Bilionários financiam candidatos rivais em estratégia de redução de risco eleitoral

Você acaba não influenciando o resultado porque está apoiando os dois
Cientista político explica o paradoxo de financiar candidatos rivais: reduz risco mas elimina poder de decisão.
Mark

Por que um bilionário doaria para candidatos que estão competindo diretamente um contra o outro?

Mimi

Porque garante acesso ao vencedor. Se você financia os dois lados, quem quer que ganhe, você tem uma linha direta com o poder.

Luke

Mas isso pressupõe que o doador não tem preferência real. Os dados mostram que Pedro doou um milhão para Elmano e um milhão para Ciro — valores iguais. Isso é estratégia ou coincidência?

Mimi

Provavelmente estratégia. Os irmãos Grendene têm onze fábricas no Ceará. Precisam de boas relações com o governo estadual independentemente de quem vencer.

Mark

Então isso é diferente de corrupção?

Mimi

Segundo especialistas, sim. Não há promessa de vantagem específica. É mais sobre manter um espaço de diálogo.

Luke

Mas o artigo cita que em 2014 a JBS doou 362 milhões de reais. Agora Rubens Ometto doou 6,1 milhões. Isso é redução real ou apenas porque a lei mudou?

Mimi

A lei mudou em 2015 — proibiu doações empresariais. Agora só pessoas físicas podem doar, com limites. É redução real.

Mark

E isso melhorou a política?

Mimi

Parcialmente. Mais mulheres e candidatos negros conseguem se eleger porque não dependem tanto de doadores privados. Mas quem tem capital ainda interfere mais.

Luke

O artigo não deixa claro qual é exatamente o limite de doação pessoa física. Sabemos que é menor que antes, mas qual é o número?

Mimi

O texto não especifica. Só diz que está dentro dos limites estabelecidos pela legislação.

Mark

Então esses bilionários estão fazendo algo ilegal?

Mimi

Não. Estão operando dentro da lei. O problema é que a lei permite que quem tem mais dinheiro tenha mais influência.

Luke

E quanto a Erasmo Battistella? Ele doou 500 mil para Lula e 500 mil para Bolsonaro. Isso é a mesma estratégia dos Grendene?

Mimi

Sim, mas em escala menor e em uma disputa presidencial, não estadual. O efeito é o mesmo: acesso garantido.

  • Os irmãos Grendene financiaram simultaneamente candidatos do PT e do PSDB ao governo do Ceará, onde mantêm onze fábricas e dezesseis mil empregos — uma aposta dupla em terreno eleitoralmente empatado.
  • Outros grandes doadores repetem a lógica: Battistella dividiu um milhão igualmente entre Lula e Flávio Bolsonaro, enquanto Carlos Suarez pulverizou quase seis milhões entre cinco partidos diferentes.
  • Especialistas alertam que financiar os dois lados reduz a capacidade de influenciar o resultado eleitoral, transformando o doador em garantidor de acesso, não em árbitro da disputa.
  • Desde a proibição das doações empresariais em 2015, os valores caíram drasticamente — dos R$ 362 milhões da JBS em 2014 para os R$ 6 milhões do maior doador pessoa física de 2026 —, mas a lógica relacional permanece intacta.
  • Transparência Brasil adverte que o dinheiro não compra favores explícitos, mas cria dívidas relacionais que garantem, no mínimo, uma cadeira à mesa do poder vencedor.

Nas eleições brasileiras de 2026, grandes fortunas privadas navegam a incerteza política não escolhendo lados, mas financiando todos eles. Bilionários como os irmãos Grendene distribuem milhões entre candidatos rivais — uma prática que revela menos convicção ideológica do que pragmatismo estratégico: garantir acesso ao poder independentemente de quem o ocupe. É uma forma antiga de sobrevivência econômica diante da política, agora reconfigurada dentro dos limites impostos pela proibição do financiamento empresarial direto em 2015.

Os irmãos Pedro e Alexandre Grendene Bartelle adotaram em 2026 uma estratégia que muitos bilionários brasileiros conhecem bem: financiar simultaneamente candidatos adversários. No Ceará, onde a Grendene mantém onze fábricas e dezesseis mil empregos, Pedro doou um milhão ao petista Elmano de Freitas e os dois irmãos dividiram outro milhão entre si para financiar Ciro Gomes, do PSDB — candidatos tecnicamente empatados nas pesquisas. No total, os Grendene já haviam desembolsado mais de R$ 7,4 milhões em 2026, distribuídos entre candidatos de PT, PL, PSDB, PSB, PDT, Novo e PSD.

Essa lógica não é exclusiva da família. Erasmo Battistella dividiu um milhão igualmente entre Lula e Flávio Bolsonaro. Rubens Ometto, do etanol, distribuiu mais de seis milhões entre múltiplos partidos. Carlos Suarez, o Rei do Gás, pulverizou quase R$ 5,7 milhões entre cinco legendas. Juntos, esses nomes encabeçam o ranking dos maiores doadores pessoa física de 2026 — uma lista que espelha uma racionalidade política bem distinta da que movia campanhas antes de 2015.

O cientista político Bruno Wilhelm Speck distingue duas motivações no financiamento eleitoral: influenciar o resultado ou garantir acesso ao vencedor. Quem financia os dois lados escolhe a segunda opção — e, ao fazê-lo, abdica da primeira. Juliana Sakai, da Transparência Brasil, lembra que essa prática já existia antes da proibição das doações empresariais: em 2014, a JBS distribuiu recursos entre Dilma, Marina e Aécio. Para ela, não se trata necessariamente de compra de favores, mas de uma dívida relacional que garante, no mínimo, espaço de diálogo com quem governar.

A proibição de 2015 mudou a escala, não a lógica. Os R$ 362 milhões da JBS naquele ano contrastam com os R$ 6 milhões do maior doador pessoa física de 2026 — uma redução expressiva. Mas especialistas advertem que quem tem mais capital ainda interfere mais no processo eleitoral, e que regras de autofinanciamento e tetos percentuais aprofundam desigualdades entre candidatos. O risco não foi eliminado; apenas redimensionado.

Os irmãos Pedro e Alexandre Grendene Bartelle enfrentam um dilema que muitos bilionários brasileiros conhecem bem: como garantir influência política independentemente de quem vença as eleições. Sua solução, em 2026, foi simples e reveladora. Na disputa pelo governo do Ceará, onde a Grendene mantém onze fábricas que empregam dezesseis mil pessoas, os dois financiaram simultaneamente Elmano de Freitas, candidato à reeleição pelo PT, e Ciro Gomes, ex-governador pelo PSDB. Elmano recebeu um milhão de reais de Pedro. Ciro embolsou outro milhão, dividido entre os dois irmãos: quinhentos mil de cada um. Os candidatos estavam tecnicamente empatados segundo a última pesquisa do Datafolha.

Essa estratégia não é exclusiva dos Grendene. Erasmo Carlos Battistella, empresário gaúcho do setor de biocombustíveis, dividiu um milhão de reais igualmente entre Luiz Inácio Lula da Silva e Flávio Bolsonaro — quinhentos mil para cada um dos principais candidatos à presidência. Rubens Ometto, bilionário do etanol que preside o conselho da Cosan, desembolsou seis milhões e um mil reais, distribuindo recursos entre múltiplos partidos. Carlos Suarez, conhecido como o Rei do Gás, gastou cinco milhões e setecentos mil reais em doações pulverizadas entre MDB, PSD, PSDB, PP e União Brasil. Esses nomes encabeçam a lista dos dez maiores doadores pessoa física de 2026, um ranking que reflete uma lógica política bem diferente daquela que movimentava campanhas antes de 2015.

Os irmãos Grendene já haviam doado mais de sete milhões e quatrocentos mil reais no total até outubro. Alexandre, com patrimônio estimado pela Forbes em doze bilhões e um milhão de reais, concentrou seu maior aporte — dois milhões e quinhentos mil — em Luciano Zucco, candidato ao governo do Rio Grande do Sul pelo PL. Mas também financiou candidatos do PSDB, PSB, PDT, Novo e PSD. Pedro, com fortuna de cinco bilhões e setecentos milhões, distribuiu três milhões e quinhentos mil entre seis candidatos de quatro partidos diferentes: PT, PL, PSB e PDT. Em 2022, ambos haviam doado valores maiores — seis milhões e três milhões respectivamente.

A história da Grendene explica parte dessa estratégia de diversificação. Fundada em 1971 em Farroupilha, no interior gaúcho, a empresa começou fabricando suportes plásticos para garrafões de vinho. Em 1979, os irmãos testaram a fabricação de calçados de plástico injetado e criaram a Melissa Aranha, uma sandália leve e barata que se tornou febre quando apareceu nos pés da personagem de Sônia Braga na novela Dancing Days. Décadas depois, a marca Ipanema chegou ao mercado com Gisele Bündchen como garota-propaganda, consolidando terreno no Brasil enquanto a Havaianas mirava o exterior. Mas o grosso da produção foi transferido para o Ceará nos anos noventa. Hoje a empresa fatura um bilhão e quatrocentos milhões de reais em receita bruta no primeiro semestre de 2026.

O cientista político Bruno Wilhelm Speck explica que essa distribuição de recursos entre adversários revela duas motivações distintas. A primeira é aumentar as chances de vitória de um candidato ou grupo político — nesse caso, concentrar recursos em um único lado faria sentido. A segunda é manter boas relações com o governo que sair das urnas, o que leva o doador a financiar ambos os lados. Essas motivações entram em conflito. Se você quer maximizar o sucesso eleitoral, deve financiar um lado. Mas ao apoiar candidatos de campos opostos, você reduz sua capacidade de alterar o resultado da disputa e aumenta a possibilidade de manter acesso ao poder independentemente de quem vencer. Como Speck coloca: você acaba não influenciando o resultado eleitoral porque está apoiando os dois.

Juliana Sakai, diretora da Transparência Brasil, lembra que essa prática de financiar ambos os lados não é nova. Antes da proibição do financiamento empresarial em 2015, grandes empresas contribuíam simultaneamente para PT e PSDB, às vezes em valores iguais, às vezes um pouco maiores para um dos lados. Em 2014, a JBS dos irmãos Joesley e Wesley Batista distribuiu verba aos principais concorrentes ao Palácio do Planalto: Dilma Rousseff, Marina Silva e Aécio Neves. Para Sakai, isso não configura necessariamente compra de favores, mas cria uma dívida relacional. Não há promessa de vantagem específica, mas o dinheiro garante, no mínimo, um espaço de diálogo.

A mudança de 2015 foi profunda. A proibição das doações empresariais alterou não apenas o peso do dinheiro privado nas eleições, mas a distribuição de poder dentro dos próprios partidos. Até então, empresas destinavam recursos diretamente às candidaturas, dando aos candidatos maior autonomia. Agora, o dinheiro público é distribuído aos partidos, que decidem como repassá-lo — seguindo regras como cotas para mulheres e candidatos negros. Os diretórios nacionais ganharam peso não apenas na relação com candidatos, mas também com estruturas estaduais.

Mas o dinheiro privado não desapareceu. Empresários passaram a fazer doações como pessoas físicas, dentro dos limites legais. A escala, porém, mudou drasticamente. A JBS, campeã em 2014, doou trezentos e sessenta e dois milhões de reais. Rubens Ometto, o maior doador pessoa física de 2026, desembolsou seis milhões e um mil — uma redução significativa. Segundo Speck, estamos claramente em outro patamar. O risco da influência econômica não foi eliminado, mas está longe daqueles valores estratosféricos. Ainda assim, especialistas alertam que quem tem mais capital consegue interferir mais no processo eleitoral, e que regras de autofinanciamento e tetos de doação percentuais aprofundam desigualdades entre candidatos.

Se você quer maximizar o sucesso eleitoral, deve financiar um lado. Ao apoiar candidatos de campos opostos, você reduz sua capacidade de alterar o resultado, mas aumenta a possibilidade de manter acesso ao poder independentemente de quem vencer.
— Bruno Wilhelm Speck, cientista político
Não estamos falando de corrupção, ninguém está prometendo uma vantagem específica. Mas é um dinheiro que está ali e que garante, no mínimo, um espaço de diálogo com aquela pessoa.
— Juliana Sakai, diretora da Transparência Brasil
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