Em uma clínica sem autorização no interior de São Paulo, a fotógrafa Roberta Correa foi a óbito após um procedimento estético que deveria ser rotineiro — e sua morte se tornou o centro de uma questão mais ampla sobre os limites da competência, da responsabilidade e do cuidado com a vida humana. A Justiça, ao pronunciar duas profissionais para o tribunal do júri, reconhece que há dúvidas suficientemente graves sobre o que foi feito, o que foi omitido e por quem — dúvidas que só um julgamento popular poderá, talvez, responder.
Biomédica e esteticista vão a júri por morte de fotógrafa em procedimento estético em SP
Dúvidas sobre o anestésico e o momento do socorro justificam o julgamento
Por que a juíza decidiu levar essas duas profissionais a julgamento e não o dentista?
A juíza encontrou evidências suficientes de que Vanuza e Isabela tiveram responsabilidade direta — elas aplicaram o anestésico, não tinham preparo, e há dúvidas sobre como prestaram socorro. Com o dentista, não há prova de que o anestésico que ele vendeu foi o mesmo usado em Roberta.
Mas isso é um ponto frágil, não é? Se não sabem qual anestésico foi usado, como podem ter certeza de nada?
Exatamente. Por isso a defesa de Vanuza está recorrendo. Ela argumenta que fez tudo conforme as normas técnicas e que acionou a emergência imediatamente.
E quanto à Isabela? Ela se passava por biomédica?
Há a possibilidade disso, segundo a acusação. Por isso ela responde também por falsidade ideológica, além do homicídio qualificado.
Mas "possibilidade" é diferente de prova. Isso vai ser importante no julgamento.
Roberta deixou filhos. Isso vai influenciar o júri?
O júri é composto por cidadãos comuns, então sim, a dimensão humana sempre pesa. Mas a decisão deve ser baseada em fatos.
E os fatos aqui são nebulosos — qual anestésico, quanto foi aplicado, quando exatamente o resgate foi acionado. Isso tudo vai ser discutido no julgamento.
Então ainda há muito a ser esclarecido.
Muito mesmo. A juíza identificou os pontos críticos, mas o julgamento é onde essas questões serão realmente examinadas.
The Pulse
- Uma parada cardíaca durante um procedimento estético tirou a vida de Roberta Correa em outubro de 2023, deixando marido viúvo e dois filhos órfãos de mãe.
- A juíza identificou falhas críticas: anestésico de tipo e quantidade incertos, profissionais sem preparo para emergências e controvérsia sobre o tempo de resposta ao socorro — a clínica ficava a apenas 350 metros de um hospital.
- A biomédica Vanuza Takata e a esteticista Isabela Fernandes serão julgadas por homicídio com dolo eventual qualificado por meio cruel, enquanto o dentista acusado de fornecer o anestésico foi excluído do júri por falta de provas.
- Isabela também responderá por falsidade ideológica, sob suspeita de ter se apresentado como biomédica sem o ser.
- As duas profissionais permanecem em liberdade, mas com passaportes retidos, exercício profissional suspenso e prazo para comprovar entrega de documentos ao conselho regulador.
- A defesa de Vanuza contesta a decisão, afirma que ela agiu dentro das normas e prestou socorro imediato, e anuncia recurso — especialmente contra a qualificação do crime.
Em uma clínica sem autorização no interior de São Paulo, a fotógrafa Roberta Correa foi a óbito após um procedimento estético que deveria ser rotineiro — e sua morte se tornou o centro de uma questão mais ampla sobre os limites da competência, da responsabilidade e do cuidado com a vida humana. A Justiça, ao pronunciar duas profissionais para o tribunal do júri, reconhece que há dúvidas suficientemente graves sobre o que foi feito, o que foi omitido e por quem — dúvidas que só um julgamento popular poderá, talvez, responder.
Em outubro de 2023, a fotógrafa Roberta Correa foi a uma clínica em Cosmópolis, no interior de São Paulo, para realizar um procedimento estético de remoção de gordura localizada chamado endolaser. Após receber anestesia, ela sentiu calafrios, desmaiou e sofreu uma parada cardíaca. Cinco dias depois, teve morte cerebral. Deixou dois filhos e o marido.
A Justiça determinou que a biomédica Vanuza Aguilar Takata e a esteticista Isabela Dourado Fernandes serão julgadas pelo tribunal do júri por homicídio com dolo eventual, qualificado por meio cruel. Isabela também responderá por falsidade ideológica, pela suspeita de ter se passado por biomédica. Um dentista que figurava como réu foi excluído do processo por insuficiência de provas — não foi possível demonstrar que o anestésico por ele intermediado foi o mesmo utilizado no procedimento.
A juíza Mayara Maria Oliveira Resende apontou três elementos centrais para a pronúncia: a imprecisão sobre o tipo e a quantidade de anestésico aplicado, o despreparo das profissionais para lidar com complicações previsíveis e a controvérsia sobre o momento em que o socorro foi acionado. A família de Roberta afirma que houve demora no chamado ao resgate — embora a clínica ficasse a cerca de 350 metros de um hospital. A defesa de Vanuza, por sua vez, sustenta que ela agiu dentro das normas técnicas e acionou os serviços de emergência imediatamente, e anuncia recurso contra a decisão.
As duas profissionais responderão em liberdade, mas com restrições severas: passaportes retidos, proibição de sair do país e suspensão do exercício profissional. O local onde Roberta foi atendida foi lacrado por operar sem autorização para procedimentos estéticos. Não há data definida para o julgamento.
Em outubro de 2023, a fotógrafa Roberta Correa entrou em uma clínica de Cosmópolis, no interior de São Paulo, para fazer um procedimento estético chamado endolaser, uma técnica para remover gordura localizada. Ela recebeu anestesia, começou a sentir calafrios, desmaiou e sofreu uma parada cardíaca. Cinco dias depois, teve morte cerebral. Deixou dois filhos e o marido.
Agora, a Justiça determinou que duas mulheres serão julgadas por sua morte. A biomédica Vanuza Aguilar Takata e a esteticista Isabela Dourado Fernandes irão a julgamento popular acusadas de homicídio com dolo eventual, qualificado por meio cruel. Isabela também responderá por falsidade ideológica, pela possibilidade de ter se passado por biomédica. Um dentista que também era réu, Heliton José Oliveira, não será levado a júri. Não há data definida para o julgamento.
A juíza Mayara Maria Oliveira Resende identificou três pontos críticos que justificam levar as duas profissionais ao tribunal do júri. Primeiro, há imprecisão sobre a quantidade e o tipo de anestésico que foi aplicado em Roberta. Segundo, as duas mulheres não tinham preparo adequado para lidar com o anestésico e não possuíam estrutura ou conhecimentos para enfrentar eventos previsíveis após a aplicação. Terceiro, há controvérsia sobre o momento em que os socorros foram prestados. A clínica fica a cerca de 350 metros da Santa Casa de Misericórdia de Cosmópolis, e a família de Roberta afirma que a biomédica demorou para pedir o resgate.
O Ministério Público havia apontado o dentista Heliton como a pessoa que forneceu o anestésico às profissionais. Mas a juíza determinou que não há indícios suficientes de sua participação no crime. Não há provas de que o anestésico comprado por Vanuza com intermediação de Heliton tenha sido exatamente aquele usado no procedimento de Roberta, e a acusação não conseguiu demonstrar de modo objetivo que Heliton teria vendido anestésicos a alguém inabilitado para usá-los.
Ambas as profissionais responderão em liberdade, mas com restrições. A Justiça manteve medidas que suspendem o exercício profissional de Vanuza e Isabela, as proíbem de se ausentar do país e retêm seus passaportes. Vanuza tem cinco dias para comprovar a entrega de sua carteira profissional ao cartório ou ao Conselho Regional de Biomedicina.
O advogado de Vanuza, João Paulo Sangion, disse que recebeu a decisão com surpresa. Segundo ele, a Justiça não considerou as provas produzidas pela defesa, que argumenta que a biomédica executou o procedimento dentro das normas técnicas exigidas e que suas ações não contribuíram para a morte de Roberta. O advogado também destacou que Vanuza prestou socorro imediato à vítima, acionando o serviço de emergência local imediatamente. Ele afirmou que vai recorrer, argumentando que a decisão de pronúncia é equivocada, principalmente na forma qualificada. A defesa de Isabela e de Heliton não retornou o contato da reportagem.
O local onde Roberta foi atendida foi lacrado após constatação de que não tinha autorização para realizar procedimentos estéticos. A responsável pelo imóvel onde ocorreu o atendimento afirma que aluga o espaço para profissionais de beleza e que cada um é responsável por sua prestação de serviço. A Polícia Civil instaurou inquérito e o Conselho Regional de Biomedicina da 1ª Região também iniciou apuração do caso. O Ministério Público afirmou que faltou assistência adequada à vítima e que não ficou esclarecido qual anestésico foi utilizado.
Notable Quotes
O procedimento executado por Vanuza não contribuiu para o resultado, nem tampouco Vanuza assumiu o risco de produzi-lo, pelo que a decisão de pronúncia é equivocada— João Paulo Sangion, advogado de Vanuza Aguilar Takata