Bienal Walk&Talk estreia hoje com tema 'Gestos de Abundância'

O trabalho foi construído trabalhando com e dentro do território
Liliana Coutinho explica como a bienal envolve artistas locais e histórias que já existem nos Açores.

Em Ponta Delgada, uma ilha no meio do Atlântico recebe esta noite a sua primeira Bienal Walk&Talk, nascida da transformação de um festival que, desde 2011, foi tecendo laços entre arte e comunidade. Sob o tema 'Gestos de Abundância', curadores de Toronto, Dakar e Lisboa uniram-se à equipa local para construir, ao longo de dois anos, um projeto que não apenas expõe obras mas interroga o que significa habitar uma geografia de cruzamento entre mundos. É um salto de fé que convida São Miguel — e o Atlântico inteiro — a pensar-se como lugar de encontro e não de margem.

  • Um festival de catorze anos reinventa-se como bienal, assumindo uma ambição internacional que exige novos parceiros, novos financiamentos e uma nova escala de responsabilidade perante a comunidade.
  • A curadoria a quatro vozes — entre Toronto, Dakar, Lisboa e os Açores — gerou tensões produtivas sobre como mapear geografias africanas e europeias sobre um arquipélago que muitos artistas mal conheciam.
  • Residências, assembleias e dois anos de conversas foram o método escolhido para que os artistas chegassem à ilha não como visitantes, mas como interlocutores do território e das suas histórias.
  • A abertura desta noite às 17h30 é o culminar visível de um processo invisível: exposições espalhadas por seis espaços em São Miguel, performances, concertos e um jantar que celebra todos os que tornaram possível este caminho.
  • Com um orçamento de 600 mil euros ao longo de dois anos e um programa de mediação financiado pela Fundação 'La Caixa', a bienal aposta em que a arte não fique fechada nas galerias mas chegue às pessoas da ilha.

A Bienal Walk&Talk inaugura esta noite em Ponta Delgada com o tema 'Gestos de Abundância', marcando a transformação de um festival criado em 2011 pela associação Anda&Fala numa bienal de ambição internacional. A abertura acontece pelas 17h30 com a Casa da Bienal e um jantar coletivo, dando início a um programa que se estende por três momentos ao longo dos meses seguintes: a semana de abertura, um simpósio em novembro e um encerramento no final desse mês.

A curadoria é partilhada por Jesse James, Claire Shea, Fatima Bintou Rassoul Sy e Liliana Coutinho — vozes de Toronto, Dakar e Lisboa que trabalharam lado a lado com a equipa local. O processo foi construído sobre residências e assembleias onde se discutiram temas, se mapearam geografias e se convidaram artistas cujo trabalho dialogava com as ideias que iam emergindo coletivamente. Para muitos, a posição estratégica dos Açores no meio do Atlântico revelou-se um ponto de partida fértil para explorar narrativas entre a Europa e África.

A exposição distribui-se por seis espaços na ilha de São Miguel — da Casa da Bienal ao Convento dos Franciscanos, passando pelo Arquipélago - Centro de Artes Contemporâneas e pelo Caloura. Além das mostras, o programa inclui performances, concertos e momentos de reflexão. A bienal integra jovens artistas açorianos e nomes de gerações anteriores como Carlos Carreiro, Ana Vieira e Catarina Branco, num gesto deliberado de reconhecimento do território que a acolhe.

O financiamento, que totaliza cerca de 600 mil euros ao longo de dois anos, combina o apoio quadrianual do Ministério da Cultura, contribuições de direções regionais, o suporte da Câmara Municipal de Ponta Delgada e fundações como a 'La Caixa', que financia o Programa Sintonizar — o braço de mediação que procura abrir a bienal à comunidade durante os dois meses de programa. Para os curadores, chegar a esta noite de abertura é, acima de tudo, descobrir que conversas nascerão do encontro entre as obras e as pessoas que as recebem.

A Bienal Walk&Talk abre as portas hoje à noite em Ponta Delgada, marcando um momento de transformação para um festival que começou em 2011 como um encontro menor e cresceu até se tornar referência nos Açores. O tema que orienta esta estreia como bienal é "Gestos de Abundância", e o evento está organizado pela associação cultural Anda&Fala, com curadoria de Jesse James, Claire Shea, Fatima Bintou Rassoul Sy e Liliana Coutinho. A inauguração acontece por volta das 17h30 com a abertura da Casa da Bienal e um jantar que reúne todos os que contribuíram para este caminho. Jesse James, diretor artístico da Anda&Fala, explica que a bienal não surge do vazio — houve um ano inteiro de ações, assembleias e projetos que culminam nesta semana de abertura, com apresentações distribuídas pelo fim de semana.

O evento estrutura-se em três momentos: a abertura que decorre até domingo, um simpósio entre 7 e 9 de novembro, e um encerramento entre 28 e 30 de novembro. A exposição "Gestos de Abundância" espalha-se pela ilha de São Miguel em vários espaços — a Casa da Bienal, o Centro Municipal de Cultura, o Arquipélago - Centro de Artes Contemporâneas, o Caloura, o Convento dos Franciscanos e a Galeria Fonseca Macedo. Para além das exposições, haverá performances, concertos, exibições e momentos de reflexão, mas também de celebração e convívio. James sublinha que a bienal é sobre estar junto, sobre reunir pessoas e criar espaço para pensar o que é a região, o que é o Atlântico e como se relaciona com outras geografias.

A transição de festival para bienal representa uma evolução natural do projeto, segundo James, mas também um salto de fé. O Walk&Talk nasceu em 2011 e foi crescendo ao longo dos anos, unindo artistas e comunidade local. Agora, como bienal, o projeto ambiciona posicionar-se de forma diferente, relacionando-se com outras geografias, instituições e parceiros. O processo de construção foi profundamente colaborativo. Claire Shea, curadora de Toronto, descreve um trabalho que começou com residências importantes para conhecer a ilha e a equipa, seguido de assembleias onde se discutiram temas que poderiam conduzir à bienal. Depois, desenvolveram o conceito através de mais residências e começaram a convidar artistas cujo trabalho se alinhava com as ideias que estavam a pensar coletivamente.

Fatima Bintou Rassoul Sy, de Dakar, conta que os artistas chegaram animados para vir aos Açores e compreender o contexto da bienal. Muitos disseram sim porque já conheciam o festival Walk&Talk há muito tempo. Para outros, foi mais desafiante mapear a geografia dos Açores com a sua própria, mas a posição estratégica das ilhas no meio do Oceano Atlântico trouxe narrativas e histórias diferentes que se revelaram muito interessantes de explorar. Um elemento fundamental foi garantir que a bienal crescesse sem que a missão divergisse quando se tratava da comunidade e da população de São Miguel. Liliana Coutinho, de Lisboa, salienta que alguns artistas colaboram pela primeira vez com a organização. Os convites foram pensados na pesquisa que cada artista estava a fazer, e embora viessem de contextos muito diferentes — europeus, africanos e outros — todos se adaptaram bem aos Açores. As residências foram cruciais para que pudessem passar tempo na ilha, viver a experiência e depois trabalhar sobre as conversas que tiveram.

O trabalho foi construído não apenas trazendo artistas de fora, mas trabalhando com e dentro do território, com as histórias que já estão ali. A bienal também trabalha com jovens artistas dos Açores, mantendo uma prática que o festival e a Vaga têm feito há muito tempo. Ao mesmo tempo, inclui artistas de outras gerações, como Carlos Carreiro, Ana Vieira e Catarina Branco. James reforça que foi uma forma de reconhecer essas diferentes gerações de artistas açorianos e incluí-los na bienal através de conversas e diálogos com outros trabalhos. Os curadores esperam muitos encontros nestes dias de abertura. Liliana Coutinho reflete que é muito interessante chegar a este momento após dois anos de planeamento, poder oferecer a experiência ao público de São Miguel e aos que vêm propositadamente para a bienal, e ver como será recebido e que conversas acontecerão.

O financiamento da bienal vem de várias fontes. A estrutura Anda&Fala recebe financiamento quadrianual do Ministério da Cultura através da Direção-Geral das Artes, o que permite sustentar e criar a base para a construção da bienal. Há ainda financiamentos específicos angariados para este projeto através de várias direções regionais e departamentos, apoio da Câmara Municipal de Ponta Delgada como cidade anfitriã, e apoios de fundações como a Fundação "La Caixa", que permite investimento no Programa Sintonizar — o programa de mediação da bienal que gera espaços de convite e inclusão de pessoas ao longo dos dois meses. O orçamento total da bienal ao longo de dois anos é cerca de 600 mil euros. Fatima Bintou Rassoul Sy deixa um agradecimento às pessoas que acompanham desde 2023, à Vaga que foi fundamental no acolhimento, e à comunidade que dá abertura para investigar diferentes tópicos e para que a bienal aconteça.

A bienal não surge do nada — houve um ano inteiro de ações, assembleias e projetos que culminam nesta semana de abertura
— Jesse James, diretor artístico da Anda&Fala
Os Açores têm uma posição estratégica muito geográfica, no meio do Oceano Atlântico, o que traz narrativas e histórias diferentes
— Fatima Bintou Rassoul Sy, curadora de Dakar
The Hearth Conversation Another angle on the story
Inventor

Como é que um festival que começou em 2011 chega a este ponto de se transformar em bienal?

Model

Não foi uma decisão repentina. O Walk&Talk foi crescendo naturalmente, unindo artistas e comunidade. Agora, como bienal, é uma evolução desse caminho — uma forma de se posicionar de maneira diferente, de se relacionar com outras geografias e instituições.

Inventor

E como é que curadores de Toronto, Dakar e Lisboa conseguem trabalhar juntos num projeto nos Açores?

Model

Através de residências e assembleias. Não se conheciam bem no início, mas passaram tempo aqui, conversaram sobre temas que poderiam conduzir à bienal, e desenvolveram o conceito coletivamente. As residências foram cruciais para conhecer a ilha e a equipa.

Inventor

Os artistas convidados sentiram-se intimidados pela geografia isolada das ilhas?

Model

Alguns acharam desafiante mapear os Açores com a sua própria geografia. Mas essa posição estratégica no meio do Atlântico trouxe narrativas diferentes que se revelaram muito interessantes de explorar. No fim, todos se adaptaram bem.

Inventor

Qual é a diferença entre trazer artistas de fora e trabalhar com artistas locais?

Model

Não é uma questão de escolher um ou outro. O trabalho foi construído trazendo artistas de fora, mas também trabalhando com e dentro do território, com as histórias que já estão aqui. Incluem-se jovens artistas e gerações mais antigas de criadores açorianos.

Inventor

O que é que 600 mil euros em dois anos conseguem fazer?

Model

Permitem financiar residências, performances, exposições em vários espaços, um programa de mediação e inclusão comunitária. Mas também permitem que os projetos dos artistas se desenvolvam, se aprofundem e se materializem de verdade.

Inventor

E se ninguém aparecer na abertura?

Model

Os curadores estão curiosos para ver como será recebido, que conversas acontecerão. Mas a comunidade tem estado envolvida desde 2023. A Vaga, as instituições locais, a Universidade dos Açores — todos estão presentes neste caminho.

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