Brasil pode atingir 1 milhão de presos em 2027, aponta Anuário de Segurança

Entre 2016 e 2025, 23.942 pessoas morreram em unidades prisionais brasileiras; sistema superlotado compromete direitos, garantias e reintegração social de encarcerados.
Um sistema que segue crescendo sem vagas adequadas
David Marques descreve a característica central da política criminal brasileira: expansão contínua sem infraestrutura.
Mark

Por que o Brasil continua prendendo mais pessoas se o sistema já está superlotado?

Mimi

Porque a política criminal brasileira respondeu historicamente a pressões por segurança com encarceramento em massa, sem investir proporcionalmente em infraestrutura ou em alternativas. É mais fácil prender do que julgar, reabilitar ou prevenir.

Mark

E as mulheres? Por que crescem mais rápido que os homens?

Mimi

Porque políticas de drogas e crimes relacionados afetam mulheres de forma desproporcional, muitas vezes como mães que sustentam famílias. O sistema não foi pensado para elas — as celas, os programas, tudo é estruturado para homens.

Mark

Qual é o impacto real da superlotação no dia a dia?

Mimi

Significa que uma pessoa presa não recebe atendimento médico adequado, não participa de programas de reintegração, não tem espaço físico digno. Aumenta a violência, as doenças, o desespero. Por isso as mortes crescem tanto.

Mark

E as mortes por causas desconhecidas? Isso é suspeito?

Mimi

Muito. Indica que ninguém está investigando adequadamente o que acontece dentro dos presídios. Quando você não sabe como alguém morreu, é porque não houve investigação rigorosa — ou porque alguém não quer que se saiba.

Mark

Qual seria o primeiro passo para mudar isso?

Mimi

Parar de tratar encarceramento como solução. Investir em alternativas penais, em programas de reintegração, em acesso à justiça rápida. Mas isso exigiria admitir que a estratégia atual falhou — e isso é politicamente difícil.

  • População prisional chegou a 964.668 em 2025, com projeção de 1 milhão em 2027
  • Déficit de 281.213 vagas no sistema prisional
  • 23.942 mortes em presídios entre 2016 e 2025, aumento de 241%
  • 69,6% dos presos são negros; mulheres cresceram 43,7% em dez anos
  • 70% dos presídios sem acessibilidade para pessoas com deficiência

População prisional brasileira cresceu 314,5% entre 2000 e 2025, com projeção de atingir 1 milhão em 2027 se mantido crescimento de 2% ao ano. Sistema prisional está superlotado com déficit de 281 mil vagas; mulheres presas cresceram 44% em 10 anos e representam recorde de 57.222; 69,6% são negras.

Brasil caminha para atingir 1 milhão de pessoas presas em 2027 mantendo ritmo de crescimento carcerário. População prisional chegou a 964.668 em 2025, com sistema superlotado e déficit de 281 mil vagas.

O Brasil está caminhando para um marco sombrio. Se o ritmo de crescimento da população carcerária se mantiver nos próximos dois anos, o país chegará a 1 milhão de pessoas presas em 2027. A projeção, validada pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, baseia-se em dados concretos: em 2025, havia 964.668 pessoas encarceradas em penitenciárias e delegacias, um aumento de 6% em relação a 2024. Mesmo com um crescimento mais modesto — cerca de 2% ao ano — seria suficiente para ultrapassar a marca de um milhão.

O que torna essa trajetória particularmente preocupante é que ela não é nova. Nos últimos dez anos, a população prisional cresceu em média 3,3% anualmente. Desde 2000, o aumento foi de 314,5%. David Marques, gerente de programas do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, descreve isso como uma característica da política criminal brasileira: um sistema que segue expandindo enquanto permanece estruturalmente inadequado. "Isso é muito característico da política criminal brasileira, uma população prisional que segue crescendo, num sistema prisional que não tem o número de vagas adequado", afirma.

A superlotação é o problema imediato. Em 2025, o sistema tinha apenas 679.763 vagas disponíveis para 964.668 presos — um déficit de 281.213 vagas. Essa realidade não é abstrata. Marques explica que em um sistema superlotado, as estruturas, políticas, direitos e garantias que deveriam existir dentro do cárcere simplesmente não são oferecidos. A reintegração social fica comprometida. Além disso, cerca de um em cada quatro presos ainda aguardava julgamento, revelando um desequilíbrio entre a capacidade de prender e a de julgar em tempo hábil.

O perfil dos encarcerados expõe desigualdades profundas. Mulheres representam uma parcela crescente: 57.222 em 2025, o maior número desde que a série histórica começou em 2016. Em dez anos, a população prisional feminina cresceu 43,7%, acima dos 36,4% registrados entre homens. Ainda assim, os homens continuam sendo 94% do total. Mais significativo é o dado racial: 69,6% dos presos são negros, o maior percentual já registrado, enquanto apenas 29,2% são brancos, o menor índice desde o início da coleta. Pessoas amarelas representam 0,9% e indígenas, 0,3%.

As mortes dentro do sistema prisional revelam outra dimensão da crise. Entre 2016 e 2025, 23.942 pessoas morreram em unidades prisionais brasileiras — um aumento de 241% em dez anos. Somente em 2025, foram registradas 3.318 mortes, o maior número da série histórica. A maioria ocorre por problemas de saúde e causas naturais, indicando falhas no acesso à atenção básica e ao atendimento hospitalar. Particularmente alarmante é o crescimento de mortes por causas desconhecidas, que aumentou 1.422% no período, sugerindo fragilidades na investigação e identificação das circunstâncias dos óbitos.

A acessibilidade para pessoas com deficiência permanece crítica. Em 2025, havia 10.218 pessoas privadas de liberdade com algum tipo de deficiência. Apesar disso, quase 70% dos 1.532 estabelecimentos prisionais não possuem qualquer módulo ou cela adaptados. Apenas 17,3% apresentam alguma adequação, e menos de 15% estão totalmente adaptados. Os programas de laborterapia, considerados estratégias principais de reintegração social, alcançam apenas 21,6% da população prisional, embora tenham crescido 13,2% em relação a 2024.

O cenário que emerge é de um sistema em expansão contínua, mas sem a infraestrutura, os recursos ou as políticas necessárias para absorver esse crescimento de forma humana. A chegada a 1 milhão de presos em 2027 não seria um pico isolado, mas um ponto em uma trajetória que parece sem fim — e cada novo número representa pessoas vivendo em condições cada vez mais precárias, com direitos cada vez mais comprimidos.

Isso é muito característico da política criminal brasileira, uma população prisional que segue crescendo, num sistema prisional que não tem o número de vagas adequado
— David Marques, gerente de programas do Fórum Brasileiro de Segurança Pública
No sistema superlotado, as estruturas, as políticas, os direitos e garantias que deveriam existir dentro do cárcere não são oferecidos de fato
— David Marques
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