Bipolares pela democracia: a certeza que persiste nas oscilações

A autora relata experiências de transtorno bipolar, depressão, enxaqueca crônica e isolamento emocional que afetam sua capacidade funcional diária.
É preciso votar pela democracia, mesmo quando não merece tomar banho
A autora afirma seu compromisso cívico como a única certeza que persiste através de todas as oscilações emocionais e físicas.
Mark

Então a autora está descrevendo um dia específico, ou é uma colagem de muitos dias?

Mimi

É ambíguo de propósito. Ela diz "neste dia" oito vezes, mas cada segmento parece ser um estado diferente — euforia, depressão, ambição, traição, dor física, autocensura. Pode ser um dia em que tudo acontece, ou oito dias diferentes que se parecem.

Luke

Mas ela tem diagnóstico de transtorno bipolar? Ou estamos inferindo isso do título e da descrição?

Mimi

O título diz "Bipolares pela democracia". A editoria metadados confirma que ela relata experiências de transtorno bipolar. Mas ela nunca usa a palavra "bipolar" no texto — apenas descreve as oscilações.

Mark

Por que a democracia é a âncora? Por que não outra coisa — a família, a arte, o amor?

Mimi

Porque talvez a democracia seja a única coisa que não depende do seu corpo estar bem, do seu pai estar seguro, de você ter dinheiro ou amigos leais. É um compromisso que você pode manter mesmo quando está caindo.

Luke

Mas ela também diz que não pode escrever sobre isso, que loucos só pioram a imagem da esquerda. Então há uma tensão — ela quer falar, mas sente que não pode. O texto é ela falando apesar dessa proibição.

Mimi

Exatamente. A crônica é o ato de falar mesmo quando foi silenciada. É democracia em ação — o direito de nomear sua própria experiência.

Mark

E o leitor? O que o leitor é suposto fazer com isso?

Luke

Reconhecer que pessoas com transtorno bipolar, com depressão, com dor crônica — elas não desaparecem da política. Elas votam. Elas têm compromissos cívicos. Elas importam.

Mimi

E talvez também reconhecer que a certeza dela não é ingênua. Ela não diz que a democracia a cura. Ela diz que é preciso votar por ela apesar de tudo — apesar de estar quebrada, apesar de estar sozinha, apesar de estar com medo.

  • O corpo da autora funciona como campo de batalha: euforia sensorial e depressão profunda não se alternam com lógica, mas coexistem e se interrompem mutuamente, tornando cada dia imprevisível e exaustivo.
  • A autocensura agrava o sofrimento — ela precisa escrever, mas teme que revelar sua saúde mental prejudique a imagem política da esquerda, transformando o silêncio em uma segunda camada de depressão.
  • Impulsos grandiosos da fase eufórica — vender o apartamento, comprar uma flauta, lançar podcasts com uma quase estranha — colidem com a realidade de R$ 470 na conta e uma traição que confirma 47 anos esperando por uma irmã.
  • O corpo físico amplifica o colapso: enxaqueca, refluxo, sinusite e osteopenia formam uma cadeia de sofrimentos que se alimentam mutuamente, sem saída aparente.
  • Em cada fragmento da queda e da subida, uma única frase retorna oito vezes — não como esperança, mas como âncora dura e simples: é preciso votar pela democracia.

Em algum lugar entre a euforia que faz objetos banais vibrarem de beleza e a depressão que torna o teto manchado o centro do universo, uma mulher descobre que o único ponto fixo em sua existência não é a saúde, não é o amor, não é a estabilidade — é um compromisso cívico. A crônica publicada na Folha de S.Paulo em outubro de 2026 transforma o relato íntimo do transtorno bipolar em meditação sobre o que nos ancora quando o próprio eu se torna território instável. Como os antigos filósofos estoicos buscavam a virtude como único bem imperturbável, esta voz encontra na democracia não um consolo, mas uma certeza — a única que resiste a todas as oscilações.

A crônica começa como descrição de um dia — ou de muitos dias que se parecem. No topo da montanha-russa emocional, tudo é beleza e erotismo: postes, batons, o ar na face. O cérebro fabrica poeminhas. O corpo formiga. Mas mesmo nesse pico de euforia, uma frase interrompe o prazer como um sinal de trânsito: é preciso votar pela democracia.

No vale, a mesma mulher está sozinha em uma casa com escada, imaginando o pai caído enquanto faz as unhas. O teto está manchado. Cada conversa ao redor parece estúpida. A cama no escuro é o único destino que importa, e faltam horas para chegar até ela. Mesmo aqui, no fundo do poço, a certeza retorna — não como consolo, mas como fato.

Entre os dois extremos, a vida prática desmorona de formas quase cômicas: ela se matricula em sapateado, cobiça uma jaqueta de couro que custa oito vezes o que tem na conta, oferece todos os seus contatos profissionais a uma conhecida recente que logo a trai. Há 47 anos na fila para adotar uma irmã.

O corpo também cobra seu preço. Enxaqueca, refluxo, sinusite — cada remédio abre uma nova ferida. E há o silêncio imposto: ela precisa entregar uma crônica, mas teme que revelar sua saúde mental prejudique causas políticas. A autocensura se torna uma depressão dentro da depressão.

A frase sobre a democracia aparece oito vezes ao longo do texto — não como otimismo, não como esperança, mas como âncora. Como se dissesse: mesmo quando você não consegue tomar banho, mesmo quando tudo desaba, há algo que não é seu corpo nem sua mente. É coletivo. É político. E não oscila.

A montanha-russa sobe e desce, e dentro dela está uma mulher escrevendo sobre o que significa viver quando o próprio corpo é um território em guerra. Não é metáfora. É a descrição de um dia — ou talvez de muitos dias que se parecem — em que a euforia sensorial e a depressão profunda não são estados que se sucedem com lógica, mas oscilações que coexistem, que se interrompem, que voltam.

No topo, tudo é sexo e beleza. Um beiço carnudo vista-se como vitória sobre a morte. O ar na face é lambida de fada. Postes, batons, desodorantes — objetos banais ganham carga erótica. O cérebro comete poeminhas juvenis. É o estado em que tudo vibra, tudo pulsa, tudo merece ser tocado. Mas mesmo neste pico, mesmo quando a sensação é de que o corpo inteiro formiga de prazer, há uma âncora: é preciso votar pela democracia.

No vale, a mesma mulher está sozinha em uma casa com escada, imaginando seu pai caído enquanto ela faz as unhas. O teto está manchado. Todos têm bafo de omelete. Cada conversa ao seu redor é estúpida. A cama no escuro é o único lugar que importa — voltar para ela é a luta de cada hora. Faltam dez horas para dormir, para acabar. E mesmo aqui, mesmo neste poço, a certeza persiste: é preciso votar pela democracia.

A oscilação não é apenas emocional. É também prática, cotidiana, absurda. Ela se matricula em sapateado e pesquisa cursos de desenho. Vê uma jaqueta de couro por quatro mil reais, tem R$ 470 na conta, e pensa que já deu certo — venderá o apartamento, comprará uma flauta doce, viverá em uma casa cheia de mato. Oferece a uma conhecida recente todos os seus contatos de editoras, jornais, televisão, diretores de teatro, agentes, advogados, pais de santo. Quer lançar podcasts juntas, quer que sejam irmãs. Depois descobre que essa mesma pessoa a usou, falou com todos os seus contatos, saiu pelo mundo dizendo que não gosta muito dela. Está há 47 anos na fila para adotar uma irmã.

O corpo também oscila. A enxaqueca piora com a existência. O remédio da enxaqueca causa refluxo. A sinusite piora com o ventinho na cara. Caminhar no parque não serve para nada se, osteopênicos ou não, vamos parar de qualquer forma. Descobrir que o que piora a dor no corpo é a enxaqueca é descobrir que não há saída, apenas camadas de sofrimento que se alimentam uma da outra.

E há a questão do silêncio. Ela precisa entregar uma crônica, mas só pensa em mágoa, tristeza e raiva. Não pode escrever sobre nada disso. Loucos só pioram a imagem da esquerda. Já sabem o que farão comigo na internet. Eles estão sempre certos. Ela é tão péssima, equivocada e flácida que não merece tomar banho. A autocensura é tão completa que se torna um tipo de depressão adicional — a depressão de não poder nem mesmo nomear a própria depressão.

Mas em cada fragmento, em cada oscilação, em cada queda e subida, a frase retorna. Não é esperança. Não é otimismo. É algo mais duro e mais simples: uma certeza. Apesar de tudo — apesar da euforia que não dura, apesar da depressão que não termina, apesar do corpo que dói, apesar do silêncio imposto, apesar da solidão, apesar da traição, apesar da impossibilidade de viver normalmente — há uma coisa que não oscila. É preciso votar pela democracia. A frase é repetida oito vezes, como um refrão que não consola mas que ancora. Como se dissesse: mesmo quando você não consegue nem tomar banho, mesmo quando o teto está manchado, mesmo quando não sabe se seu pai está caído no chão, há algo que você pode fazer. Há algo que importa. Há algo que não é seu corpo, não é sua mente, não é sua solidão — é coletivo, é político, é a única coisa que permanece quando tudo mais desaba.

Descobri o que piora a minha enxaqueca: existir
— A autora, sobre a experiência de viver com dor crônica
Loucos só pioram a imagem da esquerda... Sou tão péssima, equivocada e flácida que não mereço tomar banho hoje
— A autora, sobre a autocensura imposta por medo político
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