergia, o país enfrenta agora a questão mais difícil: transformar potencial em política de Estado antes que a janela se feche.

O Brasil está diante de uma convergência rara: insegurança energética global, capacidade produtiva subutilizada e um marco regulatório que já mobilizou quase R$ 290 bilhões em investimentos. No Global Agribusiness Festival, em São Paulo, especialistas debateram como o país pode transformar esse alinhamento em liderança concreta no mercado mundial de biocombustíveis.

O ponto de partida é sólido. Sessenta indústrias de biodiesel operam com capacidade para 17 bilhões de litros anuais, mas produzem apenas 10 bilhões — deixando 7 bilhões de litros sem destino. Carlos Eduardo Hammerschmidt, do Grupo Potencial, cunhou a expressão 'Opep da energia verde' para nomear esse potencial, sugerindo que o Brasil pode ocupar no mercado renovável o papel que a OPEP ocupa no petróleo. Mas ele foi enfático: números não bastam. É preciso tratar a bioenergia como política de Estado, e não como meta a cumprir no papel.

A crise global dá urgência ao argumento. Refinarias russas destruídas têm recuperação incerta, os Estados Unidos sinalizam restrições à exportação de combustíveis, e em algumas regiões brasileiras já falta diesel. Plinio Nastari, da DATAGRO, reforçou esse diagnóstico, enquanto o deputado Arnaldo Jardim destacou o alcance da Lei do Combustível do Futuro como novo marco do setor.

O horizonte vai além do biodiesel. Mário Campos, da indústria de bioenergia mineira, lembrou que o mundo caminha para 10 bilhões de pessoas até 2050 — e que a transição energética significa adição de fontes, não substituição. Combustível de aviação sustentável, biometano e substitutos do bunker marítimo surgem como oportunidades concretas. E tudo isso sem depender da cadeia tecnológica chinesa, que domina boa parte da energia renovável global.

Roberto Ardenghy, do Instituto Brasileiro de Petróleo, acrescentou que até o setor de petróleo contribui para a descarbonização: a Petrobras já evitou o lançamento de 88 milhões de toneladas de CO2 na atmosfera por meio da reinjeção em reservas do pré-sal. O Brasil, concluiu Ardenghy, tem vocação natural para ser potência de alimentos e de energia — o desafio é converter essa vocação em liderança antes que o momento passe.

O Brasil está diante de uma janela de oportunidade que pode transformá-lo em potência global de energia renovável. A insegurança energética que varreu o mundo — alimentada pelo fechamento do Estreito de Ormuz e pela destruição de refinarias russas nos ataques ucranianos — criou um cenário onde a demanda por combustíveis alternativos cresce enquanto a oferta tradicional encolhe. Especialistas reunidos no Global Agribusiness Festival (GAFFFF), em São Paulo, discutiram como o Brasil pode capitalizar esse momento crítico através da expansão de seus biocombustíveis.

O potencial é concreto. O país possui 60 indústrias de biodiesel com capacidade instalada de 17 bilhões de litros anuais, mas produz apenas 10 bilhões, deixando 7 bilhões de litros de capacidade ociosa. Esse excedente representa não apenas eficiência produtiva, mas também a possibilidade de atender demanda internacional crescente. Carlos Eduardo Hammerschmidt, vice-presidente do Grupo Potencial, cunhou a expressão "Opep da energia verde" para descrever esse potencial, sugerindo que o Brasil poderia ocupar para fontes renováveis o papel que a Organização dos Países Exportadores de Petróleo ocupa no mercado de combustíveis fósseis.

Os investimentos já começaram a fluir. A Lei do Combustível do Futuro, novo marco regulatório do setor, mobilizou R$ 289 bilhões em investimentos cadastrados, segundo o deputado Arnaldo Jardim, presidente da Comissão de Transição Energética e Hidrogênio Verde da Câmara dos Deputados. Mas Hammerschmidt alertou que números não são suficientes. O Brasil precisa tratar a bioenergia como "uma política de Estado" e não apenas como uma lei a cumprir. Ele recomendou antecipar a mistura de 20% de biodiesel no diesel, atualmente prevista para 2030, aproveitando a escassez atual. "O momento é emergencial. Em alguns lugares no Brasil tem falta de diesel hoje", afirmou.

A crise global de combustíveis tende a persistir. Refinarias russas destruídas enfrentam recuperação incerta enquanto a guerra continua, e os Estados Unidos sinalizam possíveis proibições de exportação. Plinio Nastari, presidente da DATAGRO, completou o quadro alertando para essas restrições adicionais. Nesse contexto, a capacidade brasileira de produção de biodiesel não é apenas vantagem competitiva — é segurança energética em um mundo instável.

Os participantes do painel enfatizaram que a transição energética não significa substituição simples de combustíveis fósseis por renováveis, mas adição de fontes. Mário Campos, presidente executivo da Associação da Indústria da Bioenergia e do Açúcar de Minas Gerais, destacou que o crescimento populacional projetado para 10 bilhões de pessoas até 2050 criará demanda energética sem precedentes. Nesse cenário, os biocombustíveis brasileiros ganham relevância estratégica. Campos apontou oportunidades específicas: combustível de aviação sustentável (SAF), substituição do bunker marítimo por derivados de etanol e biometano para transporte terrestre.

Um terço da matriz energética brasileira já está ligada à bioenergia, um feito que Campos destacou como forma de transição sem dependência tecnológica da China, que domina a cadeia de energia renovável global. Roberto Ardenghy, presidente do Instituto Brasileiro de Petróleo, complementou a discussão lembrando que o setor petrolífero também contribui para descarbonização. A Petrobras desenvolveu tecnologia de reinjeção de CO2 em reservas após extração de óleo e gás, impedindo que 88 milhões de toneladas de CO2 fossem lançadas na atmosfera desde o início da exploração do pré-sal em 2006.

O Brasil possui vocação natural para ser potência tanto de alimentos quanto de energia, segundo Ardenghy. O desafio agora é transformar essa vocação em liderança competitiva global, focando em qualidade e eficiência. A janela de oportunidade está aberta — insegurança energética global, capacidade produtiva ociosa, investimentos mobilizados e demanda crescente convergem para um momento que pode redefinir o papel do Brasil na transição energética mundial.

O Brasil precisa garantir a soberania da sua matriz energética, não pode depender de produto importado. Temos o DNA para a produção de energia verde
— Carlos Eduardo Hammerschmidt, vice-presidente do Grupo Potencial
É uma adição energética. O aumento do consumo com a transição abre uma oportunidade para os biocombustíveis
— Mário Campos, presidente executivo da SIAMIG Bioenergia
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