Crianças como Kauê e Kalleb, no 4º ano, ainda não dominam leitura e escrita apesar de investimentos educacionais que aumentaram 4,5 vezes desde 2005. Especialistas apontam unanimemente que melhorias na primeira infância, reforço escolar, escolas de tempo integral e formação prática de professores são essenciais.
Brasil falha na alfabetização e candidatos tropeçam em ideologia e omissão
Ninguém ensina bem se não tiver condições satisfatórias
Por que o Brasil investe mais em educação mas os resultados não melhoram?
Porque o dinheiro não chega onde deveria. Crianças como Kauê e Kalleb precisam de apoio desde antes de nascer—creches, nutrição, saneamento. Depois precisam de professores bem preparados e escolas com estrutura. Investir sem consertar essas bases é como colocar dinheiro em um balde furado.
Mas espera—o gasto aumentou 4,5 vezes em vinte anos. Onde esse dinheiro foi?
Parte foi para salários, infraestrutura, mas sem coordenação. Você pode ter uma escola com água encanada e um portão quebrado que deixa vândalos entrar à noite. Você pode ter professores formados por educação a distância, sem nunca ter pisado em uma sala de aula real.
E os candidatos? Eles estão propondo soluções?
Alguns propõem o que os especialistas recomendam—mais tempo de aula, melhor formação de professores. Mas outros desviam para escolas cívico-militares e pautas ideológicas que não têm respaldo técnico.
Quando você diz "sem respaldo técnico", está falando de consenso entre pesquisadores ou de falta de evidência científica?
Consenso entre especialistas consultados pela reportagem. Seis autoridades em educação disseram unanimemente que o foco deve ser primeira infância, reforço escolar, tempo integral e formação prática de professores.
Seis especialistas é uma amostra pequena. Pode haver outros que discordem?
Pode, mas esses seis representam instituições como Insper, USP, Banco Mundial, Todos Pela Educação. Não são vozes isoladas.
Então o que precisa acontecer agora?
O próximo presidente precisa escolher: investir em bases sólidas ou continuar gastando sem mudar estrutura. Kauê e Kalleb não podem esperar mais vinte anos.
O Pulso
- Gasto por aluno aumentou 4,5 vezes de 2005 a 2025, mas desempenho subiu apenas 20%
- Brasil ficou na 52ª posição em leitura no Pisa 2025, entre 91 países
- Crianças no 4º ano ainda não dominam leitura e escrita conforme diretrizes do MEC
- Oito em cada dez professores são formados por educação a distância
Crianças como Kauê e Kalleb, no 4º ano, ainda não dominam leitura e escrita apesar de investimentos educacionais que aumentaram 4,5 vezes desde 2005. Especialistas apontam unanimemente que melhorias na primeira infância, reforço escolar, escolas de tempo integral e formação prática de professores são essenciais.
O Brasil falha sistematicamente na alfabetização de crianças, com candidatos à presidência omitindo medidas técnicas essenciais e priorizando pautas ideológicas desconectadas de práticas pedagógicas comprovadas.
Na parede de uma casa no Jardim Corisco, no extremo norte de São Paulo, medalhas brilham entre lençóis que cobrem alvenaria inacabada e pedaços de madeira. São prêmios de Kauê, dez anos, conquistados em competições de matemática, xadrez e mancala, o jogo de tabuleiro africano que aprendeu na escola. O menino tem talento para raciocínio lógico, mas sua mãe, Ellem Priscila Gomes da Silva, ajudante-geral de 33 anos, vê o contraste todos os dias: ele lê com relativa fluência, mas escreve com dificuldade, trocando letras constantemente. Kalleb, nove anos, colega de Kauê no 4º ano da mesma escola pública, tropeça ao tentar ler frases simples. Seus cadernos mostram letras emboladas, incompreensíveis até para sua mãe, Ingrid Karem Aparecida Silva, dona de casa de 41 anos. Ambos deveriam dominar plenamente o sistema alfabético e redigir textos simples há pelo menos dois anos, conforme as diretrizes do Ministério da Educação e da Base Nacional Comum Curricular. Mas alfabetizar na idade certa continua sendo um desafio estrutural para o Brasil.
Quando a Folha consultou seis autoridades em educação sobre os principais gargalos que o próximo presidente deveria enfrentar, a resposta foi unânime: superar o atraso no letramento. Os especialistas apontaram um caminho claro. Melhorar a atenção à primeira infância, desde a gestação até os seis anos. Aplicar reforço escolar nos últimos anos do ensino fundamental. Ampliar escolas de tempo integral. Preparar professores com formação presencial e prática, não apenas teórica. E usar critérios técnicos para preencher cargos de gestão escolar. Essas medidas refletem consenso entre pesquisadores e educadores sobre o que funciona.
Os principais candidatos ao Planalto incluem ideias alinhadas a essas estratégias em seus planos de governo, mas com lacunas significativas e desvios preocupantes. Lula, pelo PT, não menciona como garantir nomeações de gestores baseadas no mérito, nem como reverter a formação excessiva de professores por educação a distância. Flávio Bolsonaro, pelo PL, propõe criar mais escolas cívico-militares e enfatizar o papel das famílias na formação de valores—pautas sem respaldo técnico, com viés doutrinário, que ocupam espaço de assuntos urgentes.
O paradoxo financeiro é gritante. Há duas décadas o Brasil expande investimentos em educação. De 2005 a 2025, o gasto por aluno na educação básica aumentou 4,5 vezes, saltando de R$ 3.450 para R$ 15.581 em valores atualizados para 2024. Apesar disso, a nota média dos estudantes da rede pública nos anos finais do ensino fundamental subiu apenas 20%. No ensino médio, o aumento foi ainda menor: 12%. Naercio Menezes Filho, professor do Insper e da USP, explica que uma das razões para essa ineficiência está nos obstáculos que aparecem antes mesmo da criança entrar na escola. Da gestação aos seis anos, faltam creches, assistência social e psicológica, saneamento básico. Falta o essencial para uma vida digna. Carências não atendidas no início da vida reverberam durante toda a jornada escolar.
Kalleb sente falta de materiais de apoio e atendimento individual. Ele não compreende o alfabeto cursivo, o que trava suas tentativas de produzir textos ou copiar da lousa. Quando 40 alunos falam alto e correm pela sala enquanto a professora coloca conteúdo no quadro, ele fica ainda mais perdido. "Quando vou escrever, já esqueci tudo. Fico muito tempo pensando", diz. Priscila Cruz, presidente-executiva do Todos Pela Educação, afirma que alunos como Kauê e Kalleb tendem a chegar ao 9º ano sem dominar as competências esperadas para o 5º ano. É do 6º ao 9º ano que aumentam reprovações e desengajamento, segundo Katia Smole, diretora-executiva do Instituto Reúna. Essa etapa "ficou no meio do caminho" entre alfabetização e ensino médio. Mozart Neves Ramos, pesquisador da USP, é direto: "O Brasil está literalmente estagnado há mais de duas décadas nessa fase, e nessa fase, estagnação significa retrocesso".
Ingrid e Ellem acreditam que o desempenho dos filhos seria melhor se passassem mais tempo na escola. Estão certas. Aumentar o período de estudo colocaria o Brasil mais perto do desempenho dos países bem colocados no Pisa, o Programa Internacional de Avaliação de Estudantes. No Pisa de 2025, o Brasil ficou na 52ª posição em leitura, 67ª em ciências e 71ª em matemática, em um ranking de 91 países e territórios. Claudia Costin, ex-diretora global de Educação do Banco Mundial, compara: no ensino fundamental 2, de 6º a 9º ano, o Brasil tem quatro horas de aula em média. Os 40 primeiros colocados no Pisa têm de sete a nove horas de jornada escolar.
Quando a Folha visitou a escola onde estudam Kauê e Kalleb, faltava água. Tubulações tinham sido depredadas. Vândalos entraram pelo portão que, com defeito, ficou aberto de madrugada. Percalços que a maioria dos professores desconhece até o dia em que colocam os pés pela primeira vez na rede pública. Oito em cada dez professores são formados por educação a distância em universidades privadas, e mesmo os formados em universidades federais têm preparação excessivamente teórica, pouco exposta à prática. Carlota Boto, professora da Faculdade de Educação da USP, sugere que estágios orientados para estudantes de licenciatura aproximem teoria e prática, aliados a melhorias estruturais e salariais. "Ninguém ensina bem se não tiver condições satisfatórias para isso", afirma.
Citações Notáveis
O Brasil está literalmente estagnado há mais de duas décadas nessa fase, e nessa fase, estagnação significa retrocesso— Mozart Neves Ramos, pesquisador da USP
Para que a criança se desenvolva, especialmente as que nasceram em famílias vulneráveis, todas estas partes têm que funcionar— Naercio Menezes Filho, professor do Insper e da USP