BlackRock reduz emergentes, mas vê Brasil em destaque por IA, energia e geopolítica

O Brasil pode aproveitar seu tamanho para garantir minerais, alimentos e energia
Estrategista da BlackRock explica por que o país segue em destaque apesar da redução em emergentes.

A maior gestora de ativos do mundo recuou sua posição nos mercados emergentes após um semestre de ganhos expressivos, mas não abandonou o Brasil — pelo contrário, o manteve como aposta estratégica. Em um mundo que se reorganiza em torno da inteligência artificial, da transição energética e de novas geometrias geopolíticas, o país emerge como fornecedor de recursos críticos e alimentos essenciais. A questão que permanece não é se o Brasil tem o que o mundo precisa, mas se suas engrenagens internas — juros, infraestrutura, crescimento — conseguirão girar no ritmo certo.

  • A BlackRock realizou lucros em emergentes asiáticos e reduziu sua exposição ao bloco, sinalizando cautela diante da volatilidade crescente nesses mercados.
  • Mesmo com o recuo geral, a América Latina e o Brasil foram preservados como preferências, criando uma distinção estratégica dentro do próprio movimento de saída.
  • O Brasil é visto como fornecedor indispensável de minerais críticos, alimentos e energia em um mundo fragmentado — mas essa vantagem permanece potencial enquanto a infraestrutura não avançar.
  • Taxas de juros elevadas travam os investimentos em infraestrutura, e o próximo governo terá de equacionar crescimento e condições de financiamento para converter promessa em retorno real.

A BlackRock, gestora de quase 14 trilhões de dólares, reduziu sua recomendação para mercados emergentes de sobrepeso para neutra — mas o movimento não é pessimismo, e sim realização de lucros após um primeiro semestre robusto, liderado pelos mercados asiáticos ligados à inteligência artificial. O Brasil, segundo o estrategista-chefe para a região, Axel Christensen, permanece em posição de destaque dentro do bloco latino-americano.

Três forças explicam o interesse no país: a corrida pela IA, a transição energética e a reconfiguração geopolítica global. Nesse cenário, economias de porte médio com recursos naturais abundantes ganham relevância. O Brasil é fornecedor crítico de minerais essenciais, alimentos e energia — ativos cada vez mais valorizados em um mundo onde a segurança de suprimentos virou prioridade estratégica.

O obstáculo, porém, é concreto. Para que essas vantagens se convertam em investimentos reais, o país precisa de infraestrutura — e infraestrutura depende de juros competitivos. Christensen vê no trabalho do Banco Central no controle da inflação uma janela de esperança: se a trajetória de queda dos juros se confirmar, os projetos ganham viabilidade.

O desafio que aguarda o próximo governo é duplo: reacelerar o crescimento econômico — hoje aquém do potencial segundo o FMI e o Focus — e criar as condições de financiamento que permitam ao Brasil transformar sua posição geopolítica privilegiada em desenvolvimento real e retornos concretos para investidores.

A BlackRock, maior gestora de ativos do mundo com quase 14 trilhões de dólares sob administração, recuou sua posição nos mercados emergentes nesta semana. A recomendação caiu de "sobrepeso" para neutra — mas o Brasil, segundo o estrategista-chefe da casa para a região, Axel Christensen, segue em destaque.

A mudança não reflete pessimismo. Christensen explicou que a gestora está realizando lucros após um primeiro semestre robusto, impulsionado principalmente pelos mercados asiáticos, onde a inteligência artificial concentra investimentos pesados. A volatilidade crescente em alguns desses mercados também pesou na decisão. A América Latina, porém, mantém-se como preferência dentro do bloco emergente — e o Brasil ocupa posição central nessa aposta.

O país desperta interesse por uma convergência de forças. Christensen apontou três pilares: inteligência artificial, transição energética e reconfiguração geopolítica global. Neste último cenário, economias de porte médio como o Brasil ganham espaço para alavancar suas vantagens. O Brasil, junto com outros países da região, é fornecedor crítico de minerais essenciais não apenas para a IA, mas para a transição para energias limpas. Além disso, o país oferece produtos fundamentais — alimentos e energia — em um mundo cada vez mais fragmentado, onde a segurança de suprimentos importa.

Mas há um porém. Para que essas oportunidades se materializem, o Brasil precisa de investimentos substanciais em infraestrutura. Esse é o ponto onde a política econômica entra em cena. Christensen foi direto ao comentar as perspectivas para as eleições brasileiras de 2026 e a transição de governo em 2027. Investidores em mercados emergentes já estão acostumados com incertezas políticas, disse, mas o Brasil enfrenta desafios concretos que transcendem o calendário eleitoral.

O crescimento econômico é o primeiro deles. As projeções do Fundo Monetário Internacional e da pesquisa Focus do Banco Central apontam para um crescimento que não é particularmente robusto. O próximo governo — seja uma continuidade ou uma nova administração — terá de encontrar formas de reacelerá-lo. Isso está diretamente ligado ao segundo desafio: criar condições de financiamento mais favoráveis.

Os investimentos em infraestrutura são extremamente sensíveis às taxas de juros. Uma parcela significativa desses projetos é financiada por dívida, então juros competitivos são essenciais. Christensen vê esperança no trabalho do Banco Central no controle da inflação. Se a instituição continuar nesse caminho, as taxas de juros devem cair, abrindo espaço para que investimentos em infraestrutura ganhem tração.

O estrategista resumiu o desafio duplo que aguarda o próximo governo: recolocar o crescimento econômico em ritmo mais forte e criar as condições para que os juros caiam e sustentem os investimentos necessários, especialmente em infraestrutura. Essas não são questões técnicas abstratas. São as engrenagens que precisam funcionar para que o Brasil converta suas vantagens geopolíticas e de recursos naturais em retornos reais para investidores — e em desenvolvimento para o país.

Estamos observando uma maior fragmentação global e vemos países como o Brasil sendo capazes de aproveitar seu tamanho e sua relevância para garantir não apenas minerais críticos, mas também produtos essenciais, como alimentos e energia
— Axel Christensen, estrategista-chefe da BlackRock para a região
Um dos grandes desafios, e também uma grande oportunidade, para o governo que assumirá em 2027 será encontrar formas de reacelerar o crescimento do país
— Axel Christensen, BlackRock
The Hearth Conversation Another angle on the story
Inventor

Por que a BlackRock mantém o Brasil em destaque se está reduzindo sua posição em mercados emergentes como um todo?

Model

Porque o Brasil não é apenas um mercado emergente genérico. Ele oferece acesso a três coisas que o mundo inteiro está buscando agora: minerais críticos para inteligência artificial, energia limpa, e estabilidade de suprimentos em um mundo fragmentado. Isso é diferente do que está acontecendo na Ásia, onde o retorno veio principalmente da IA.

Inventor

Então a redução é apenas sobre lucros, não sobre risco?

Model

Exatamente. Eles tiveram um semestre muito bom, especialmente em mercados asiáticos. Realizaram lucros lá porque a volatilidade está aumentando. Mas o Brasil oferece algo mais estrutural — não é apenas uma aposta de curto prazo.

Inventor

Qual é o maior obstáculo para que essas oportunidades se concretizem?

Model

Infraestrutura. Sem investimentos robustos em infraestrutura, o Brasil não consegue converter suas vantagens naturais em crescimento real. E esses investimentos dependem de juros competitivos.

Inventor

E quem é responsável por isso?

Model

O próximo governo. Mas não sozinho. O Banco Central está fazendo seu trabalho controlando a inflação, o que deveria levar a quedas de juros. O governo precisa criar políticas que acelerem o crescimento e mantenham as condições de financiamento favoráveis.

Inventor

As eleições são um risco?

Model

Para investidores em mercados emergentes, eleições são rotina. O que importa é se o governo que assumir consegue resolver dois problemas: crescimento econômico mais forte e juros mais baixos. Tudo o mais é secundário.

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