A morte por calor não é banal. É um problema de saúde pública.
Enquanto a Europa mobiliza alertas globais diante de ondas de calor sem precedentes, o Brasil — país de clima tropical — trata o mesmo fenômeno como paisagem comum, batizando-o com apelidos que dissolvem sua gravidade. Um estudo inédito da Fiocruz revela que essa normalização tem um custo silencioso e imenso: 120 mil mortes em vinte anos, invisíveis porque foram absorvidas pela rotina de um país que ainda não aprendeu a reconhecer o calor extremo como emergência de saúde pública. À medida que o El Niño retorna em 2026 e o desmatamento avança, o tempo para agir se estreita.
- 120 mil brasileiros morreram por calor extremo em duas décadas, mas o país segue chamando o fenômeno de 'calorão' — como se nomear fosse neutralizar.
- Idosos, crianças e mulheres são os mais expostos, e as cidades pequenas — maioria no Brasil — têm a menor capacidade de se adaptar ao calor crescente.
- O desmatamento no Norte e Nordeste desde 2020 intensificou ondas de calor mais severas, e o El Niño previsto para 2026 promete amplificar ainda mais esse cenário.
- Pesquisadores da Fiocruz alertam que as transformações climáticas estão ocorrendo mais rápido do que a capacidade coletiva de resposta — e que reconhecer o calor como problema de saúde pública é o primeiro passo urgente.
- Soluções existem — arborização urbana, ventilação residencial, transporte público climatizado, espaços de sombra —, mas dependem de políticas públicas que o Brasil ainda não consolidou.
A Europa dispara alertas sobre ondas de calor sem precedentes, mas no Brasil o mesmo fenômeno passa quase despercebido. Acostumado a temperaturas elevadas, o país batiza esses eventos com apelidos como 'calorão' ou 'veranico de inverno' — nomes que minimizam sua gravidade e mascaram as mortes que provocam.
Tecnicamente, uma onda de calor é definida como um período de ao menos cinco dias com temperaturas 5°C acima da média histórica regional. No Brasil, todos os estados registraram aumento sistemático desses eventos nas últimas décadas. As mais perigosas ocorrem na primavera, quando a seca reduz a umidade do ar a níveis críticos. O calor extremo ainda favorece incêndios florestais, compromete reservatórios de água e impacta a agricultura — um efeito cascata que se agrava com o desmatamento no Norte e Nordeste. O El Niño, que retorna em 2026, promete intensificar ainda mais esse quadro.
Um estudo inédito da Fiocruz e da Universidade da Bahia quantificou o custo humano dessa negligência: 120 mil mortes por calor extremo nos últimos 20 anos, identificadas ao cruzar dados de mortalidade e internações cardiovasculares no SUS com registros de calor extremo em quase todos os municípios do país. A coordenadora do estudo, Beatriz Oliveira, aponta o nó central do problema: o Brasil normaliza o risco de morrer de calor por se considerar um país tropical adaptado — ignorando que seu território é vasto, com perfis climáticos e vulnerabilidades radicalmente distintos.
Idosos lideram os grupos mais vulneráveis, seguidos por crianças e mulheres. Moradores de cidades pequenas — a maioria dos municípios brasileiros — enfrentam maior exposição e menor capacidade de adaptação. As soluções apontadas pelos especialistas são concretas: mais árvores nas cidades, residências ventiladas, novos materiais construtivos, transporte público com ar-condicionado e espaços de espera com proteção solar. O que falta, alertam, é a decisão política de tratar o calor extremo como o problema de saúde pública que ele já é.
A Europa enfrenta ondas de calor sem precedentes em intensidade e duração, disparando alertas globais sobre a aceleração das mudanças climáticas. Mas há um país onde o fenômeno passa quase despercebido: o Brasil, acostumado a temperaturas elevadas, trata essas ondas como parte natural de seu clima tropical e carece de políticas públicas adequadas para enfrentá-las.
Uma onda de calor é definida tecnicamente como um período de pelo menos cinco dias em que as temperaturas superam em 5°C ou mais os valores médios registrados ao longo de 30 anos em cada região. Embora esses eventos sempre tenham existido, estão se tornando progressivamente mais frequentes e intensas devido às mudanças climáticas. No Brasil, porém, recebem apelidos desarmantes como "calorão", "veranico de outono" ou "de inverno" — nomes que minimizam sua gravidade e mascaram as mortes que causam, diferentemente do que ocorre na Europa, onde o fenômeno é tratado com seriedade.
Marcelo Seluchi, coordenador-geral de Operações e Modelagens do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais, explica que em países tropicais como o Brasil, uma onda de calor combina temperaturas muito elevadas com umidade extremamente baixa — uma combinação prejudicial à saúde. Nos últimos 40 ou 50 anos, todos os estados brasileiros, do Rio Grande do Sul ao Rio Grande do Norte, registraram aumento sistemático no número desses eventos. As mais perigosas ocorrem na primavera, entre setembro e novembro, quando a estação seca reduz ainda mais a umidade do ar.
Essas condições criam um efeito cascata. O calor extremo favorece a proliferação de incêndios florestais, que degradam a qualidade do ar e provocam doenças respiratórias. Ocorrem também em períodos de seca, quando os reservatórios de água estão mais baixos, reduzindo a evaporação e elevando ainda mais as temperaturas — impactando tanto o consumo humano quanto a agricultura. No Norte e Nordeste, o aumento do desmatamento desde 2020 intensificou ondas de calor mais frequentes e severas, potencializadas por fenômenos naturais como o El Niño, que retorna em 2026. Seluchi descreve o El Niño como um aquecimento do Pacífico que funciona como um aquecedor sob a atmosfera: "O oceano mais quente atua como uma fonte de calor. Nas últimas décadas, tanto a atmosfera quanto os oceanos estão trabalhando no mesmo sentido para provocar ondas de calor mais frequentes".
Um estudo inédito publicado pela Fiocruz e pela Universidade da Bahia revelou o impacto real desse fenômeno: 120 mil pessoas morreram em decorrência das altas temperaturas nos últimos 20 anos no Brasil. Pela primeira vez, pesquisadores revisaram dados de mortalidade e internações por doenças do aparelho circulatório e cardiovasculares no Sistema Único de Saúde em quase todos os municípios do país, comparando-os com a ocorrência de calor extremo. Beatriz Oliveira, especialista em saúde pública da Fiocruz e coordenadora do estudo, aponta o problema central: "A gente normaliza esse risco de morrer por causa do calor porque nós somos um país tropical, então parece que nós somos acostumados, mas na verdade o país é muito extenso territorialmente, com perfis climáticos totalmente distintos e com vulnerabilidades também distintas. A morte ou a internação por calor ocorre, e ela não é banal. O principal ponto é reconhecer isso como um problema de saúde pública".
Os idosos são, de longe, os mais vulneráveis tanto para internação quanto para morte por calor extremo. Crianças e mulheres completam os três grupos prioritários que demandam políticas públicas específicas durante períodos prolongados de temperaturas extremas. Oliveira ressalta que residentes em cidades pequenas — que compõem a maioria dos municípios brasileiros e têm baixa capacidade de adaptação — enfrentam maior exposição. "As coisas estão acontecendo mais rápido do que a nossa capacidade de agir. A gente tem que procurar estratégias para reduzir a nossa exposição", frisa.
As soluções passam por transformações urbanas concretas: cidades mais arborizadas, residências com ventilação adequada e sombra, novos materiais que absorvam calor, transportes públicos de qualidade com ar-condicionado, e espaços de espera com proteção solar. Marcelo Seluchi, doutor em Ciências Meteorológicas, encerra o debate sobre negacionismo climático: registros históricos dos últimos três séculos confirmam a tendência de aquecimento da Terra, causado pelas emissões de gases de efeito estufa gerados principalmente pela industrialização. "Ao longo dos séculos, sempre tivemos oscilações do clima, como eras polares e a Pequena Era Glacial. Mas, se observarmos os últimos 100, 120 anos, é muito claro que a temperatura está agora aumentando numa taxa sem precedentes na história — inclusive, a taxa é maior do que a prevista algumas décadas atrás", adverte.
Notable Quotes
A gente normaliza esse risco de morrer por causa do calor porque nós somos um país tropical, então parece que nós somos acostumados, mas na verdade o país é muito extenso territorialmente, com perfis climáticos totalmente distintos— Beatriz Oliveira, especialista em saúde pública da Fiocruz
A temperatura está agora aumentando numa taxa sem precedentes na história — inclusive, a taxa é maior do que a prevista algumas décadas atrás— Marcelo Seluchi, coordenador-geral do Cemaden
The Hearth Conversation Another angle on the story
Por que o Brasil trata ondas de calor como algo normal quando elas matam 120 mil pessoas em 20 anos?
Porque vivemos em um país tropical. Há uma suposição de que estamos acostumados ao calor, que é parte da nossa natureza. Mas essa normalização mascara uma realidade: o Brasil é territorialmente vasto, com climas muito diferentes, e nem todos têm a mesma capacidade de se adaptar.
Então não é que o calor não mate — é que ninguém está contando?
Exatamente. Até recentemente, ninguém havia feito um estudo sistemático comparando mortes por doenças cardiovasculares com períodos de calor extremo em quase todos os municípios. Quando você faz isso, os números aparecem. 120 mil mortes em duas décadas.
Quem sofre mais?
Os idosos, principalmente. Depois crianças e mulheres. E as pessoas que vivem em cidades pequenas, que não têm infraestrutura — sem sombra nas ruas, sem transporte público com ar-condicionado, sem espaços de refúgio.
O El Niño em 2026 vai piorar isso?
Sim. O El Niño aquece o Pacífico, e esse oceano mais quente funciona como um aquecedor sob a atmosfera. Combinado com o desmatamento no Norte e Nordeste, que já intensifica ondas de calor desde 2020, teremos condições ainda mais severas.
Qual é a solução?
Não é uma solução única. Precisa de cidades mais arborizadas, casas com ventilação, materiais que absorvam calor, transportes públicos de qualidade. Mas tudo isso exige reconhecer que isso é um problema de saúde pública real — não uma característica do clima tropical que devemos simplesmente aceitar.