Num momento em que a pandemia já deixou marcas profundas em todo o mundo, o Brasil se aproxima do fim de 2020 com uma fotografia desconfortável: segundo projeções do FMI analisadas pelo economista Marcel Balassiano, do Ibre/FGV, o país deve encerrar o ano com desemprego e dívida pública acima da média dos dez países mais atingidos pela covid-19. A história não começou com o vírus, pois as contas nacionais já vinham fragilizadas desde 2014, e a crise apenas expôs essa vulnerabilidade. Resta agora a pergunta que atravessa famílias e governos: como sustentar o consumo e o equilíbrio fiscal quando
Brasil deve fechar 2020 com desemprego e dívida acima da média dos países mais afetados pela covid
A renda caiu pela metade e os preços no supermercado subiram
Qual é a principal conclusão do levantamento da FGV?
Que o Brasil deve fechar 2020 com desemprego de 13,4% e dívida de 101,4% do PIB, ambos acima da média dos dez países com mais mortes por covid-19: 9,6% e 85,8%.
Vale lembrar que são projeções do FMI de outubro, não dados fechados do ano.
E a queda do PIB, de 5,8%, é boa notícia?
É menor do que se previa meses atrás. A matéria atribui isso a crédito às empresas e ao auxílio de R$ 600, que beneficiou quase 70 milhões de famílias.
Atribui, mas como explicação possível. O texto não mede quanto cada medida pesou.
Onde entra Luana Santana?
Ela mostra o efeito concreto da redução do auxílio para R$ 300: renda pela metade e preços mais altos no mercado.
É um caso individual. Ilustra, mas não prova o comportamento geral do consumo, que o próprio Balassiano diz ser a incógnita.
E a dívida?
Balassiano diz que o Brasil já tinha problema fiscal desde 2014, então partiu de um ponto pior que os demais.
E a proposta de Mendonça de Barros, de imposto temporário, é opinião de um economista, não decisão do governo.
Der Puls
- O desemprego projetado de 13,4% para 2020 coloca o Brasil bem acima da média de 9,6% dos dez países mais afetados, e só a Espanha deve ficar pior.
- A dívida pública pode chegar a 101,4% do PIB, contra média de 85,8%, em um cenário em que o país já entrou na crise com contas fiscais frágeis.
- O auxílio emergencial caiu de R$ 600 para R$ 300, e trabalhadores como a manicure Luana Santana sentem a perda de renda enquanto os preços sobem.
- Economistas discutem saídas para 2021, como reduzir despesas ou aumentar impostos sobre quem lucrou com a recuperação, e o consumo segue como a grande incógnita.
Num momento em que a pandemia já deixou marcas profundas em todo o mundo, o Brasil se aproxima do fim de 2020 com uma fotografia desconfortável: segundo projeções do FMI analisadas pelo economista Marcel Balassiano, do Ibre/FGV, o país deve encerrar o ano com desemprego e dívida pública acima da média dos dez países mais atingidos pela covid-19. A história não começou com o vírus, pois as contas nacionais já vinham fragilizadas desde 2014, e a crise apenas expôs essa vulnerabilidade. Resta agora a pergunta que atravessa famílias e governos: como sustentar o consumo e o equilíbrio fiscal quando o auxílio emergencial, que amparou milhões, começa a se retrair?
Em setembro, o auxílio emergencial caiu de R$ 600 para R$ 300, e a manicure Luana Santana, de 27 anos e mãe de dois filhos, sentiu a mudança de imediato. Quando recebia o benefício, ela estava aliviada, mesmo preocupada com os clientes perdidos na pandemia. Agora, a preocupação voltou: os preços no supermercado subiram e sua renda caiu pela metade.
O caso dela ajuda a entender um levantamento do economista Marcel Balassiano, do Ibre/FGV. Com base nas projeções do FMI, ele concluiu que o Brasil deve terminar 2020 com desemprego e endividamento público acima da média dos dez países com mais mortes por covid-19. O Brasil aparecia em quarto lugar em mortes por milhão de habitantes.
No desemprego, a projeção é de 13,4%, contra média de 9,6%, e só a Espanha deve ficar pior. Na dívida, a relação com o PIB pode chegar a 101,4%, ante média de 85,8%. Balassiano lembra que o país já vinha com dificuldades fiscais desde 2014, e a crise apenas aprofundou o problema.
Para 2021, o ex-presidente do BNDES Luiz Carlos Mendonça de Barros defende que o governo sinalize saídas, com corte de despesas ou aumento temporário de impostos sobre quem ganhou com a recuperação. Enquanto isso, o auxílio menor, o desemprego alto e as contas pressionadas formam um cenário que o consumo e a trajetória da dívida vão revelar nos próximos meses.
Em setembro, o auxílio emergencial caiu de R$ 600 para R$ 300, e a manicure Luana Santana, de 27 anos, mãe de dois filhos, sentiu a mudança de imediato. Quando passou a receber o benefício, contou ao Estadão que estava preocupada por ter perdido clientes na pandemia, mas aliviada com o dinheiro. Agora, diz, a preocupação voltou: os preços no supermercado subiram e a renda caiu pela metade.
O caso dela ajuda a entender os números de um levantamento do economista Marcel Balassiano, pesquisador do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas (Ibre/FGV). Com base nas projeções de outubro do Fundo Monetário Internacional (FMI), ele concluiu que o Brasil deve terminar 2020 com desemprego e endividamento público acima da média dos dez países com mais mortes por covid-19.
O critério de comparação foi o número de mortos por milhão de habitantes no fim de outubro. O Brasil aparecia em quarto lugar, com 750 mortes por milhão, atrás de Peru, Bélgica e Espanha. Países de população muito pequena, como Andorra e San Marino, ficaram de fora para evitar distorções. O grupo inclui nações cuja gestão da pandemia foi considerada errática, como Estados Unidos e Reino Unido.
A projeção de queda do PIB brasileiro é de 5,8%, menor do que a estimada meses atrás. A explicação provável está nas medidas do governo e do Congresso, como o crédito às empresas e o auxílio de R$ 600, que alcançou quase 70 milhões de famílias. Já o desemprego deve fechar o ano em 13,4%, contra média de 9,6% entre os dez países. Na comparação direta, só a Espanha, com 16,8%, deve ficar pior. A Pnad Contínua mostrou desocupação de 14,4% no trimestre até agosto, um recorde.
Para Balassiano, o auxílio foi a medida mais importante do período. Ele lembra que em fevereiro a dúvida era como amparar os vulneráveis; agora, diz, resta saber como o consumo reagirá ao fim do benefício e ao aumento do desemprego. A consultoria MacroSector prevê que a geração de empregos só ficará positiva em meados de 2021 e que a massa real de rendimentos cairá 1% este ano em relação ao anterior. Segundo a consultoria, a pandemia continuará prejudicando todo o mercado de trabalho e a economia em 2021.
Na dívida, a distância é maior. Pelos critérios do FMI, a relação dívida/PIB do Brasil pode chegar a 101,4%, ante média de 85,8% dos dez países. Os EUA lideram a lista, com 131%. Balassiano observa que o país já vinha em situação fiscal difícil: voltou a ter déficit primário em 2014, e a dívida bruta, pelos critérios do Banco Central, passou de pouco mais de 50% do PIB em 2013 para mais de 75% em 2018. Com a crise, segundo ele, a dívida explodiu em setembro. Todos os países precisaram gastar para evitar falências e socorrer os mais pobres, mas o Brasil termina pior por ter entrado na pandemia já fragilizado.
Luiz Carlos Mendonça de Barros, ex-presidente do BNDES e ex-ministro das Comunicações, concorda que a alta da dívida, embora preocupante, buscou evitar um baque maior. Para 2021, defende que o governo sinalize saídas. Em sua avaliação, a arrecadação já se recupera, mas não basta: será preciso reduzir despesas ou aumentar impostos. Sugere uma alta temporária, de até cinco anos, no Imposto de Renda da pessoa física e a tributação de dividendos de empresas, atingindo quem ganhou com a recuperação, como empresas e bancos. Com isso, calcula, seria possível voltar ao superávit em quatro ou cinco anos.
O que vem agora é a combinação de auxílio menor, desemprego alto e contas públicas pressionadas, e o consumo e a trajetória da dívida são os pontos a acompanhar em 2021.
Bemerkenswerte Zitate
Agora, resta saber como o consumo vai reagir ao fim do benefício e ao aumento do desemprego.— Marcel Balassiano, pesquisador do Ibre/FGV
Tem de tributar quem ganhou com a recuperação, as empresas, os bancos. Eles precisam pagar um pedaço da conta.— Luiz Carlos Mendonça de Barros, ex-presidente do BNDES