O Brasil desenvolveu tecnologia única de controle biológico adaptada à agricultura tropical em larga escala, impossível de copiar de outros países. Mercado brasileiro de bioinsumos cresce entre 30-35% anuais, enquanto global avança 15-20%, com 190 milhões de hectares sob manejo biológico.
Brasil emerge como líder mundial em bioinsumos com tecnologias inovadoras
Não estamos competindo com as químicas, estamos mudando como olhamos a lavoura
Por que o Brasil conseguiu desenvolver isso quando outros países não conseguiram?
Porque fomos forçados. Em 2013, uma praga apareceu e os venenos não funcionavam. Precisávamos de uma solução, então criamos uma.
Mas isso é uma história de necessidade, não de liderança. Outros países também têm pragas. Por que o Brasil foi diferente?
Porque nosso clima, nossa escala de plantio, nossas safras — tudo é diferente. Você não pode copiar a solução da Europa. Precisava ser feita aqui, do zero.
E agora o mundo inteiro quer copiar o Brasil?
Não copiar — entender. A FAO estuda nossa regulamentação. Países africanos querem fazer acordos. Porque ninguém mais consegue fazer isso em 190 milhões de hectares.
Mas quanto disso é realmente inovação e quanto é apenas ter o clima certo e a terra certa?
É os dois. Mas a inovação está em como você usa o que tem. Vespas liberadas por drones em 6 milhões de hectares — isso não é acaso.
E os químicos? Eles não estão bravos?
Não. Porque os biológicos estão crescendo onde os químicos não funcionam mais. As próprias empresas químicas estão entrando nesse mercado.
Então não é disrupção, é complementação?
Exatamente. Manejo Integrado de Pragas. Você usa tudo junto.
E agora vocês querem levar isso para animais?
Sim. Mas a legislação não acompanha. Ainda estamos esperando regulamentação para uso veterinário.
Então há um gargalo real que pode desacelerar tudo isso?
Há. Mas é um gargalo que pode ser resolvido. O Brasil já provou que consegue legislar rápido para agricultura.
El Pulso
- SPARCBio em Piracicaba é polo de pesquisa em controle biológico com parceria USP, FAPESP e Koppert
- Mercado brasileiro de bioinsumos cresce 30-35% ao ano; global cresce 15-20%
- Trichogramma galloi será liberado em 6 milhões de hectares este ano, aplicado por drones
- 2013 foi ponto de virada: Helicoverpa armigera apareceu e inseticidas não funcionavam
- Brasil maneja 190 milhões de hectares com controle biológico em campo aberto — nenhum outro país faz isso
O Brasil desenvolveu tecnologia única de controle biológico adaptada à agricultura tropical em larga escala, impossível de copiar de outros países. Mercado brasileiro de bioinsumos cresce entre 30-35% anuais, enquanto global avança 15-20%, com 190 milhões de hectares sob manejo biológico.
O SPARCBio em Piracicaba posiciona o Brasil como referência mundial em controle biológico de pragas, com mercado crescendo 30-35% ao ano e delegações internacionais estudando o modelo brasileiro.
Em Piracicaba, no interior de São Paulo, existe um lugar onde a ciência da natureza virou negócio de escala. O SPARCBio — Centro Avançado de Pesquisa sobre Controle Biológico — funciona como laboratório e fábrica ao mesmo tempo, desenvolvendo tecnologias vivas para enfrentar as pragas que devastam as lavouras brasileiras. Nascido de uma parceria entre a Universidade de São Paulo, a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo e a multinacional Koppert, o centro opera sob um princípio simples mas radical: em vez de envenenar as plantas para salvar as plantas, use a própria natureza como ferramenta.
O que torna o Brasil diferente do resto do mundo não é apenas ter essa tecnologia, mas ter desenvolvido uma ciência inteiramente própria para ela. O professor José Roberto Postali Parra, diretor do SPARCBio, explica que as condições de cultivo no Brasil — o clima tropical, a extensão de terras, o sistema de duas ou três safras por ano — exigem soluções que não podem ser simplesmente copiadas da Europa ou dos Estados Unidos. Quando você tenta aplicar métodos do hemisfério norte em um país que planta em campo aberto sob temperaturas acima de 40 graus Celsius, em 190 milhões de hectares, nada funciona do jeito que funcionava antes. O Brasil precisou inventar sua própria agricultura biológica.
O ponto de virada veio em 2013, quando uma praga devastadora chamada Helicoverpa armigera apareceu nas lavouras brasileiras e os inseticidas convencionais não conseguiam controlá-la. Os pesquisadores recorreram a um vírus específico e a um microparasitoide chamado Trichogramma pretiosum — basicamente, usaram predadores naturais da praga para eliminá-la. O resultado foi tão bem-sucedido que mudou permanentemente a forma como o país pensa sobre proteção de cultivos. Depois de 2013, o número de produtos de bioinsumos registrados no Brasil cresceu de forma extraordinária. Enquanto o mercado global de controle biológico avança entre 15% e 20% ao ano, o mercado brasileiro cresce entre 30% e 35%. Essa diferença não é pequena — é a diferença entre uma indústria em expansão e uma indústria em transformação.
O que começou como solução para uma crise agrícola virou referência internacional. Delegações estrangeiras visitam o SPARCBio regularmente para entender como o Brasil consegue fazer em larga escala o que outros países só conseguem fazer em estufas ou ambientes controlados. A Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura estuda a regulamentação brasileira. Países africanos, que enfrentam desafios climáticos semelhantes aos do Brasil, já buscam acordos para implementar uma legislação tão rápida e eficaz quanto a brasileira. Um dos exemplos mais impressionantes dessa tecnologia é o uso de vespas para parasitar ovos de pragas — liberadas até por drones. Este ano, o Trichogramma galloi será liberado em 6 milhões de hectares. Não existe outro programa no mundo que chegue perto dessa escala.
Mas há uma pergunta óbvia: se o controle biológico está crescendo tão rápido, não está destruindo o mercado de defensivos químicos? A resposta dos pesquisadores é não — e é mais sofisticada do que parece. O Dr. Ítalo Delalibera, pesquisador principal da área de microrganismos, explica que os biológicos não estão competindo com as químicas porque estão operando em um paradigma completamente diferente. Microrganismos como fungos e bactérias alteram o metabolismo da planta, tornando-a mais resistente a múltiplas pragas ao mesmo tempo. Não é uma guerra entre dois sistemas; é uma mudança na forma de olhar para a saúde da lavoura. Além disso, as próprias gigantes do setor químico já estão dentro desse mercado, complementando seus portfólios. O professor Parra reforça que a verdadeira estratégia é o Manejo Integrado de Pragas — usar biológicos, químicos e outros métodos juntos, sem prejuízos.
A próxima fronteira já está em vista. O SPARCBio começou a direcionar essas mesmas tecnologias para a agropecuária e o setor veterinário. Os mesmos princípios usados para controlar lagartas nas plantas estão sendo aplicados para controlar Salmonella em aves e parasitas em rebanhos bovinos. Para a avicultura, isso é crítico: o Brasil exporta muito frango e não pode mais usar antibióticos da forma como fazia no passado. Produtos à base de Bacillus podem ser aplicados diretamente na ração para evitar o aumento de Salmonella. Mas há um problema. A legislação veterinária ainda não foi adequada para essa realidade. Os bioinsumos foram historicamente associados às plantas, então a regulamentação ainda não cobre usos em animais. Pesquisadores aguardam uma nova legislação que coloque tudo sob o mesmo guarda-chuva — uso florestal, agrícola ou veterinário. Enquanto isso, exigências de eficácia de 95% para registrar novos produtos veterinários tornam o processo extremamente difícil.
O que o SPARCBio representa é uma verdadeira fábrica de natureza. Os pesquisadores desenvolvem dietas artificiais em câmaras climáticas, pesquisam automação e inteligência artificial para baratear a produção de vespas parasitoides, tudo para viabilizar soluções em larga escala contra pragas gigantescas como o percevejo-marrom na soja e o bicudo-do-algodoeiro. É um modelo que prova algo que a indústria agrícola tradicional raramente admite: o equilíbrio ambiental é também a tecnologia mais rentável e avançada do agronegócio.
Citas Notables
É impossível copiar de outros países. É necessário desenvolver uma tecnologia com nossas próprias características para atender a nossa agricultura.— Professor José Roberto Postali Parra, diretor do SPARCBio
Nós não estamos competindo com as empresas químicas. Os biológicos são um paradigma diferente: estamos aumentando a resiliência do sistema e deixando as plantas mais saudáveis.— Dr. Ítalo Delalibera, pesquisador principal de microrganismos