Entre as nações que carregam o peso desproporcional das doenças que florescem na pobreza, o Brasil ocupa um lugar singular: está entre os 16 países responsáveis por 80% dos casos globais de doenças tropicais negligenciadas, segundo a OMS. Diante dessa herança de abandono e vulnerabilidade, o governo brasileiro lançou o Programa Brasil Saudável, com metas concretas de eliminação até 2030. Os resultados de 2025 apontam avanços reais — a menor taxa de malária em quase meio século, hanseníase recuando em crianças, tuberculose diagnosticada com mais rapidez — mas a sífilis congênita permanece como
Brasil concentra 80% dos casos globais de doenças tropicais negligenciadas
Nem perfeito, nem derrotado — um país em movimento
Por que essas doenças são chamadas de negligenciadas? Não é apenas um nome?
É mais que um nome — é uma confissão. Significa que o mundo as ignorou porque atingem principalmente os pobres, os indígenas, quem não tem voz nos corredores de poder. A malária mata, a hanseníase desfigura, mas durante décadas ninguém investiu em cura porque não havia lucro.
E por que o Brasil concentra 80% dos casos?
Tamanho, clima, pobreza. Temos floresta tropical onde o mosquito prospera, temos comunidades remotas sem acesso a saneamento, temos desigualdade. É a geografia encontrando a injustiça.
Esses 209 municípios — como foram escolhidos?
Pela carga da doença. Onde mais gente adoecia, onde mais gente morria. Não é caridade, é estratégia. Você concentra recursos onde o problema é mais grave.
A queda de 50% na Yanomami é significativa?
É enorme. Aquele povo quase foi dizimado pela malária nos últimos anos. Uma queda assim significa crianças que vão viver, mulheres que vão ter filhos saudáveis.
Mas a sífilis congênita ainda cresce. Por quê?
Porque é mais fácil tratar uma doença transmitida por mosquito do que mudar comportamento humano. A sífilis exige diagnóstico na gravidez, tratamento com antibiótico simples — mas exige que a mulher chegue ao pré-natal. E nem todas chegam.
The Pulse
- O Brasil carrega 80% dos casos globais de doenças tropicais negligenciadas ao lado de apenas outros 15 países, uma concentração que expõe a profundidade da desigualdade sanitária no território.
- Na Terra Indígena Yanomami, onde a malária havia devastado comunidades inteiras, os casos caíram mais de 50% em 2025 — um sinal de que intervenções direcionadas podem romper ciclos históricos de sofrimento.
- O Programa Brasil Saudável elegeu 209 municípios prioritários e fixou a meta de eliminar 14 doenças tropicais até 2030, transformando uma crise epidemiológica em um cronograma de responsabilização.
- O uso do teste rápido molecular para tuberculose saltou de 4,3% para 63% em apenas um ano, enquanto a cobertura de tratamento da oncocercose subiu de 68% para 85,4%, mostrando aceleração nos fronts mais críticos.
- A transmissão vertical da sífilis permanece como a principal falha aberta do programa, marcando recém-nascidos mesmo enquanto outras doenças recuam — um desafio que expõe as lacunas persistentes do sistema.
Entre as nações que carregam o peso desproporcional das doenças que florescem na pobreza, o Brasil ocupa um lugar singular: está entre os 16 países responsáveis por 80% dos casos globais de doenças tropicais negligenciadas, segundo a OMS. Diante dessa herança de abandono e vulnerabilidade, o governo brasileiro lançou o Programa Brasil Saudável, com metas concretas de eliminação até 2030. Os resultados de 2025 apontam avanços reais — a menor taxa de malária em quase meio século, hanseníase recuando em crianças, tuberculose diagnosticada com mais rapidez — mas a sífilis congênita permanece como lembrete de que o progresso raramente é completo.
O Brasil está entre os 16 países que concentram 80% de todos os casos globais de doenças tropicais negligenciadas, segundo a Organização Mundial da Saúde. Essa realidade foi apresentada pelo ministro da Saúde, Alexandre Padilha, durante o 61º Congresso da Sociedade Brasileira de Medicina Tropical em Brasília, com um catálogo de enfermidades que inclui malária, doença de Chagas, hanseníase, tuberculose e outras dez doenças — cada uma representando uma trajetória de sofrimento que poderia ser evitada.
Para enfrentar essa carga, o governo lançou o Programa Brasil Saudável, que elegeu 209 municípios prioritários e estabeleceu uma meta clara: eliminar catorze dessas doenças até 2030. Os resultados de 2025 indicam que a estratégia está avançando em várias frentes. A malária atingiu sua menor taxa em 48 anos, e na Terra Indígena Yanomami os casos caíram mais de 50%. Para hanseníase, 81,3% dos municípios brasileiros passaram cinco anos consecutivos sem registrar um caso novo em crianças menores de 15 anos.
A tuberculose também avançou com o uso do teste rápido molecular, que saltou de 4,3% para 63% de cobertura em um ano. Na oncocercose, conhecida como cegueira dos rios, o tratamento coletivo subiu de 68% para 85,4%. O Brasil já conquistou a certificação de eliminação da transmissão vertical do HIV e entregou à OPAS e à OMS o dossiê para validação como país livre da transmissão vertical da hepatite B.
Mas o progresso não é uniforme. A transmissão vertical da sífilis permanece como a principal pendência: enquanto outras doenças recuam, a sífilis congênita continua marcando recém-nascidos, expondo as lacunas que persistem mesmo em um programa tão abrangente. O que os números revelam é um país em movimento — com vitórias reais e feridas ainda abertas.
O Brasil carrega um peso desproporcional na luta global contra doenças que prosperam na pobreza e no abandono. Entre os 16 países que concentram 80% de todos os casos de doenças tropicais negligenciadas no mundo, segundo a Organização Mundial da Saúde, o país ocupa um lugar que reflete tanto a extensão de seu território quanto a vulnerabilidade de suas populações mais remotas.
Essa realidade foi apresentada na segunda-feira pelo ministro da Saúde, Alexandre Padilha, durante o 61º Congresso da Sociedade Brasileira de Medicina Tropical em Brasília. A apresentação trouxe consigo um catálogo impressionante de enfermidades: malária, doença de Chagas, leishmanioses, hanseníase, tuberculose, esquistossomose, geo-helmintíases, tracoma, oncocercose, filariose linfática e raiva humana. Cada uma delas representa não apenas um diagnóstico, mas uma trajetória de sofrimento que poderia ser evitada.
Diante dessa carga, o governo lançou o Programa Brasil Saudável, um esforço ambicioso que elegeu 209 municípios como prioridade — aqueles onde a doença bate com mais força — e estabeleceu uma meta clara: eliminar catorze dessas enfermidades até 2030. Não é uma promessa vaga. É um compromisso com prazos e números.
Os resultados de 2025 sugerem que a estratégia está funcionando, pelo menos em alguns fronts. A malária atingiu sua menor taxa em 48 anos. Na Terra Indígena Yanomami, onde a doença havia devastado comunidades inteiras, os casos caíram mais de 50%. Para hanseníase, uma doença infecciosa crônica que marca corpos e vidas, 81,3% dos municípios brasileiros passaram cinco anos consecutivos sem registrar um único caso novo em crianças menores de 15 anos — um indicador crucial de que a transmissão está sendo contida.
A tuberculose também avançou. O uso do teste rápido molecular, que permite diagnóstico veloz e tratamento imediato, saltou de 4,3% para 63% em um ano. Na oncocercose, conhecida popularmente como cegueira dos rios porque deixa pessoas cegas nas comunidades ribeirinhas e de garimpeiros, a cobertura de tratamento coletivo subiu de 68% para 85,4%. O Brasil também já conquistou a certificação de eliminação da transmissão vertical do HIV — mãe para filho — e em julho deste ano entregou à Organização Pan-Americana da Saúde e à OMS o dossiê solicitando validação como país livre da transmissão vertical da hepatite B.
Mas o progresso não é uniforme. A transmissão vertical da sífilis permanece como a ferida aberta, a pendência que o país ainda não conseguiu fechar. Enquanto outras doenças recuam, a sífilis congênita continua marcando recém-nascidos, uma falha que expõe as lacunas que ainda existem mesmo em um programa tão abrangente.
O que esses números revelam é um país em movimento — nem perfeito, nem derrotado. Há municípios onde a malária praticamente desapareceu e comunidades indígenas respirando mais fácil. Há crianças nascendo livres de doenças que mataram seus avós. Mas há também a sífilis esperando, e há ainda 209 municípios que precisam de atenção constante para que os ganhos não se percam.
Notable Quotes
O Brasil está entre os 16 países que concentram 80% dos casos de doenças tropicais negligenciadas no mundo— Organização Mundial da Saúde, apresentado pelo ministro da Saúde Alexandre Padilha