Política monetária vem gerando efeito muito negativo
Criação de apenas 73 mil vagas formais em maio representa o pior desempenho para o mês desde 2020, com queda significativa de 52,3% em relação ao ano anterior. Ministro do Trabalho atribui queda aos efeitos de juros altos e às tarifas impostas pelos EUA, impactando negativamente o mercado de trabalho brasileiro.
- 73 mil empregos formais criados em maio de 2026
- Queda de 52,3% comparado a maio de 2025 (153,1 mil vagas)
- Pior resultado para maio desde 2020
- 767,32 mil empregos criados de janeiro a maio (queda de 28% vs. 2025)
- 47,87 milhões de empregos formais totais no país ao fim de maio
Brasil criou apenas 73 mil empregos formais em maio de 2026, queda de 52% comparado a maio de 2025, marcando o pior resultado para o mês em seis anos.
O Brasil registrou a criação de apenas 73 mil empregos formais em maio, o pior resultado para esse mês em seis anos. Os números, divulgados pelo Ministério do Trabalho na terça-feira, revelam uma queda abrupta de 52,3% em relação a maio do ano anterior, quando o país havia aberto cerca de 153 mil vagas com carteira assinada. Para chegar a esse saldo, o governo contabilizou 2,2 milhões de contratações contra 2,13 milhões de demissões ao longo do mês.
A comparação com o histórico recente mostra a gravidade do cenário. Em maio de 2025, foram criadas 153,1 mil vagas. Em 2024, 139,8 mil. Em 2023, 156,2 mil. Recuando mais: 2022 registrou 277,8 mil empregos abertos, e 2021, 266,7 mil. O único mês de maio pior que o atual foi em 2020, quando o país fechou 398,2 mil vagas formais, no auge da crise da pandemia. Analistas ressaltam que comparações com períodos anteriores a 2020 não são adequadas porque o governo alterou a metodologia de coleta.
O ministro do Trabalho, Luiz Marinho, atribuiu a queda a dois fatores principais: a política de juros altos mantida pelo Banco Central e as tarifas impostas pelo presidente norte-americano Donald Trump. "A política monetária vem gerando efeito muito negativo no mercado de trabalho, que era para estar mais positivo. Mas tem o efeito guerra, que gerou transtorno danado no mercado global", afirmou o ministro. A combinação dessas pressões externas e internas teria criado um ambiente hostil para a geração de postos de trabalho.
Os números acumulados do ano reforçam a tendência preocupante. De janeiro a maio de 2026, foram criados 767,32 mil empregos formais, uma queda de 28% em relação ao mesmo período de 2025, quando 1,07 milhão de vagas havia sido aberta. Esse é o pior desempenho para os primeiros cinco meses de um ano desde 2020, quando o país havia fechado 1,34 milhão de vagas. Apesar da fraqueza mensal, o estoque total de empregos formais no país chegou a 47,87 milhões ao fim de maio, ligeiramente acima dos 47,8 milhões registrados em abril e dos 46,9 milhões de maio de 2025.
Os dados setoriais mostram que a criação de vagas ocorreu em todos os cinco setores da economia — serviço, comércio, indústria, construção e agropecuária — embora em ritmo reduzido. Geograficamente, apenas a região Norte não registrou abertura de vagas em maio, enquanto Sudeste, Nordeste, Sul e Centro-Oeste apresentaram criação de empregos. O salário médio de admissão foi de R$ 2.384,10 em maio, representando uma queda real quando descontada a inflação em relação a abril (R$ 2.402,07), embora tenha subido nominalmente comparado a maio de 2025 (R$ 2.348,12).
É importante notar que os dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) contabilizam apenas trabalhadores com carteira assinada, excluindo o mercado informal. Por isso, não são diretamente comparáveis com a taxa de desemprego divulgada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), que inclui toda a população economicamente ativa. Segundo o IBGE, a taxa de desemprego no trimestre encerrado em maio foi de 5,6%, a menor da série histórica para esse período. O contraste entre a fraqueza do mercado formal e a queda do desemprego geral sugere que trabalhadores podem estar migrando para atividades informais ou que a população economicamente ativa está se contraindo.
Notable Quotes
A política monetária vem gerando efeito muito negativo no mercado de trabalho, que era para estar mais positivo. Mas tem o efeito guerra, que gerou transtorno danado no mercado global— Luiz Marinho, ministro do Trabalho
The Hearth Conversation Another angle on the story
Por que maio foi tão ruim especificamente? É algo sazonal ou realmente piorou?
Maio costuma ser um mês de criação de empregos, mas não é o melhor. O problema é que caiu 52% em relação a maio do ano passado. Não é uma questão de sazonalidade — é uma queda real e acentuada.
O ministro culpou os juros altos e as tarifas de Trump. Mas quanto disso é realmente culpa dele e quanto é da economia global?
É difícil separar. Os juros altos vêm de decisões do Banco Central, que tem autonomia. As tarifas são externas. Mas o ministro está certo que ambas pressionam o mercado de trabalho — empresas contratam menos quando o custo de capital sobe e quando há incerteza comercial.
Se o desemprego está em 5,6%, o menor da série, como é que o mercado formal está tão fraco?
Porque o desemprego mede a população economicamente ativa que está procurando trabalho. Se menos pessoas estão procurando — porque desistiram ou foram para o informal — a taxa cai. Mas o mercado formal, que é mais estável, está realmente encolhendo.
Qual é o risco daqui para frente?
Se a criação de empregos formais continuar nesse ritmo, você tem menos gente com carteira assinada, menos contribuições ao INSS, menos consumo. É um ciclo que se alimenta. E se os juros não caírem e as tarifas não recuarem, não há razão para acreditar que junho ou julho serão melhores.
Os setores todos criaram vagas, então não é colapso total?
Não é colapso, mas é fraqueza generalizada. Quando todos os setores criam vagas, mas o total é apenas 73 mil, significa que ninguém está contratando com força. É uma economia que está funcionando, mas em câmera lenta.