Ibovespa fechou em queda de 1,86%, aos 115.822 pontos, acompanhando quedas em bolsas mundiais diante do temor sobre eficácia de vacinas contra nova cepa. Dólar subiu 0,76% para R$ 5,1230 e real foi segunda moeda mais desvalorizada em mercados emergentes; Vale caiu 1,07% por suspensão de alvará em Brumadinho.
Bolsa cai 1,86% com temor sobre nova mutação de Covid-19
O mercado sobe no boato e cai no fato
Por que uma mutação descoberta no Reino Unido afeta tanto o mercado brasileiro? Não deveríamos estar mais preocupados com o que acontece por aqui?
A lógica é global. Os investidores estavam apostando que as vacinas trariam recuperação econômica em todo o mundo. Se essa nova cepa escapa das vacinas, toda aquela esperança desaba — e isso afeta fluxos de capital em qualquer lugar.
Mas espera — ninguém sabia ainda se as vacinas funcionariam ou não contra essa variante. Estamos falando de especulação pura, certo? O mercado caiu por medo do desconhecido.
Exatamente. E o desconhecido é suficiente. Quando há incerteza sobre o futuro, investidores vendem primeiro e fazem perguntas depois.
E a Vale? Por que caiu se o minério de ferro subiu?
Porque Brumadinho. Um funcionário morreu em um desmoronamento, e a prefeitura suspendeu o alvará da empresa. Isso é risco operacional concreto, não especulação.
Mas a Vale é só um terceirizado que morreu, certo? Não foi um acidente em larga escala como o de 2019. Por que a suspensão foi tão rápida?
A prefeitura estava em alerta máximo depois de Brumadinho 2019. Qualquer incidente agora é tratado com rigor.
E o dólar subiu porque o real ficou menos atrativo?
Sim. Com aversão ao risco global, investidores estrangeiros saem de ativos em moedas emergentes e voltam para o dólar, que é refúgio.
O Banco Central vendeu 800 milhões em swaps. Isso funcionou? Conseguiu conter a desvalorização?
Parcialmente. O real foi a segunda moeda mais desvalorizada do dia. Não foi o pior, mas também não foi contido.
E agora? O que muda quando o Congresso americano votar o pacote de estímulos?
Se passar, pode trazer alívio. Mas só se a notícia sobre a variante arrefecer.
E se não arrefecer? Se a variante for realmente resistente às vacinas?
Aí voltamos ao ponto de partida — e o mercado cai de novo.
Il Polso
- Ibovespa fechou em queda de 1,86%, aos 115.822 pontos
- Dólar subiu 0,76% para R$ 5,1230; real foi segunda moeda mais desvalorizada em emergentes
- Vale caiu 1,07% após suspensão de alvará em Brumadinho por morte de funcionário terceirizado
- Minério de ferro subiu 10% na China, contendo queda maior do Ibovespa
- Banco Central vendeu 16 mil contratos de swap cambial, equivalentes a US$ 800 milhões
Ibovespa fechou em queda de 1,86%, aos 115.822 pontos, acompanhando quedas em bolsas mundiais diante do temor sobre eficácia de vacinas contra nova cepa. Dólar subiu 0,76% para R$ 5,1230 e real foi segunda moeda mais desvalorizada em mercados emergentes; Vale caiu 1,07% por suspensão de alvará em Brumadinho.
O Ibovespa recuou 1,86% nesta segunda-feira após descoberta de nova variante do coronavírus no Reino Unido, gerando aversão ao risco nos mercados globais apesar de expectativas positivas sobre vacinas.
Na segunda-feira, 21 de dezembro, os mercados brasileiros acordaram sob o peso de uma notícia que atravessava o Atlântico: cientistas britânicos haviam identificado uma nova variante do coronavírus. O Ibovespa, principal termômetro da economia brasileira, fechou o dia em queda de 1,86%, marcando 115.822 pontos. Era o reflexo de um movimento global de recuo — investidores em todo o mundo, que vinham apostando na chegada das vacinas como porta de saída da crise, agora se perguntavam se aquelas doses seriam suficientes contra essa cepa desconhecida.
O contraste era agudo. Dias antes, a perspectiva de imunização havia alimentado otimismo nos pregões. Agora, a incerteza voltava. Leonardo Milane, responsável pela captação de recursos na VLG Investimentos, resumiu o dilema que atravessava as mesas de operação: mesmo com os estímulos fiscais que os Estados Unidos preparava, o medo dessa "versão 2.0 do vírus" havia tomado conta. A pergunta que ninguém conseguia responder com segurança — será que as vacinas funcionariam contra essa nova cepa? — foi suficiente para fazer o mercado recuar.
Nos Estados Unidos, o Congresso se preparava para votar um pacote de estímulos de 900 bilhões de dólares, equivalente a 4,641 trilhões de reais. O programa incluía auxílio-desemprego, apoio a pequenos negócios e recursos para distribuição de vacinas. Mas a chegada dessa notícia já esperada não trouxe alívio. Bruno Musa, economista da Acqua Investimentos, observou que o mercado havia precificado a expectativa há muito tempo; quando a votação finalmente se aproximava, o movimento era de realização de lucros. Ainda assim, notou ele, as perdas do dia foram menores do que aquelas vistas nas primeiras horas do pregão — um sinal de que o pânico inicial havia arrefecido um pouco.
Houve um fator que impediu uma queda ainda mais profunda: o minério de ferro subiu 10% na China, beneficiando o setor de commodities brasileiro. Rafael Ribeiro, analista da Clear Corretora, creditou a esse movimento a contenção da correção no Ibovespa. Mas nem mesmo isso foi suficiente para salvar a Vale, que carrega peso desproporcional no índice. A ação da mineradora caiu 1,07%, fechando a R$ 86,86, pressionada por uma notícia que vinha de Brumadinho: a prefeitura havia suspendido o alvará de funcionamento da empresa após a morte de um funcionário terceirizado em um desmoronamento de talude.
O movimento de aversão ao risco transbordou para o mercado de câmbio. O dólar subiu 0,76% ante o real, fechando em R$ 5,1230. O real foi a segunda moeda mais desvalorizada entre as economias emergentes naquele dia, perdendo apenas para o rublo russo. O Banco Central, buscando conter a volatilidade, vendeu todos os 16 mil contratos de swap cambial que havia ofertado — o equivalente a 800 milhões de dólares, ou 4,1 bilhões de reais.
No exterior, o quadro era misto. O S&P 500 caiu 0,39%, enquanto o Dow Jones conseguiu reverter o sinal ao longo do pregão e encerrou em alta de 0,12%. Na Europa, o Euro Stoxx, um dos principais índices do continente, fechou com queda de 2,74%. Era um dia em que a incerteza sobre a eficácia das vacinas pesava mais do que qualquer notícia positiva sobre estímulos ou commodities. Os mercados, por enquanto, estavam presos à pergunta sem resposta.
Citazioni salienti
O temor sobre a versão 2.0 do vírus acabou ditando os preços do mercado, colocando forte incerteza sobre se as vacinas serão suficientes para conter essa nova cepa— Leonardo Milane, VLG Investimentos
O mercado sobe muito no boato e cai no fato. O pacote já estava sendo esperado há muito tempo e, agora que bateram o martelo, houve uma devolvida nos preços— Bruno Musa, Acqua Investimentos