Brasil e China abrem mercado para miúdos suínos sem cota; acordo pode gerar US$ 100 mi

Produtos com menor valor no mercado doméstico ganham acesso a um dos maiores mercados consumidores do mundo
O acordo permite que frigoríficos brasileiros exportem vísceras suínas para a China sem cota de importação.
Mark

Por que esse acordo é tão importante se o Brasil já exportava alguns miúdos suínos para a China?

Mimi

Porque até agora só era permitido exportar partes externas, como patas e orelhas, e com restrições. Agora abre para fígado, rins, coração, estômago — produtos que têm muito mais valor no mercado chinês e que os frigoríficos brasileiros tinham dificuldade em vender domesticamente.

Luke

Mas quanto disso já está pronto para sair? Quinze estabelecimentos habilitados é bastante ou pouco?

Mimi

É um número pequeno, mas esses quinze já têm a infraestrutura e as certificações. Eles só precisam solicitar a extensão das habilitações que já possuem. O gargalo agora é mais administrativo do que estrutural.

Mark

E esses US$ 100 milhões estimados — de onde vem esse número?

Mimi

É uma estimativa do setor, da ABPA. Baseia-se na demanda chinesa conhecida e no volume que poderia ser movimentado — mais de 100 mil toneladas.

Luke

Estimativa do setor é sempre otimista. Há alguma confirmação independente disso?

Mimi

Não há. É o que a indústria projeta. O que é confirmado é que a China importa US$ 2,5 bilhões anuais em miúdos suínos de todos os fornecedores, e que o Brasil já enviou 2,7 milhões de toneladas entre 2013 e 2024.

Mark

Quando as exportações começam de verdade?

Mimi

O protocolo foi assinado agora. As empresas precisam solicitar a extensão das habilitações, e as autoridades chinesas precisam concluir os trâmites internos. Não há data específica anunciada.

Luke

Então ainda há etapas administrativas em aberto?

Mimi

Sim. A assinatura é o passo formal, mas a operacionalização depende de procedimentos tanto do lado brasileiro quanto do chinês.

  • Frigoríficos brasileiros tinham permissão apenas para exportar partes externas como patas e orelhas — os miúdos internos ficavam de fora, limitando o aproveitamento comercial da carcaça suína.
  • A China, um dos maiores consumidores mundiais de vísceras suínas, importa US$ 2,5 bilhões anuais nessa categoria, criando uma pressão de demanda que o Brasil não conseguia atender plenamente.
  • Após cerca de um ano de negociações e uma missão oficial a Pequim em maio, os entendimentos técnicos foram confirmados — mas a formalização só veio com a assinatura do protocolo sanitário em 26 de setembro.
  • O acordo não está sujeito à salvaguarda aplicada à carne bovina brasileira, garantindo acesso irrestrito e sem cotas ao mercado chinês para os miúdos suínos.
  • Cerca de 15 estabelecimentos em Santa Catarina e Rio Grande do Sul já podem solicitar extensão de habilitações, enquanto as autoridades chinesas concluem os trâmites internos para o início das exportações.

No encontro entre dois mundos com hábitos alimentares distintos, Brasil e China formalizaram um protocolo sanitário que transforma o que sobra na mesa de um em oportunidade valiosa para o outro. Assinado em Brasília no dia 26 de setembro, o acordo autoriza a exportação irrestrita de miúdos suínos brasileiros — fígado, coração, rins, estômago e ossos — para um mercado que consome cerca de US$ 2,5 bilhões anuais nessa categoria. O que o mercado doméstico brasileiro pouco valoriza encontra, na China, uma demanda que pode render US$ 100 milhões e movimentar mais de 100 mil toneladas, lembrando que o comércio, em sua forma mais virtuosa, é a arte de reconhecer valor onde outros não o veem.

No sábado 26 de setembro, Brasil e China assinaram em Brasília um protocolo sanitário que abre o mercado chinês para as vísceras suínas brasileiras sem qualquer cota de importação. O acordo, firmado pelo ministro da Agricultura André de Paula e pelo embaixador chinês Zhu Qingqiao, autoriza a exportação de fígado, coração, rins, estômago e ossos de porco — produtos que até então só podiam ser enviados em condições restritivas, limitadas a partes externas como patas e orelhas.

A lógica do acordo revela uma complementaridade entre os dois países: o que tem pouco apelo no mercado doméstico brasileiro é altamente valorizado na China, que importa cerca de US$ 2,5 bilhões anuais em miúdos suínos. Para a indústria brasileira, as estimativas são expressivas — aproximadamente US$ 100 milhões em receita adicional e mais de 100 mil toneladas em envios. Ricardo Santin, presidente da Associação Brasileira de Proteína Animal, destacou que o acordo permite melhorar o aproveitamento da carcaça e agregar receita à produção, em um contexto em que o Brasil já enviou 2,7 milhões de toneladas de suínos à China entre 2013 e 2024.

O caminho até a assinatura levou cerca de um ano. Em maio, durante missão oficial brasileira a Pequim, os entendimentos técnicos sobre requisitos sanitários foram confirmados em reunião realizada no dia 19. O protocolo revisado passou a incluir os miúdos, mas a formalização só ocorreu agora. Um ponto relevante: os miúdos não estão sujeitos à salvaguarda que a China aplica à carne bovina brasileira, garantindo acesso aberto e sem restrições de cota.

O avanço foi favorecido por um reconhecimento mais amplo: em junho, a China declarou todo o território brasileiro livre de febre aftosa, abrindo espaço para ampliar as discussões sobre produtos de origem animal. Agora, cerca de 15 estabelecimentos — sete em Santa Catarina e oito no Rio Grande do Sul — já habilitados para exportar à China podem solicitar ao Mapa a extensão de suas licenças para incluir os miúdos internos, enquanto as autoridades chinesas concluem os trâmites para que os embarques possam começar.

No sábado 26 de setembro, Brasil e China formalizaram um acordo que abre as portas do mercado chinês para um produto que os frigoríficos brasileiros até então só conseguiam vender em quantidade limitada: as vísceras suínas. O protocolo sanitário foi assinado pelo ministro da Agricultura e Pecuária, André de Paula, e pelo embaixador chinês Zhu Qingqiao, na sede do Mapa em Brasília, e autoriza a exportação de fígado, coração, rins, estômago e ossos de porco sem qualquer cota de importação.

A relevância do acordo reside em uma realidade simples do comércio internacional: produtos que têm pouco valor no mercado doméstico brasileiro encontram demanda extraordinária na China. O país asiático importa aproximadamente US$ 2,5 bilhões anuais em miúdos suínos e figura entre os maiores consumidores mundiais dessa categoria de alimentos. Até agora, o Brasil tinha permissão apenas para exportar partes externas, como patas e orelhas, sob condições restritivas. A abertura dos miúdos internos representa uma expansão significativa do que pode ser comercializado.

Para a indústria brasileira, os números são substanciais. As estimativas do setor apontam que o acordo pode gerar aproximadamente US$ 100 milhões em receita adicional e movimentar mais de 100 mil toneladas de envios. Ricardo Santin, presidente da Associação Brasileira de Proteína Animal, destacou que há uma complementaridade importante entre os hábitos de consumo dos dois países, permitindo melhorar o aproveitamento da carcaça animal e agregar receita à produção. Entre 2013 e 2024, o Brasil já havia enviado 2,7 milhões de toneladas de suínos para a China, consolidando a nação asiática como um dos principais destinos das exportações brasileiras do setor.

O caminho até essa assinatura foi longo. A negociação começou aproximadamente um ano antes, e avançou durante uma missão oficial brasileira à China em maio deste ano. Em reunião realizada em Pequim no dia 19 de maio, o Mapa e a Administração-Geral das Alfândegas da China confirmaram os entendimentos técnicos sobre os requisitos sanitários e quarentenários. Naquele momento, o protocolo revisado passou a incluir os miúdos suínos, mas ainda faltava a formalização do acordo. A assinatura de sábado concluiu essa etapa.

Um detalhe importante: os miúdos não estão incluídos na salvaguarda que a China aplicou à carne bovina brasileira, o que significa que não ficam sujeitos à cota criada para a proteína bovina. Isso reforça o caráter aberto do acordo. Cerca de 15 estabelecimentos brasileiros, sendo sete em Santa Catarina e oito no Rio Grande do Sul, já estão habilitados a enviar produtos para a China e podem agora solicitar ao Mapa a extensão de suas habilitações para incluir os miúdos internos nas exportações.

O avanço na negociação ocorreu em um contexto mais amplo de abertura comercial. Em junho deste ano, a China reconheceu todo o território brasileiro como livre de febre aftosa, o que abriu espaço para a ampliação das discussões sobre produtos de origem animal. Esse reconhecimento foi fundamental para que as conversas sobre miúdos e carne com osso pudessem avançar. Agora, com o protocolo assinado, o Mapa orientará as empresas brasileiras sobre os procedimentos necessários para a habilitação, enquanto as autoridades chinesas concluem os trâmites internos para que as exportações possam começar.

Há uma complementaridade muito importante entre os hábitos de consumo brasileiro e chinês, que permite melhorar o aproveitamento da carcaça e agregar receita à produção
— Ricardo Santin, presidente da Associação Brasileira de Proteína Animal
Contact Us FAQ