Nos dias que seguem uma eleição polarizada, quatro psicanalistas brasileiros foram convidados a colocar o país no divã — e o que encontraram foi um paciente partido ao meio, carregando traumas que atravessam séculos de esquecimento deliberado, dependência de figuras míticas e uma incapacidade crescente de tolerar o outro. O diagnóstico é grave, mas não terminal: há, neste momento raro de exposição coletiva, uma janela para o luto, a autorreflexão e a reconstrução de projetos comuns — desde que o país esteja disposto a fazer o trabalho que a cura exige.
Brasil no divã: psicanalistas diagnosticam país dividido em busca de cura
O Brasil precisa aprender a desejar de novo, a mirar novos horizontes
Por que os psicanalistas escolhem a metáfora da psicose? Não é exagero?
Não é diagnóstico clínico, é uma forma de descrever como o mesmo evento — as eleições — é interpretado de formas radicalmente opostas, como se houvesse dois pacientes dentro de um só corpo.
Mas a fonte deixa claro que é metáfora, certo? Ninguém está dizendo que o Brasil tem psicose no sentido médico.
Exato. É uma ferramenta de pensamento. O ponto é que há uma divisão que parece irreconciliável porque cada lado vive em uma realidade diferente.
E a questão do mito? Iaconelli fala sobre depositar tudo em uma figura salvadora.
Ela está descrevendo um padrão psicológico: quando as pessoas sentem vazio, medo ou falta de controle, buscam alguém que prometa plenitude. Quando esse alguém cai, o vazio reaparece ainda maior.
Mas isso é observação clínica ou interpretação política? Porque qualquer figura política pode ser vista assim.
É observação clínica aplicada a um contexto político. Dunker vai além: ele diz que ambos os lados idealizaram — uns um salvador, outros uma revolução — e ambas as idealizações caíram.
Então o luto é para os dois lados?
Sim. Dunker é bem claro: há uma dupla derrota. Quem perdeu a eleição, e quem viu metade do país votar em algo que considera inaceitável.
E a questão dos traumas históricos que Palazzo Nazar levanta? Genocídio indígena, escravidão. Isso é novo na conversa ou já estava ali?
Já estava, mas ela nomeia explicitamente. Diz que o Brasil cultivou uma memória do esquecimento — apagou sistematicamente seus crimes.
Como se cura isso?
Não se cura rápido. Palazzo Nazar diz que o paciente precisa parar de jogar os traumas embaixo do tapete e enfrentá-los. Mas ela também recusa a simplificação de culpar metade da população.
Qual é a esperança aqui? Porque tudo isso soa muito pesado.
A esperança está em que há uma janela agora. Depois de uma eleição, há um momento em que o país pode se olhar no espelho. Mas é só uma oportunidade — o paciente pode recusar o tratamento.
E se recusar?
Dunker é claro: melancolia, depressão, respostas violentas. O luto recusado leva a isso.
Mas nenhum deles diz como isso acontece na prática, certo? Como uma nação faz luto?
Não. Eles estão oferecendo diagnóstico, não prescrição. Talvez seja impossível prescrever.
El Pulso
- O Brasil emerge das eleições de 2022 clinicamente dividido: um lado em delírio com a queda de seu mito, outro em choque ao ver metade do país abraçar o que considera uma ameaça à democracia.
- A dependência de salvadores cria um ciclo perigoso — quando a figura adorada cai, abre-se um vácuo que alimenta raiva, violência e busca desesperada por um novo redentor.
- O país é comparado a uma criança presa na separação litigiosa dos pais: convocada a tomar partido quando o que deseja, no fundo, é unidade e reconciliação.
- Traumas históricos sistematicamente apagados — o genocídio indígena, o holocausto negro — ressurgem como feridas não tratadas que distorcem a leitura do presente.
- Psicanalistas convergem: recusar o luto leva à melancolia ou à violência, mas aceitar as perdas e reconhecer os próprios erros pode abrir caminho para um desejo coletivo renovado.
Nos dias que seguem uma eleição polarizada, quatro psicanalistas brasileiros foram convidados a colocar o país no divã — e o que encontraram foi um paciente partido ao meio, carregando traumas que atravessam séculos de esquecimento deliberado, dependência de figuras míticas e uma incapacidade crescente de tolerar o outro. O diagnóstico é grave, mas não terminal: há, neste momento raro de exposição coletiva, uma janela para o luto, a autorreflexão e a reconstrução de projetos comuns — desde que o país esteja disposto a fazer o trabalho que a cura exige.
Nos dias que seguem uma eleição polarizada, há um momento raro em que uma nação pode se ver de verdade — não como vencedora ou vencida, mas como ela mesma, com todas as fraturas expostas. Foi esse o exercício que O GLOBO propôs a quatro psicanalistas: levar o Brasil ao divã.
Vera Iaconelli, doutora pela USP e diretora do Instituto Gerar de Psicanálise, diagnostica um quadro de psicose metafórica: um lado do país deposita toda esperança em uma figura mítica e, quando ela cai, abre-se um vácuo devastador preenchido por raiva. O outro lado interpreta a mesma realidade de forma radicalmente diferente. Para Iaconelli, apenas o amor — como ferramenta clínica de redução de diferenças, não como sentimento vago — pode oferecer saída.
Christian Dunker, professor do Instituto de Psicologia da USP, vê o Brasil como uma criança desorientada cujos pais estão em separação litigiosa. Ela quer reconciliação, mas é forçada a tomar partido. Dunker insiste que a retomada exige luto genuíno de ambos os lados — quem perdeu convicto de vitória, e quem viu metade do país escolher algo que considera golpista. Recusar esse luto, alerta, leva à violência e à demissão política.
Teresa Palazzo Nazar, da Escola Lacaniana do Rio, aponta o que chama de memória do esquecimento: o Brasil não é um país sem história, mas um que apagou sistematicamente seus traumas — o genocídio indígena, o holocausto negro. Ela diagnostica também uma dupla idealização patológica: a recusa do real de um lado, e a relativização da corrupção de ideais do outro. Ambas precisam ser tratadas.
Urania Tourinho-Peres, psicanalista doutora pela UFBA, observa que a divisão eleitoral reflete uma imposição de escolha binária que empobrece um país naturalmente plural. A radicalidade — bem absoluto contra mal absoluto — esconde insegurança. A oposição tornou-se insuportável em todos os ambientes, e é preciso aprender a suportá-la, a perceber nuances, a viver conflitos que não sejam mortais.
Os quatro concordam: o pós-eleição oferece uma janela singular. O Brasil pode reconhecer seus temores, fazer o luto pelas fantasias de salvação e de revolução, e começar a reconstruir a partir da escuta genuína. Será difícil — mas só assim, dizem os analistas, o país conseguirá crescer de verdade.
Nos dias que se seguem a uma eleição polarizada, há um momento raro em que uma nação pode se ver de verdade — não como vencedora ou vencida, mas como ela mesma, com todas as suas fraturas expostas. Foi esse o exercício que O GLOBO propôs a quatro psicanalistas: levar o Brasil ao divã e ouvir o que eles diagnosticariam. O que emergiram foram retratos perturbadores e, ao mesmo tempo, esperançosos de um país partido ao meio, carregando traumas que atravessam séculos, mas ainda capaz de cura se estiver disposto a fazer o trabalho árduo que a análise exige.
Vera Iaconelli, doutora em psicologia pela USP e diretora do Instituto Gerar de Psicanálise, vê no Brasil um quadro de psicose — não no sentido clínico estrito, mas como metáfora de uma divisão profunda. Um lado do país vive em delírio, depositando toda esperança e poder em uma figura mítica, um salvador que promete plenitude e pertencimento. Quando esse mito cai, abre-se um vácuo devastador, e o paciente busca desesperadamente um novo redentor. O outro lado observa a mesma realidade e a interpreta de forma radicalmente diferente. Iaconelli aponta que a manipulação dos afetos é central nesse processo: quando a figura adorada perde seu lugar, a raiva toma conta. Ela insiste que apenas o amor — não como sentimento vago, mas como ferramenta clínica de redução de diferenças — pode oferecer saída.
Christian Dunker, psicanalista e professor do Instituto de Psicologia da USP, oferece outra imagem: o Brasil é uma criança desorientada cujos pais estão em separação litigiosa. A criança deseja que os pais se reconciliem, acredita que todos ganhariam com isso, mas não compreende as razões profundas do conflito. Ela é convocada a tomar partido quando o que quer é unidade. Dunker enfatiza que a retomada só será possível após ambos os lados reconhecerem que erraram — uma tarefa que exige luto genuíno. Há uma dupla derrota aqui: quem perdeu a eleição embora convicto de vitória, e quem viu metade do país optar por algo que considera genocida e golpista. Recusar esse luto leva a respostas violentas, a um estado de demissão política e pessoal. O Brasil, diz Dunker, precisa aprender a desejar de novo, a mirar novos horizontes, não apenas a fugir do sofrimento.
Teresa Palazzo Nazar, médica psicanalista da Escola Lacaniana do Rio, toca em algo que atravessa toda a história brasileira: o país cultiva uma memória do esquecimento. Não é que não tenha memória — é que a apagou sistematicamente. O genocídio dos indígenas, o holocausto dos negros, as tragédias que foram varridas para debaixo do tapete. Nazar recusa a simplificação de ver metade da população como milhões de racistas e misóginos, mas insiste que o paciente não pode mais evitar seus traumas. Ela diagnostica também uma dupla idealização patológica: de um lado, a loucura da recusa do real, da sugestão de que a faixa presidencial não será passada; do outro, uma condução perversa que relativiza a corrupção de ideais. Ambas precisam ser tratadas.
Urania Tourinho-Peres, psicanalista doutora pela UFBA, observa que a divisão eleitoral reflete algo mais profundo: uma imposição de escolha binária que empobrece. O Brasil é plural, criativo, especialmente em suas regiões como o Nordeste. A radicalidade que se vê agora — bem radical versus mal radical — é frequentemente uma exaltação que esconde insegurança. A oposição tornou-se insuportável em todos os ambientes: família, amigos, trabalho, escola. Tourinho-Peres sugere que essa divisão está sendo estimulada, e que é necessário aprender a suportá-la, a perceber nuances, a viver oposições que não sejam mortais.
O que todos os quatro psicanalistas concordam é que o pós-eleição oferece uma oportunidade singular. Não é garantida — o paciente pode recusar o tratamento e cair em melancolia ou violência. Mas há uma janela. O Brasil pode se olhar no espelho, reconhecer seus temores, seus traumas centenários, suas fraturas. Pode fazer o luto pelas fantasias que alimentou — tanto de salvação quanto de revolução. E pode, depois de muito trabalho, começar a reconstruir não a partir da negação do outro, mas a partir da escuta genuína, do reconhecimento de que a pluralidade não é fraqueza, e que o bem comum exige mais do que a vitória de um lado sobre o outro. Será difícil. Mas só assim, dizem os analistas, o país conseguirá crescer de verdade.
Citas Notables
O amor é a chave que nos permite reduzir, enfrentar e superar nossas diferenças— Vera Iaconelli, diretora do Instituto Gerar de Psicanálise
O Brasil tem que aprender a desejar de novo, a mirar novos horizontes, a não apenas fugir do desprazer mas ser capaz de amar novamente— Christian Dunker, professor do Instituto de Psicologia da USP