Os irmãos Alexandre e Pedro Grendene Bartelle, donos da fabricante de calçados Grendene, doaram R$ 1 milhão cada para candidatos rivais ao governo do Ceará: PT e PSDB. Especialistas explicam que financiar candidatos de campos opostos reduz influência eleitoral mas garante acesso ao poder independentemente de quem vencer as eleições.
Bilionários da Grendene financiam candidatos rivais no Ceará e em outros Estados
Eu acabo não influenciando o resultado eleitoral, porque eu tô apoiando os dois
Por que dois candidatos rivais recebem dinheiro dos mesmos doadores? Isso não deveria ser contraditório?
Não necessariamente. É uma estratégia bem calculada. Se você financia os dois lados, garante acesso ao poder independentemente de quem vencer. É redução de risco.
Mas isso só funciona se os valores forem equilibrados. Os Grendene doaram R$ 1 milhão para cada candidato no Ceará — é realmente neutro ou há uma preferência implícita?
Ótima pergunta. A reportagem não deixa claro se há preferência. O que sabemos é que ambos receberam valores iguais.
E por que os Grendene se importam tanto com o Ceará? Eles são do Rio Grande do Sul.
Porque a empresa transferiu a produção para lá nos anos 1990. Hoje mantém 11 fábricas no Estado e emprega 16 mil pessoas. Seus interesses são muito reais.
Mas a reportagem não diz explicitamente que as doações estão ligadas a políticas específicas que a Grendene quer. É tudo inferência.
Verdade. A empresa foi procurada para comentar os critérios das doações, mas não respondeu.
Isso mudou muito desde que as empresas deixaram de poder doar diretamente?
Mudou a escala. Em 2014, a JBS doou R$ 362 milhões. Agora o maior doador pessoa física doou R$ 6,1 milhões. É uma redução significativa.
Mas ainda há influência. Só que agora é mais difícil rastrear porque está pulverizada em doações individuais.
Exatamente. O risco de influência econômica não desapareceu, apenas mudou de forma.
Então a proibição de doações empresariais não resolveu o problema?
Resolveu em parte. Reduziu os valores, mas o dinheiro privado ainda flui. Agora é questão de escala e transparência.
Il Polso
- Irmãos Grendene doaram R$ 1 milhão cada para candidatos rivais ao governo do Ceará (PT e PSDB)
- Grendene mantém 11 fábricas no Ceará e emprega 16 mil pessoas
- Doações pessoa física em 2026 chegam a milhões; em 2014, JBS doou R$ 362 milhões como empresa
- Alexandre Grendene tem patrimônio de R$ 12,1 bilhões; Pedro de R$ 5,7 bilhões
Os irmãos Alexandre e Pedro Grendene Bartelle, donos da fabricante de calçados Grendene, doaram R$ 1 milhão cada para candidatos rivais ao governo do Ceará: PT e PSDB. Especialistas explicam que financiar candidatos de campos opostos reduz influência eleitoral mas garante acesso ao poder independentemente de quem vencer as eleições.
Empresários bilionários como os irmãos Grendene doam milhões para candidatos de partidos rivais nas eleições de 2026, adotando estratégia de redução de risco político independentemente do resultado.
No coração da disputa pelo governo do Ceará, dois candidatos que deveriam estar em campos opostos compartilham algo inesperado: ambos receberam dinheiro dos mesmos doadores. Elmano de Freitas, que busca reeleição pelo PT, embolsou R$ 1 milhão de Pedro Grendene. Seu rival, o ex-governador Ciro Gomes, do PSDB, recebeu R$ 1 milhão também — R$ 500 mil de Pedro e R$ 500 mil de seu irmão Alexandre. Os dois candidatos estão tecnicamente empatados segundo a última pesquisa Datafolha.
Os irmãos Grendene Bartelle, bilionários gaúchos que comandam uma das maiores fabricantes de calçados do país, já desembolsaram mais de R$ 7,4 milhões em doações para candidatos nas eleições de 2026. A Grendene, dona de marcas como Melissa, Rider e Ipanema, é um império que começou de forma modesta: em 1971, em Farroupilha, no interior do Rio Grande do Sul, os irmãos fabricavam suportes plásticos para garrafões de vinho. A virada veio em 1979, quando decidiram testar calçados de plástico injetado. A Melissa Aranha, uma sandália leve e barata, virou febre quando apareceu nos pés da personagem de Sônia Braga na novela Dancing Days. Décadas depois, a marca Ipanema chegaria ao mercado com Gisele Bündchen como garota-propaganda, consolidando terreno no Brasil enquanto a Havaianas mirava o exterior.
Mas por que dois bilionários gaúchos investem tanto dinheiro em campanhas no Ceará? A resposta está na geografia industrial. Nos anos 1990, a Grendene transferiu o grosso da produção para o Ceará, onde hoje mantém 11 fábricas: seis em Sobral, duas em Fortaleza, duas em Crato, além de uma fábrica de PVC e centros de distribuição na região. A empresa emprega cerca de 16 mil pessoas e, no primeiro semestre de 2026, faturou R$ 1,4 bilhão em receita bruta. Seus interesses políticos no Estado nordestino, portanto, não são abstratos.
Alexandre Grendene, com patrimônio estimado pela Forbes em R$ 12,1 bilhões, distribuiu mais de R$ 3,9 milhões a seis candidatos de seis partidos diferentes. Seu maior aporte foi R$ 2,5 milhões para Luciano Zucco, candidato ao governo do Rio Grande do Sul pelo PL. Pedro, com fortuna de R$ 5,7 bilhões, doou R$ 3,5 milhões no total, patrocinando seis candidatos de quatro partidos. Em 2022, suas contribuições haviam sido maiores: R$ 6,3 milhões de Alexandre e R$ 6 milhões de Pedro.
Essa estratégia de financiar candidatos rivais não é exclusiva dos Grendene. O empresário gaúcho Erasmo Carlos Battistella, do setor de biocombustíveis, doou R$ 1 milhão dividido igualmente entre as campanhas de Lula e Flávio Bolsonaro — R$ 500 mil para cada um dos principais candidatos à presidência. Segundo o cientista político Bruno Wilhelm Speck, há duas motivações distintas por trás dessas doações. A primeira é aumentar as chances de vitória de um candidato ou grupo político, o que levaria a concentrar recursos em um único lado. A segunda é manter boas relações com o governo que sair das urnas, independentemente de quem vença. Ao apoiar candidatos de campos opostos, um empresário reduz sua capacidade de alterar o resultado da disputa, mas aumenta a possibilidade de manter acesso ao poder. "Eu acabo não influenciando o resultado eleitoral, porque eu tô apoiando os dois", explica Speck.
Essa prática não é nova. Antes da proibição do financiamento empresarial em 2015, grandes empresas como a JBS doavam simultaneamente para PT e PSDB, às vezes em valores iguais, às vezes um pouco maiores para um dos lados. Em 2014, a JBS distribuiu verba aos principais concorrentes ao Palácio do Planalto: Dilma Rousseff, Marina Silva e Aécio Neves. Para Juliana Sakai, diretora da Transparência Brasil, isso não configura necessariamente compra de favores, mas cria uma dívida relacional. "Não estamos falando de corrupção, ninguém está prometendo uma vantagem específica. Mas é um dinheiro que está ali e que garante, no mínimo, um espaço de diálogo com aquela pessoa."
Com a proibição das doações empresariais em 2015, o financiamento privado não desapareceu — apenas mudou de forma. Empresários passaram a fazer doações como pessoas físicas, dentro dos limites estabelecidos pela legislação. Os valores atuais podem parecer elevados, mas estão em outra escala quando comparados ao passado. A JBS, campeã do financiamento em 2014, doou R$ 362 milhões naquele pleito. Neste ano, o maior doador pessoa física, Rubens Ometto, desembolsou R$ 6,1 milhões. "Esses doadores doam agora num patamar inferior, na casa dos 10 milhões. É uma redução significativa", afirma Speck. Mas isso não significa que o risco de influência econômica tenha sido eliminado. O dinheiro privado ainda flui pelas campanhas, apenas em quantidades menores, operando agora em outro andar — ainda alto, mas não nos valores estratosféricos de antes.
Citazioni salienti
Não estamos falando de corrupção, ninguém está prometendo uma vantagem específica. Mas é um dinheiro que está ali e que garante, no mínimo, um espaço de diálogo com aquela pessoa.— Juliana Sakai, diretora da Transparência Brasil
Esses doadores doam agora num patamar inferior, na casa dos 10 milhões. É uma redução significativa.— Bruno Wilhelm Speck, cientista político