Você pode, em uma ausência do Alcolumbre, botar em votação o projeto da anistia
Em um momento em que o tempo político pesa mais do que a espera democrática, Jair Bolsonaro revelou abertamente a estratégia do PL para aprovar a anistia aos presos do 8 de Janeiro sem aguardar as eleições de 2026: conquistar a primeira vice-presidência do Senado, cargo que permite pautar votações na ausência do presidente da Casa. A negociação com Davi Alcolumbre, favorito para presidir o Senado a partir de fevereiro, expõe a urgência de um movimento que mistura cálculo institucional, pressão parlamentar e a sombra das acusações criminais que pesam sobre o próprio ex-presidente.
- O PL negocia a primeira vice-presidência do Senado como chave para pautar a anistia aos golpistas sem depender de eleições futuras — e Bolsonaro confirmou a estratégia em entrevista.
- A tática provocou uma rachadura interna: o senador Marcos Pontes, do próprio PL, desafia Bolsonaro ao candidatar-se à presidência do Senado por conta própria, sendo chamado de 'lamentável' pelo ex-presidente.
- Na Câmara, o projeto de anistia está travado desde outubro, e Bolsonaro pressiona Hugo Motta com uma ameaça concreta: se não cooperar, 80 parlamentares do PL iniciarão uma obstrução que pode paralisar as votações.
- Enquanto articula o poder legislativo, Bolsonaro reforça sua defesa pessoal — estava em Orlando no dia 8 de Janeiro e nega qualquer envolvimento na conspiração investigada pela Polícia Federal.
Na última sexta-feira, Jair Bolsonaro confirmou em entrevista o que o Estadão havia antecipado dias antes: o PL quer a primeira vice-presidência do Senado como instrumento para aprovar a anistia aos presos dos Atos de 8 de Janeiro. A lógica é simples e cirúrgica — quando o presidente da Casa está ausente, o primeiro vice assume o comando e pode colocar qualquer projeto em votação. Sem precisar esperar 2026.
A negociação envolve Davi Alcolumbre, favorito para presidir o Senado a partir de 1º de fevereiro. Bolsonaro foi direto: não há tempo para aguardar um eventual presidente de direita tomar posse em 2027. O objetivo é agir agora, com os instrumentos disponíveis dentro do próprio Congresso.
A estratégia, porém, já gerou turbulência interna. O senador Marcos Pontes, também do PL, decidiu disputar a presidência do Senado por conta própria, sem o aval de Bolsonaro. O ex-presidente classificou a atitude como 'lamentável', expondo que nem todos no partido compartilham da mesma prioridade: a anistia dos golpistas.
A pressão se estende à Câmara, onde o projeto está parado desde outubro. Bolsonaro afirma que Hugo Motta, favorito para substituir Arthur Lira, prometeu pautar a anistia caso 257 deputados aprovem um requerimento de urgência. Mas a confiança é parcial. O ex-presidente deixou o recado: se Motta não cumprir, o PL parte para a obstrução parlamentar, complicando o funcionamento da Casa.
Ao longo da mesma entrevista, Bolsonaro voltou a se defender das acusações de participação em uma tentativa de golpe. Ele estava em Orlando no dia 8 de Janeiro e usa esse fato como argumento central de inocência, rejeitando o indiciamento da Polícia Federal. 'Golpe é quando o povo vai e o Exército vai atrás. Não teve um soldado na rua', afirmou.
O que está em disputa agora é a eficácia dessa engenharia política. A eleição no Senado acontece em uma semana. Se o PL garantir a vice-presidência, terá em mãos um mecanismo concreto para avançar na pauta da anistia — um movimento de curto prazo com consequências que se estendem muito além do calendário imediato.
Jair Bolsonaro deixou claro nesta sexta-feira, 24 de janeiro, qual é o próximo movimento do seu partido no Senado. O PL quer a primeira vice-presidência da Casa, negociando com Davi Alcolumbre, que deve vencer a eleição para presidente do Senado no dia 1º de fevereiro com margem confortável de votos. A razão é prática: quando o presidente está ausente, quem comanda é o primeiro vice-presidente, e essa pessoa pode colocar em votação qualquer projeto que esteja na pauta. Bolsonaro quer usar esse poder para aprovar uma anistia aos presos dos Atos de 8 de Janeiro, sem esperar pelas eleições presidenciais de 2026.
"Estamos negociando, com esse apoio, é a primeira-vice-presidência. Você pode, em uma ausência do Alcolumbre, botar em votação, por exemplo, o projeto da anistia", disse o ex-presidente em entrevista ao programa Oeste Sem Filtro. Ele foi direto: não dá para esperar até 2027, quando um eventual presidente de direita tomaria posse. A estratégia, que havia sido revelada dias antes pelo jornal Estadão, agora estava confirmada pela boca do próprio Bolsonaro. O objetivo é colocar um aliado próximo na vice-presidência, alguém que responda aos interesses da base bolsonarista.
Essa tática provocou uma rachadura dentro do próprio PL. O senador Marcos Pontes, também do partido, quer se candidatar à presidência do Senado por conta própria, sem o apoio de Bolsonaro. O ex-presidente chamou a atitude de "lamentável". A disputa interna reflete uma realidade: nem todos no partido concordam com a prioridade de Bolsonaro, que é a anistia dos golpistas.
Mas a pressão de Bolsonaro não para no Senado. Ele também está de olho na Câmara dos Deputados, onde o projeto de anistia está travado desde outubro, quando Arthur Lira o freou. O favorito para substituir Lira é Hugo Motta, do Republicanos, e Bolsonaro deixou recados claros. Segundo o ex-presidente, Motta prometeu que vai pautar a anistia se a maioria dos deputados, 257 deles, aprovar um requerimento de urgência. Mas Bolsonaro não confia completamente. Ele ameaçou: se Motta não cooperar, o PL vai iniciar uma obstrução, paralisando as votações da Casa. "Uns 80 parlamentares têm como partir para a obstrução e complicar a vida do pessoal lá dentro", afirmou.
Durante a mesma entrevista, Bolsonaro voltou a minimizar as acusações contra ele sobre uma tentativa de golpe de Estado. Ele estava em Orlando, na Flórida, no dia 8 de Janeiro, e usa isso como prova de que não teve envolvimento com o vandalismo nos prédios públicos. A Polícia Federal o indiciou em novembro por participação em um grupo que planejava uma ruptura democrática, mas Bolsonaro nega tudo. "Golpe é quando o povo vai e o Exército vai atrás. Não teve um soldado na rua", disse, descartando a possibilidade de que houve um golpe.
O ex-presidente também mencionou que recebeu convites para ficar nos Estados Unidos após deixar a Presidência, mas não aceitou. Ele passou os três primeiros meses após dezembro de 2022 lá, foi "tratado como um rei", mas voltou. Essa narrativa faz parte de sua defesa contra as acusações de conspiração. Para Bolsonaro, estar fora do Brasil no dia dos atos é evidência suficiente de inocência.
O que está em jogo agora é se a estratégia do PL vai funcionar. A eleição no Senado acontece em uma semana. Alcolumbre é o favorito esmagador, e se o PL conseguir colocar um aliado na vice-presidência, terá um instrumento poderoso para pautar a anistia sem depender de eleições futuras ou de mudanças na composição do Congresso. É um movimento de curto prazo, mas com implicações políticas profundas.
Notable Quotes
A gente não quer esperar a anistia para o futuro presidente de direita, caso seja eleito em 2026 e vai tomar posse em 2027— Jair Bolsonaro
Uns 80 parlamentares têm como partir para a obstrução e complicar a vida do pessoal lá dentro— Jair Bolsonaro, sobre ameaça de paralisação na Câmara
The Hearth Conversation Another angle on the story
Por que Bolsonaro está tão focado em conseguir a vice-presidência do Senado agora, em vez de esperar pelas eleições de 2026?
Porque ele não quer deixar a anistia nas mãos de um futuro presidente. Se esperar até 2027, quando um novo presidente tomaria posse, ele fica dependente da vontade política dessa pessoa. Controlando a vice-presidência agora, ele garante que o projeto vai para votação, independentemente de quem estiver na Presidência.
E se Alcolumbre não ficar ausente com frequência? A estratégia não fica frágil?
Sim, é um risco. Mas Alcolumbre é o favorito para vencer, e a negociação é justamente para que ele aceite essa dinâmica. Além disso, qualquer ausência, por menor que seja, abre a porta. É uma aposta calculada.
Por que Marcos Pontes está desafiando Bolsonaro dentro do próprio partido?
Porque nem todos no PL concordam que a anistia deve ser a prioridade máxima. Pontes quer a presidência do Senado por direito próprio, talvez acreditando que tem apoio suficiente. Mas Bolsonaro tem mais poder dentro do partido, então Pontes está em desvantagem.
A ameaça de obstrução na Câmara é credível?
Muito. Bolsonaro tem cerca de 80 deputados que podem fazer isso. Uma obstrução paralisa a Casa, e nenhum presidente da Câmara quer lidar com isso. Hugo Motta sabe disso, por isso provavelmente vai cooperar.
Como Bolsonaro consegue negar participação no golpe estando fora do Brasil?
Para ele, estar em Orlando é a prova definitiva. Mas a acusação não é que ele estava lá fisicamente, é que ele planejou ou incentivou. A Polícia Federal diz que ele participava de um grupo que conspirava. Estar fora do país não refuta necessariamente isso.
Qual é o verdadeiro objetivo aqui, além da anistia?
É recuperar poder político. A anistia liberta seus aliados, mas também reabilita Bolsonaro politicamente. Se conseguir aprovar, ele mostra que ainda tem força para pautar a agenda do país, mesmo fora do poder.