Brasil exporta 5 milhões de toneladas de milho a menos e reduz meta para 38 milhões

A Argentina disputa os mesmos destinos que o Brasil atende
Competição internacional explica a desaceleração das exportações brasileiras de milho em setembro.
Mark

Por que exatamente as exportações caíram tanto em setembro? Parece uma queda brusca.

Mimi

Não foi só setembro. O problema começou em julho e ganhou força em agosto. Mas sim, setembro foi o pior mês — 31% de queda em volume. A Argentina está vendendo muito mais milho e disputando os mesmos compradores que o Brasil atende.

Luke

Mas espera — os preços subiram 20%. Se o preço está melhor, por que o Brasil não consegue vender mais?

Mimi

Porque a Argentina também tem preços competitivos e já tem muito volume registrado para exportação. Além disso, o real valorizou, o que torna o milho brasileiro menos atrativo em moeda estrangeira.

Mark

E quanto ao Irã? Ouvi falar que era um mercado importante.

Mimi

Era. Mas problemas logísticos e o conflito no Oriente Médio reduziram a demanda iraniana. Perdemos um comprador significativo.

Luke

Então a questão é: quanto disso é estrutural e quanto é conjuntural? A Argentina vai continuar competindo assim?

Mimi

Projeções apontam que a Argentina pode produzir ainda mais no próximo ciclo. Então sim, parece estrutural.

Mark

E o Brasil consegue atingir a meta de 38 milhões de toneladas?

Mimi

Precisaria embarcar 17 milhões de toneladas entre novembro e janeiro. É possível, mas exige aceleração.

Luke

Mas há um detalhe que não é pequeno: mesmo que o Brasil venda menos para fora, o milho não desaparece. Vai para o mercado doméstico. Então por que a liquidez cai em alguns lugares?

Mimi

Porque o milho que deixa de ser exportado não vai para as mesmas regiões. Em Goiás, por exemplo, a redução de embarques pelo corredor Rio Verde-Santos criou um vácuo. O cereal não está lá para ser comprado pela indústria local.

Mark

Isso significa que alguns produtores vão sofrer mais que outros.

Mimi

Exatamente. A localização do comprador passa a ser tão importante quanto o tamanho da demanda.

  • Em setembro, o Brasil exportou 5,21 milhões de toneladas de milho — 31% a menos que no mesmo mês de 2025 —, e mesmo preços 20% mais altos não impediram uma receita 17% inferior.
  • A Argentina avança com produção estimada entre 68 e 72 milhões de toneladas e um programa de exportações de 43 milhões, ocupando os mesmos mercados que o Brasil precisa disputar.
  • O Irã, antes um comprador relevante do milho brasileiro, recuou por problemas logísticos e instabilidade no Oriente Médio, deixando um vazio difícil de preencher rapidamente.
  • A valorização do real reduz a competitividade do produto nacional, enquanto regiões produtoras como Goiás já sentem pressão sobre preços locais pela queda nos embarques.
  • Para alcançar a nova meta revisada de 38 milhões de toneladas no ciclo, o Brasil precisaria embarcar 17 milhões de toneladas apenas entre novembro e janeiro — um ritmo que exige aceleração considerável.

O Brasil, um dos maiores exportadores de milho do mundo, atravessa um trimestre de recuo expressivo: entre julho e setembro, os embarques caíram quase 30% em relação ao ano anterior, revelando não uma crise passageira, mas uma reconfiguração das forças que moldam o mercado global de grãos. A Argentina emerge com produção recorde e agressividade comercial, enquanto fatores logísticos, geopolíticos e cambiais corroem a posição brasileira. O que está em jogo não é apenas uma meta de exportação, mas a capacidade do país de sustentar sua relevância em mercados que agora têm mais de onde escolher.

Os embarques brasileiros de milho perderam fôlego em um momento em que deveriam estar no pico. Em setembro, o país exportou 5,21 milhões de toneladas, contra 7,56 milhões no mesmo mês de 2025 — queda de 31%. A média diária recuou de 343 mil para 248 mil toneladas, e o faturamento mensal ficou em US$ 1,24 bilhão, 17% abaixo do ano anterior, mesmo com preços internacionais mais elevados.

O problema se acumulou ao longo do trimestre. Entre julho e setembro, o Brasil embarcou 11,81 milhões de toneladas, contra 16,85 milhões no mesmo período de 2025. Essa diferença de 5 milhões de toneladas apagou a vantagem que o país ainda carregava até julho, e o acumulado de janeiro a setembro chegou a 19,70 milhões de toneladas, contra 23,31 milhões em 2025.

A Argentina é o principal fator dessa virada. Com produção estimada entre 68 e 72 milhões de toneladas e um programa de exportações próximo de 43 milhões, o país vizinho passou a disputar diretamente os mesmos destinos do milho brasileiro — e grande parte desse volume já está registrada para embarque. O analista Eduardo Vanin havia previsto que os embarques brasileiros de julho a outubro ficariam 6 milhões de toneladas abaixo de 2025; com setembro encerrado, cerca de 5 milhões dessa diferença já se concretizaram.

Outros vetores agravam o quadro. A demanda iraniana recuou por problemas logísticos e pelo conflito no Oriente Médio, removendo um comprador relevante. A valorização do real corrói a conversão dos preços internacionais, reduzindo a competitividade do produto nacional. Os demais destinos estão mais pulverizados e têm liberdade para escolher entre origens conforme os preços.

O impacto chega às regiões produtoras: em Goiás, a queda nos embarques pelo corredor Rio Verde-Santos pressiona os preços locais; em Mato Grosso, a disputa entre indústria de etanol e exportadores pelo cereal deve se intensificar. As projeções para o ciclo comercial foram revisadas de 42-43 milhões para 38 milhões de toneladas, e atingir esse patamar exigirá embarcar 17 milhões de toneladas entre novembro e janeiro. A pressão competitiva da Argentina, com produção projetada ainda maior para 2026/27, sinaliza que o desafio não se encerrará com o calendário atual.

Os embarques de milho brasileiro perderam ritmo justamente quando deveriam estar acelerados. Em setembro, o país exportou 5,21 milhões de toneladas do grão — queda de 31% ante o mesmo mês de 2025, quando havia enviado 7,56 milhões. A redução não se explica apenas por calendário: a média diária caiu de 343,77 mil toneladas para 248,19 mil, uma queda de 27,8%. Mesmo com preços internacionais mais altos — passando de US$ 198,45 para US$ 238,88 por tonelada — o faturamento do mês ficou em US$ 1,24 bilhão, 17% abaixo do ano anterior.

O problema não é isolado de setembro. Entre julho e setembro, o Brasil embarcou apenas 11,81 milhões de toneladas contra 16,85 milhões no mesmo trimestre de 2025. Essa diferença de 5,04 milhões de toneladas — quase 30% a menos — reverteu a vantagem que o país ainda carregava no acumulado do ano. Até julho, as exportações brasileiras ainda superavam as do ano anterior. Mas após as perdas em agosto e setembro, o volume acumulado de janeiro a setembro chegou a 19,70 milhões de toneladas, contra 23,31 milhões em 2025. O déficit acumulado é de 3,61 milhões de toneladas.

A Argentina explica boa parte dessa desaceleração. Segundo Luiz Fernando Gutierrez, coordenador de inteligência de mercado na Hedgepoint, o país vizinho ampliou sua competitividade e agora disputa os mesmos destinos que o Brasil atende. Eduardo Vanin, analista da Marex e Agrinvest, estima que a Argentina produzirá entre 68 e 72 milhões de toneladas de milho neste ciclo, com um programa de exportações próximo de 43 milhões de toneladas entre março e fevereiro. Grande parte desse volume argentino já está registrada para exportação, aumentando a presença do país nos mercados internacionais justamente quando o Brasil tenta escoar sua segunda safra. Vanin havia previsto que os embarques brasileiros de julho a outubro ficariam cerca de 6 milhões de toneladas abaixo de 2025; com setembro fechado, aproximadamente 5 milhões dessa diferença já se materializaram.

Outros fatores também pesam. A redução da demanda iraniana pelo milho brasileiro, em meio a problemas logísticos e ao conflito no Oriente Médio, removeu um comprador importante. Yeda Monteiro, analista de inteligência e estratégia da Biond Agro, aponta que Estados Unidos e Argentina apresentam maior competitividade, e os compradores internacionais encontram alternativas ao produto brasileiro. Os demais destinos estão mais pulverizados e podem escolher entre diferentes origens conforme os preços. A valorização recente do real também reduz a conversão dos preços internacionais para a moeda brasileira, diminuindo a capacidade competitiva do milho nacional.

As projeções de exportação para o ciclo comercial caíram significativamente. Anteriormente, analistas trabalhavam com exportações entre 42 e 43 milhões de toneladas. Agora, a meta se aproxima de 38 milhões de toneladas. Para atingir esse patamar, o Brasil precisaria embarcar 17 milhões de toneladas ou mais entre novembro e janeiro — um ritmo que exige aceleração considerável nos próximos meses.

O impacto não se restringe aos números globais. A menor participação do exportador na disputa pelo milho altera a formação de preços e a liquidez em regiões produtoras específicas. Em Goiás, a redução de embarques pelo corredor Rio Verde-Santos contribuiu para pressão sobre os preços, mesmo diante de perdas na produção estadual e crescimento do consumo doméstico. Em Mato Grosso, regiões atendidas simultaneamente pela indústria de etanol e pelos corredores de exportação podem apresentar maior disputa pelo cereal. A quantidade e localização dos compradores passam a ser determinantes para a formação de preços, não apenas o tamanho da demanda nacional.

A pressão competitiva deve persistir. Dados do Instituto Mato-grossense de Economia Agropecuária apontam produção argentina de milho de 66 milhões de toneladas em 2026/27, 3,13% acima das 64 milhões estimadas para a temporada atual — que já representa um recorde. Embora a projeção dependa da manutenção de condições favoráveis, o dado sinaliza que a concorrência com a Argentina poderá continuar elevada ao longo de 2027.

A Argentina ampliou sua competitividade e disputa alguns dos mesmos destinos atendidos pelo produto brasileiro
— Luiz Fernando Gutierrez, Hedgepoint
A menor participação do exportador no corredor entre Rio Verde e o porto de Santos reduziu a liquidez e contribuiu para a pressão sobre os preços
— Eduardo Vanin, Marex e Agrinvest
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