Os irmãos Alexandre e Pedro Grendene Bartelle doaram R$ 7,4 milhões a candidatos em 2026, financiando simultaneamente Elmano (PT) e Ciro Gomes (PSDB) no Ceará. Especialistas explicam que apoiar candidatos adversários reduz influência eleitoral mas garante acesso ao poder vencedor, diferente de concentrar recursos em um único lado.
Bilionários distribuem milhões entre adversários nas eleições de 2026
Financiar os dois lados reduz influência, mas garante acesso
Por que esses bilionários doam para candidatos que estão competindo um contra o outro? Parece contraditório.
Não é contraditório se você pensar em termos de risco. Se você aposta tudo em um candidato e ele perde, você fica isolado do novo governo. Mas se você financia os dois, você tem acesso garantido a quem vencer.
Mas isso pressupõe que as doações realmente garantem acesso. Quanto disso é confirmado versus quanto é suposição dos especialistas?
Os especialistas falam em "espaço de diálogo" e "relação de dívida", não em promessas explícitas. É mais sutil que corrupção direta.
E quanto à escala? Os números de agora são menores que em 2014, certo?
Muito menores. A JBS doou R$ 362 milhões em 2014. Rubens Ometto, o maior doador de 2026, doou R$ 6,1 milhões. É uma redução drástica.
Mas a pergunta é: uma redução de escala significa uma redução de influência? Ou apenas que a influência agora é distribuída entre mais doadores pessoa física?
Boa pergunta. Os especialistas dizem que o risco persiste, mas em "outro andar". Não desapareceu.
E as mulheres e candidatos negros? Como ficam nesse sistema?
Pior. Estudos mostram que candidatas negras dependem muito mais de financiamento público — cerca de R$ 95 a cada R$ 100 arrecadados. Homens conseguem diversificar mais suas fontes.
Então a proibição de doações empresariais ajudou mulheres e negros a competir mais igualmente?
Ajudou, mas não resolveu. A representação feminina na Câmara cresceu de 10% para 15% entre 2014 e 2018, mas depois desacelerou. E quem tem dinheiro no início da campanha ainda consegue estruturar melhor.
Le Pouls
- Os irmãos Grendene doaram R$ 7,4 milhões em 2026, financiando simultaneamente Elmano (PT) e Ciro Gomes (PSDB) no Ceará
- A Grendene mantém 11 fábricas no Ceará e emprega cerca de 16 mil pessoas
- Em 2014, a JBS doou R$ 362 milhões; em 2026, o maior doador pessoa física doou R$ 6,1 milhões
- Candidatas negras dependem de R$ 95 de cada R$ 100 arrecadados de fontes públicas; homens dependem de R$ 86
Os irmãos Alexandre e Pedro Grendene Bartelle doaram R$ 7,4 milhões a candidatos em 2026, financiando simultaneamente Elmano (PT) e Ciro Gomes (PSDB) no Ceará. Especialistas explicam que apoiar candidatos adversários reduz influência eleitoral mas garante acesso ao poder vencedor, diferente de concentrar recursos em um único lado.
Grandes doadores como os irmãos Grendene distribuem milhões entre candidatos de partidos opostos nas eleições de 2026, adotando estratégia de redução de risco político independentemente do resultado.
Os irmãos Alexandre e Pedro Grendene Bartelle, donos da Grendene — uma das maiores fabricantes de calçados do Brasil — fizeram uma aposta inusitada na disputa pelo governo do Ceará em 2026: financiaram simultaneamente os dois principais candidatos. Elmano de Freitas, do PT, recebeu R$ 1 milhão de Pedro. Ciro Gomes, do PSDB, embolsou outros R$ 1 milhão da dupla: R$ 500 mil de cada irmão. Os dois candidatos estavam tecnicamente empatados segundo a última pesquisa do Datafolha.
Essa estratégia não é isolada. Os irmãos gaúchos, com patrimônios estimados em R$ 12,1 bilhões (Alexandre) e R$ 5,7 bilhões (Pedro) pela revista Forbes, distribuíram mais de R$ 7,4 milhões entre candidatos de 2026. Alexandre doou R$ 3,9 milhões para seis candidatos de seis partidos diferentes — PL, PSDB, PSB, PDT, Novo e PSD. Pedro contribuiu R$ 3,5 milhões para seis candidatos de quatro partidos: PT, PL, PSB e PDT. Em 2022, suas doações haviam sido maiores: R$ 6,3 milhões e R$ 6 milhões, respectivamente.
A Grendene nasceu em 1971 em Farroupilha, no interior gaúcho, quando os irmãos começaram fabricando suportes plásticos para garrafões de vinho. O negócio mudou em 1979, quando decidiram testar calçados de plástico injetado. A Melissa Aranha, uma sandália leve e barata, virou febre ao aparecer nos pés da personagem de Sônia Braga na novela Dancing Days. Décadas depois, a marca Ipanema chegou com Gisele Bündchen como garota-propaganda, consolidando terreno no Brasil com marketing emocional e preço acessível, enquanto a Havaianas mirava o mercado internacional.
Mas por que tanto investimento político no Ceará, se a empresa nasceu no Rio Grande do Sul? A resposta está na geografia industrial. Nos anos 1990, a Grendene transferiu o grosso da produção para o Ceará, onde hoje mantém 11 fábricas: seis em Sobral, duas em Fortaleza, duas em Crato, além de uma fábrica de PVC e centros de distribuição na região. A empresa emprega cerca de 16 mil pessoas e, no primeiro semestre de 2026, faturou R$ 1,4 bilhão em receita bruta. Essa presença maciça explica o interesse político dos irmãos no Estado.
Especialistas chamam essa prática de estratégia de redução de risco. O cientista político Bruno Wilhelm Speck explica que há duas motivações distintas por trás das doações: aumentar as chances de vitória de um candidato ou grupo político — o que levaria a concentrar recursos em um único lado — ou manter boas relações com o governo que sair das urnas, o que pode levar o doador a distribuir dinheiro entre adversários. "Se você quer maximizar o sucesso eleitoral, você deve financiar um lado", afirma Speck. Mas ao apoiar candidatos de campos opostos, um empresário reduz sua capacidade de alterar o resultado da disputa e aumenta a possibilidade de manter acesso ao poder independentemente de quem vencer.
O empresário gaúcho Erasmo Carlos Battistella, do setor de biocombustíveis, adotou essa mesma estratégia nestas eleições: doou R$ 1 milhão dividido igualmente entre as campanhas de Lula (PT) e Flávio Bolsonaro (PL), com R$ 500 mil para cada um dos principais candidatos à presidência. Ele é um dos principais doadores de ambas as chapas, segundo registros do Tribunal Superior Eleitoral.
Juliana Sakai, diretora da Transparência Brasil, lembra que essa prática já era vista antes da proibição do financiamento empresarial em 2015. Em 2014, a JBS dos irmãos Joesley e Wesley Batista distribuiu verba aos principais concorrentes ao Palácio do Planalto: Dilma Rousseff (PT), Marina Silva (então no PSB) e Aécio Neves (PSDB). Para Sakai, isso não configura necessariamente compra de favores, mas cria uma dívida relacional. "Não estamos falando de corrupção, ninguém está prometendo uma vantagem específica. Mas é um dinheiro que está ali e que garante, no mínimo, um espaço de diálogo com aquela pessoa."
A proibição das doações empresariais em 2015 alterou profundamente o cenário. A JBS, campeã do financiamento eleitoral em 2014, doou R$ 362 milhões naquele pleito. Neste ano, o maior doador pessoa física, Rubens Ometto, desembolsou R$ 6,1 milhões. Segundo Speck, essa é uma redução significativa — os doadores agora operam na casa dos 10 milhões, não nos valores estratosféricos de antes. Mas o risco da influência econômica não foi eliminado. "Estamos claramente no outro andar agora", diz o cientista político. "Não estamos naqueles valores estratosféricos."
Citations marquantes
Se você quer maximizar o sucesso eleitoral, você deve financiar um lado. Ao apoiar candidatos de campos opostos, você reduz sua capacidade de alterar o resultado, mas aumenta a possibilidade de manter acesso ao poder independentemente de quem vencer.— Bruno Wilhelm Speck, cientista político
Não estamos falando de corrupção, ninguém está prometendo uma vantagem específica. Mas é um dinheiro que está ali e que garante, no mínimo, um espaço de diálogo com aquela pessoa.— Juliana Sakai, diretora da Transparência Brasil