O bolsonarismo tem um problema para resolver
Dirceu argumenta que Bolsonaro manterá influência através da família e do partido PL, mesmo encarcerado, e que o bolsonarismo não formará maioria novamente. Ex-ministro defende que a reconstrução do PT passa por reformas políticas e sociais, e critica a política de juros altos e austeridade fiscal do governo.
- Dirceu foi cassado em 2005, preso em 2013, condenado na Lava Jato, e suas últimas condenações foram anuladas em 2024
- Bolsonaro tem um filho senador, um deputado, um vereador, esposa candidata a senadora e outro filho candidato a senador
- Tarcísio de Freitas é apontado como principal desafiante de Lula em 2026, mas corre risco de perder São Paulo se deixar o governo
- Dirceu critica juros em 15% quando poderiam estar em 9% ou 11%, e rejeita ajuste fiscal sobre saúde, educação e aposentadoria
Ex-ministro José Dirceu afirma que Bolsonaro não sairá de cena política apesar da prisão e que o bolsonarismo enfrentará crise interna. Dirceu prevê Tarcísio de Freitas como principal desafiante de Lula em 2026.
José Dirceu está de volta. Cassado da Câmara em 2005 após o escândalo do mensalão, preso oito anos depois, condenado novamente na esteira da Lava Jato, anuladas suas últimas condenações em 2024, o ex-ministro agora disputa uma cadeira de deputado federal — o mesmo cargo de onde foi expulso duas décadas atrás. Em entrevista ao Estadão, ele oferece um diagnóstico claro sobre o que vê à frente: Bolsonaro não desaparecerá da política, mas o bolsonarismo enfrenta uma crise que não conseguirá resolver sozinho.
A avaliação de Dirceu é precisa e sem rodeios. Bolsonaro permanecerá influente não porque esteja livre, mas porque sua família e seu partido, o PL, continuarão operando. Um filho é senador, outro deputado, um terceiro vereador. A esposa quer ser senadora. A estrutura política persiste mesmo com o ex-presidente encarcerado. Mas isso não significa que o bolsonarismo voltará ao poder. Dirceu vê o movimento como reduzido a coadjuvante nas próximas eleições — e aponta para uma imagem que considera patética: Bolsonaro com a tornozeleira queimada com ferro de solda, um símbolo que resumiria, em sua visão, o declínio da força que antes mobilizava multidões.
O verdadeiro desafiante de Lula em 2026, segundo Dirceu, será Tarcísio de Freitas, governador de São Paulo. A elite conservadora, em seu diagnóstico, dará um ultimato ao governador para que entre na disputa presidencial. Mas há um risco calculado: se Tarcísio deixar o governo de São Paulo para fazer campanha, pode perder o estado — uma aposta arriscada para quem quer chegar ao Planalto. Dirceu enumera as propostas que Tarcísio defende: venda do Banco do Brasil, privatização da Caixa e do BNDES, desmonte da Petrobras, desvinculação do salário mínimo da Previdência. Tudo, em sua visão, o oposto do que o PT representa.
Sobre Bolsonaro especificamente, Dirceu é duro. O ex-presidente tentou fugir, provavelmente para a embaixada americana, enquanto um plano golpista — o Punhal Verde e Amarelo — previa o assassinato de Lula, do vice Geraldo Alckmin e do ministro Alexandre de Moraes. Dirceu cumpriu sua pena sem tentar fuga. Bolsonaro, em seu julgamento, cometeu alta traição ao tentar envolver as Forças Armadas em um golpe de Estado. Não há equivalência entre seus crimes e os de Dirceu. E quando questionado sobre propostas para reduzir penas no Código Penal, Dirceu vê hipocrisia: Bolsonaro sempre defendeu prisão perpétua e justificou tortura. Agora quer impunidade.
Para o futuro, Dirceu defende que a reconstrução do PT passa por reformas políticas e sociais profundas. Reforma tributária, fim da escala seis por um, criação de um ministério exclusivo para segurança pública. O governo Lula, em seu diagnóstico, tem realizações para apresentar: crescimento econômico, emprego e renda em alta, inflação reduzida. Mas há críticas internas que não podem ser ignoradas. Os juros estão em 15% quando poderiam estar em 9% ou 11%. A meta de inflação é um erro que não será corrigido por causa do poder do mercado financeiro. O problema real do Brasil não é o déficit público, mas a dívida pública e os juros altos.
Sobre o ajuste fiscal que o governo discute, Dirceu é categórico: não pode recair sobre saúde, educação, aposentadoria ou salário mínimo. Se há necessidade de ajuste, que seja na renúncia fiscal e na concentração de renda do 1% mais rico, que detém um terço da renda nacional. Ele não propõe revolução, apenas coerência com os valores que o PT sempre defendeu.
Quanto ao futuro do partido além de Lula, Dirceu vê nomes em construção: Fernando Haddad, ministro da Fazenda; Rafael Fonteles, governador do Piauí; João Campos, prefeito do Recife. Não há vazio político à esquerda. A direita, por sua vez, só tem Tarcísio depois de Bolsonaro. E enquanto isso, Dirceu retorna à Câmara — ou tenta — carregando a história de quem foi cassado, preso, condenado injustamente em sua avaliação, e agora quer contribuir para a reconstrução de um partido que o viu sofrer.
Notable Quotes
Bolsonaro não vai sair de cena. Isso é uma ilusão. O bolsonarismo tem um problema para resolver— José Dirceu
A construção do pós-Lula passa pela reconstrução do PT— José Dirceu
The Hearth Conversation Another angle on the story
Você diz que Bolsonaro não sairá de cena, mas também que o bolsonarismo não será mais maioria. Como essas duas coisas convivem?
Bolsonaro como pessoa, como figura política, vai continuar influenciando através da família, do partido, das redes. Mas a capacidade de ganhar eleição, de formar maioria — isso acabou. É a diferença entre estar presente e estar no poder.
E Tarcísio? Por que ele é o candidato natural?
Porque a elite conservadora precisa de alguém. Bolsonaro está preso, tentou dar um golpe. Tarcísio é governador, tem máquina, tem dinheiro. Mas se ele sair de São Paulo para fazer campanha presidencial, perde o estado. É um dilema real.
Você fala muito sobre reformas — tributária, social, segurança pública. Mas o governo Lula está fazendo o oposto, cortando gastos sociais.
Exatamente. E é por isso que o PT precisa se reconstruir. Não é possível fazer aliança com centro-direita e manter a mesma agenda. Ou você muda a correlação de forças no Congresso, ou aceita que vai ser coadjuvante.
Os juros em 15% — você acha que o novo presidente do Banco Central vai baixar?
Não assumiu compromisso público. Mas a expectativa do país é clara. Até os bancos estão pedindo juros menores. O problema não é o déficit, é a dívida pública alimentada por juros altos. Se continuar assim, vem recessão.
Você foi cassado, preso três vezes, condenado injustamente segundo você. Por que voltar agora?
Porque tenho experiência, história e propostas. A Câmara é onde saí. Quero voltar para contribuir com a reconstrução do PT e com as reformas que o país precisa. Não é revanche, é continuidade.