Brasil alcança marco histórico ao eliminar transmissão vertical do HIV e cumprir duas das três metas 95-95-95 da ONU, com mortes por Aids caindo abaixo de 10 mil este ano. Apesar dos avanços, país figura entre 21 nações com aumento de infecções, atribuído em parte à ampliação do diagnóstico; barreiras estruturais como racismo e homofobia ainda impedem acesso equitativo.
Brasil elimina transmissão vertical do HIV, mas enfrenta aumento de 20% em infecções
Inovação sem acesso não é inovação, é injustiça
Como o Brasil conseguiu eliminar a transmissão vertical do HIV se ainda enfrenta aumento geral de infecções?
São duas coisas diferentes. A transmissão vertical é um problema específico que o país resolveu através de protocolos bem estabelecidos durante a gravidez e parto. Mas o aumento geral de infecções vem de outras rotas de transmissão e, em parte, de termos testado muito mais gente.
Então o aumento de 20% não significa que mais pessoas estão se infectando?
Não necessariamente. Significa que mais pessoas descobriram que já estavam infectadas. Quando você quintuplica a rede de testagem, encontra mais casos. O indicador mais importante é que o país não encontrou o volume de novos casos que esperava, sugerindo que a população de maior risco já havia sido diagnosticada.
Mas se o Brasil tem acesso universal a antirretrovirais, por que 30% das pessoas ainda recebem diagnóstico tardio?
Porque acesso universal não é a mesma coisa que acesso equitativo. Existe racismo, homofobia, transfobia. Existe pobreza. Existe insegurança alimentar. Uma pessoa pode ter direito ao medicamento e ainda não conseguir chegar até ele.
O que o Programa Brasil Saudável muda nessa equação?
Reconhece que você não resolve HIV apenas com medicamentos. Junta 14 ministérios para trabalhar fome, direitos humanos, infraestrutura. É dizer que saúde é determinada por muito mais do que a medicina.
A queda de 18% no financiamento internacional preocupa o Brasil especificamente?
Preocupa globalmente. Mas o Brasil está entre os poucos países que ampliou seu orçamento doméstico em até 10%. Muitos países não conseguem fazer isso. É um diferencial, mas também mostra que o país não pode depender apenas de ajuda internacional.
O Pulso
- Brasil é primeira nação com mais de 100 milhões de habitantes a eliminar transmissão vertical do HIV
- Aumento de 20% em infecções entre 2010 e 2025, atribuído em parte à ampliação do diagnóstico
- Mortes por Aids devem ficar abaixo de 10 mil em 2026, queda expressiva em relação aos 11 mil anuais de anos anteriores
- País cumpriu duas das três metas 95-95-95 da ONU; falta avançar na cobertura de tratamento antirretroviral
- Financiamento internacional para HIV caiu 18% globalmente; Brasil ampliou orçamento doméstico em até 10%
Brasil alcança marco histórico ao eliminar transmissão vertical do HIV e cumprir duas das três metas 95-95-95 da ONU, com mortes por Aids caindo abaixo de 10 mil este ano. Apesar dos avanços, país figura entre 21 nações com aumento de infecções, atribuído em parte à ampliação do diagnóstico; barreiras estruturais como racismo e homofobia ainda impedem acesso equitativo.
Brasil é primeira nação com mais de 100 milhões de habitantes a eliminar transmissão vertical do HIV, mas registra alta superior a 20% em novas infecções entre 2010 e 2025, segundo relatório da Unaids divulgado no Rio de Janeiro.
O Brasil acaba de alcançar um marco que poucos países conseguiram: eliminou a transmissão vertical do HIV, aquela que passa de mãe para filho durante a gravidez, parto ou amamentação. A certificação chegou em dezembro de 2025, concedida pela Organização Pan-Americana da Saúde. O país se tornou a primeira nação com mais de 100 milhões de habitantes a atingir esse feito, colocando-se ao lado de nações africanas como Quênia, Moçambique e África do Sul que já haviam superado essa barreira.
Mas há um incômodo nessa história de sucesso. Enquanto o Brasil comemora essa vitória, também aparece numa lista que ninguém quer integrar: está entre 21 países que registraram aumento de infecções por HIV. Entre 2010 e 2025, o país viu os novos casos crescerem mais de 20%. A conferência internacional de Aids que acontecia no Rio de Janeiro na segunda-feira 27 de julho trouxe à tona esse relatório da Unaids, o programa conjunto das Nações Unidas sobre HIV e Aids, revelando uma realidade mais complexa do que os números de sucesso sugerem.
Draurio Barreira, diretor do departamento de HIV/Aids, Tuberculose, Hepatites Virais e Infecções Sexualmente Transmissíveis do Ministério da Saúde, oferece uma explicação para esse aumento aparente. A rede de testagem foi quintuplicada nos últimos anos. Autotestes foram distribuídos em massa para organizações não governamentais, permitindo que mais pessoas descobrissem seu status. Segundo Barreira, o que parece ser um aumento de infecções é, em grande medida, um aumento de diagnósticos. O país testou muito mais gente e encontrou menos casos novos do que esperava—um sinal de que a população mais exposta ao risco já havia recebido diagnóstico na maioria dos casos. As mortes por Aids, por sua vez, caíram drasticamente. Este ano, o Brasil deve registrar menos de 10 mil óbitos, uma queda expressiva comparada aos mais de 11 mil anuais de alguns anos atrás.
Mas Beatriz Grinsztejn, infectologista e pesquisadora brasileira que preside a International Aids Society, aponta para algo que os números não capturam completamente. O Brasil tem acesso universal a antirretrovirais. Tem os insumos. Tem a infraestrutura. E ainda assim, 30% das pessoas recebem o diagnóstico tardiamente, com contagem de CD4 abaixo de 200. As barreiras, ela explica, são estruturais: racismo, homofobia, transfobia, pobreza, insegurança alimentar. Estudos mostram que o programa Bolsa Família está associado a melhores desfechos em mortalidade e hospitalização por HIV, especialmente entre mulheres. O acesso existe, mas não chega igualmente a todos.
O Brasil já cumpriu duas das três metas 95-95-95 da ONU, que medem o percentual de pessoas com HIV que conhecem seu status, as que estão em tratamento e as que atingiram supressão viral. O país atingiu os indicadores de testagem e supressão viral. Falta avançar na cobertura de tratamento antirretroviral. A profilaxia pré-exposição, a PrEP, expandiu significativamente: o número de usuários passou de 165 mil para 233 mil entre 2024 e 2025, um crescimento de 41%. Em junho de 2026, havia cerca de 230 mil usuários, o equivalente a 5,2 pessoas em PrEP para cada novo diagnóstico de HIV, superando a meta do Ministério da Saúde de três pessoas em PrEP por nova infecção.
O contexto global, porém, é preocupante. A ajuda internacional destinada ao HIV caiu 18%, de 8,8 bilhões de dólares em 2024 para 7,3 bilhões em 2025. Globalmente, cerca de 22% das 41 milhões de pessoas vivendo com Aids ainda não estavam em tratamento em 2025. Quase metade das crianças vivendo com HIV não teve acesso à terapia antirretroviral. Cerca de 570 mil pessoas morreram por doenças relacionadas à Aids.
Winnie Byanyima, diretora-executiva do Unaids, resumiu o desafio em uma frase que ecoa além dos números: inovação sem acesso é injustiça. O verdadeiro teste do sucesso não é se os medicamentos existem, mas se as pessoas que precisam deles conseguem obtê-los a um preço acessível. O Brasil lançou em 2024 o Programa Brasil Saudável, reunindo 14 ministérios federais com o objetivo de eliminar até 2030 não apenas HIV e sua transmissão vertical, mas também tuberculose, lepra, malária, hepatites virais e tripanossomíase. O programa combina intervenções de saúde com ações para erradicar a fome, expandir direitos humanos e melhorar infraestrutura. É um reconhecimento de que os resultados em saúde são moldados por determinantes sociais muito mais amplos do que a medicina sozinha consegue alcançar.
Citações Notáveis
Nos últimos anos, a gente teve um pequeno aumento, estatisticamente desprezível, entre a detecção de pessoas vivendo com HIV, mas teve uma diminuição de pessoas vivendo com Aids— Draurio Barreira, diretor do departamento de HIV/Aids do Ministério da Saúde
A gente tem acesso universal, a gente tem os insumos, mas a gente tem barreiras estruturais que impedem o avanço no diagnóstico, no engajamento ao cuidado e na manutenção do uso de tratamento e de PrEP— Beatriz Grinsztejn, infectologista e presidente da International Aids Society