"Bolsonaro tem mais a ver com o Brasil do que a gente gostaria", diz Maria Ribeiro

Bolsonaro tem mais a ver com o Brasil do que a gente gostaria
Ribeiro reconhece que a eleição de Bolsonaro não foi um acidente, mas revelou algo profundo sobre o país.
Mark

Por que você decidiu misturar sua vida pessoal — o fim do seu casamento — com um documentário político sobre a eleição de Bolsonaro?

Mimi

Porque o desespero era o mesmo. Não conseguia separar as duas coisas. A semana que culminou na eleição foi também a semana em que meu casamento desabava. E eu precisava transformar aquilo em algo, senão não dormia.

Mark

Você diz no filme que não consegue manter laços afetivos com pessoas que pensavam em votar no Bolsonaro. Isso não é exatamente o oposto do que você está dizendo agora sobre a necessidade de diálogo?

Mimi

É. E é por isso que faço uma autocrítica. Eu tenho preconceito. Fico irritada antes mesmo de conversar. Mas reconheço que talvez esteja errada, e que a culpa não é só deles — é também minha, é nossa, é de como a gente se comunicou ou não.

Mark

O que você quer dizer quando afirma que Bolsonaro tem mais a ver com o Brasil do que gostaríamos?

Mimi

Que ele não é um acidente. Que ele revela algo sobre quem somos. A polarização, o ódio, a falta de escuta — isso não caiu do céu. Vem de algum lugar dentro da gente, dentro do país.

Mark

Por que você acha que documentários dirigidos por mulheres conseguem unir política com sentimento de forma diferente?

Mimi

Porque somos autorizadas a sentir. Culturalmente, nos ensinam a dizer o que nos incomoda, o que sentimos. E quando você coloca isso na tela, quando você aparece no filme contando sua história, a conversa fica menos defensiva. Não é um discurso — é uma pessoa.

Mark

E se as pessoas que você quer alcançar não quiserem assistir a um documentário?

Mimi

Essa é a pergunta que fico fazendo. Até que ponto meus grupos de WhatsApp são só gente que já pensa como eu? Até que ponto eu realmente converso com quem é diferente de mim?

  • Documentário 'Outubro' acompanha Maria Ribeiro durante a semana da eleição de Bolsonaro em 2018
  • Filme mistura narrativa pessoal (separação matrimonial) com análises de intelectuais como Maria Rita Khel, Xico Sá e Marcos Nobre
  • Ribeiro participou das manifestações 'Ele Não' em Lisboa, Portugal, antes da eleição
  • Documentário integra série de filmes dirigidos por mulheres sobre crise democrática brasileira desde impeachment de Dilma

O documentário mistura narrativa pessoal com análises políticas de intelectuais como Maria Rita Khel, Xico Sá e Marcos Nobre sobre o caos político que se seguiu. Ribeiro reflete sobre polarização política, dificuldade de diálogo com eleitores de Bolsonaro e a importância de manter escuta genuína em momentos de divisão social.

Atriz e escritora Maria Ribeiro lança documentário 'Outubro' que acompanha sua vida pessoal durante a eleição de Bolsonaro em 2018, entrelaçando separação matrimonial com crise política brasileira.

Maria Ribeiro está lançando nas plataformas de streaming um documentário chamado Outubro, que acompanha sua própria semana durante a eleição de Jair Bolsonaro à presidência em 2018. O filme não é apenas um registro político — é uma mistura deliberada entre a vida pessoal da atriz e escritora e o colapso democrático que o Brasil viveria nos anos seguintes. Ribeiro entrelaça o fim de seu casamento com o momento em que o país escolheu um presidente que ela e milhões de outros brasileiros temiam profundamente.

O documentário ganhou forma a partir das manifestações do "Ele Não", os atos de mulheres que ocorreram em diversas cidades nas semanas anteriores ao pleito. Ribeiro estava em Portugal quando participou de uma dessas mobilizações na Praça Camões, em Lisboa, ao lado de brasileiros, portugueses e pessoas de várias nacionalidades. Naquele momento, ela começou a questionar para quem ela queria dizer sim, se não para Bolsonaro, não para Eduardo Cunha, não para os homens que votaram pelo impeachment de Dilma Rousseff. Essa pergunta a levou a decidir fazer um filme, misturando o desespero político com sua separação matrimonial — uma forma de transformar a angústia em algo criativo, porque, como ela diz, se não fizesse algo, não conseguiria dormir.

O filme traz depoimentos de intelectuais e artistas como a psicanalista Maria Rita Khel, o escritor Xico Sá, o poeta Sérgio Vaz, o filósofo Marcos Nobre e a atriz Martha Nowill. Esses nomes ajudam a desenhar uma pequena parte do caos que se seguiria. Ribeiro explica que não sabia muito bem o que estava fazendo quando começou — pensou que se o resultado não fosse bom, pelo menos teria sobrevivido a uma semana muito difícil. Mas havia uma urgência: a necessidade de estar aberto para conversar o tempo inteiro, de fazer uma autocrítica sobre como a esquerda se comunicava com o resto do país.

Octubro integra-se a uma série de documentários dirigidos por mulheres que registram a crise democrática brasileira. Há Democracia em Vertigem, de Petra Costa, e Alvorada, de Lô Politi e Anna Muylaert, que estreou no festival É Tudo Verdade. Todos narram os últimos dias da presidenta Dilma na presidência e as consequências que se desenrolaram depois. Ribeiro admira o trabalho de Petra Costa e a coragem dela em se colocar como personagem dentro do próprio filme — algo que também faz em Outubro. Ela acredita que quando o diretor sai do discurso puro e aparece na tela, a conversa fica mais quente e menos defensiva. As pessoas não veem um argumento político abstrato, mas uma pessoa contando sua própria história.

Ribeiro reflete sobre por que mulheres parecem mais dispostas a unir política com sentimento. Culturalmente, as mulheres são estimuladas a dizer o que sentem, o que as incomoda — são autorizadas a sentir de forma que os homens historicamente não foram. Esse cinema que une política com emoção talvez seja mais acessível, embora o Brasil tenha uma tradição de documentários políticos importantes. Mas há algo diferente quando você vê o diretor no filme, quando a história pessoal e a história coletiva se entrelaçam.

Quando questionada sobre a polarização que se criou desde então, Ribeiro é honesta sobre suas próprias limitações. Ela vem de uma elite do Rio de Janeiro, de pais burgueses, e não teve formação política na infância. Aprendeu sobre luta de classes e marxismo através de seu casamento com Paulo Betti. Quando foi filmar na Avenida Paulista vestida de noiva — uma performance artística — quase apanhou várias vezes, inclusive de mulheres. O ódio que encontrou foi muito grande, e ela reconhece que parte dele vem de uma falta de comunicação sua. Fico pensando, ela diz, até que ponto eu realmente converso com o motorista de táxi, ou se meus grupos de WhatsApp são apenas espaços onde nos amamos e nos lacramos mutuamente.

Ela admite ter preconceito contra eleitores de Bolsonaro — fica irritada antes mesmo de conversar, já assume que são pessoas que não se importam com o outro, que não entendem as desigualdades do Brasil. Mas reconhece que pode estar errada. E talvez o mais importante que ela diz é isto: Bolsonaro tem mais a ver com o Brasil do que a gente gostaria que tivesse. Não é uma desculpa para o que aconteceu, mas um reconhecimento de que a polarização, o ódio, a falta de diálogo — essas coisas não caíram do céu. Elas revelam algo sobre quem somos como país, e talvez o filme de Ribeiro seja um convite para olhar para isso sem desviar o olhar.

Se eu não fizer alguma coisa, se eu não transformar esse meu desespero, eu não vou conseguir dormir
— Maria Ribeiro, sobre a motivação para fazer o filme
A gente tem que juntar. Não dá pra buscar a periferia, ou o diferente e querer escutar as pessoas na hora do desespero. Você tem que querer escutar o tempo inteiro
— Sérgio Vaz, poeta, citado por Maria Ribeiro no filme
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