Bets demitem funcionários após veto do governo a apostas online

Pelo menos 36 bets iniciaram demissões em massa, afetando milhares de trabalhadores diretos e indiretos, com H2Bet dispensando 170 funcionários e Rivalo desligando quase toda sua equipe.
O pior dia de 28 anos empreendendo nessa selva
Diretor da H2Bet descreve o impacto do veto após dispensar 170 de 270 funcionários.
Mark

Como é que 36 empresas conseguem demitir tanta gente de uma vez? Não há aviso prévio, negociação?

Mimi

Há aviso prévio, sim. Mas quando o governo veta uma atividade inteira, a empresa não tem como manter a folha de pagamento. A H2Bet tinha 270 funcionários e perdeu sua fonte de receita de um dia para o outro.

Luke

Mas espera — a H2Bet vai manter o clube de pôquer físico. Então a empresa não desapareceu, só a operação online. Quantos desses 170 demitidos poderiam ter sido realocados para o clube?

Mimi

Boa pergunta. A reportagem não detalha isso. Sabemos que a empresa mantém operações no clube, mas não sabemos quantos postos de trabalho isso representa.

Mark

E quanto aos fornecedores? A Alob Sports perdeu clientes de uma vez.

Mimi

Exatamente. É um efeito em cascata. Cenografia, segurança, promoção de eventos — tudo que girava em torno das bets parou.

Luke

Mas a Alob Sports não foi proibida. Ela poderia, em tese, trabalhar com outras coisas. Por que desligou funcionários?

Mimi

Porque seus contratos eram com as bets. Quando as bets pararam, os contratos foram suspensos. A empresa não tinha outras fontes de receita.

Mark

Qual é o tamanho real do setor? Dez mil pessoas é muito ou pouco?

Mimi

Segundo estudo da LCA, dez mil empregos diretos e cinco mil indiretos. Para comparação, é um setor pequeno, mas concentrado.

Luke

Mas quem encomendou esse estudo? As próprias bets. Então há interesse em inflar os números para parecer que o veto causou dano maior.

Mimi

Verdade. Não temos confirmação independente desses números. Mas mesmo que sejam menores, o impacto é real — a H2Bet dispensou 170 pessoas.

Mark

E se o veto for revertido na Justiça, as empresas reabrem e recontratam?

Mimi

Alguns executivos dizem que não. Que mesmo com reversão, as bets menores não conseguem se recuperar. A insegurança jurídica já fez dano.

Luke

Mas isso é especulação. Nenhuma empresa foi permanentemente fechada ainda. Estamos falando de suspensão, não de encerramento.

  • A medida provisória 1.394 de 2026 suspendeu as operações das bets de um dia para o outro, deixando trabalhadores sem emprego antes mesmo de qualquer decisão judicial definitiva.
  • Empresas como H2Bet e Rivalo dispensaram entre 60% e quase 100% de seus quadros em questão de dias, enquanto o efeito em cascata atingiu fornecedores, agências de eventos e startups do ecossistema.
  • O setor emprega diretamente cerca de 10 mil pessoas no Brasil e outras 5 mil de forma indireta — números que agora estão em colapso acelerado, especialmente entre as empresas de pequeno e médio porte.
  • Grandes plataformas multinacionais como Betano e Superbet seguram seus times, mas executivos alertam que bets menores sem reservas em caixa devem encerrar operações permanentemente, mesmo que o veto seja revertido na Justiça.
  • A insegurança jurídica é descrita pelo setor como um 'golpe fatal': mesmo uma eventual vitória nos tribunais não desfaz os contratos rescindidos, os talentos dispersos e a confiança destruída.

Quando um governo decide redesenhar os contornos de um mercado por decreto, são os trabalhadores comuns que primeiro sentem o peso da mudança. A medida provisória que suspendeu as apostas online no Brasil transformou, em poucos dias, escritórios movimentados em salas vazias — ao menos 36 das 188 bets autorizadas iniciaram demissões em massa, afetando diretamente milhares de pessoas que construíram carreiras num setor que o próprio Estado havia reconhecido e regulamentado. O que está em jogo agora não é apenas a sobrevivência de empresas, mas a pergunta mais antiga do capitalismo regulado: quem arca com o custo da incerteza jurídica?

Na semana seguinte ao veto do governo Lula às apostas online, as bets brasileiras começaram a demitir em escala. Pelo menos 36 das 188 marcas autorizadas a operar no país fizeram rodadas de dispensa até o dia 5 de outubro, segundo levantamento da Associação de Mulheres da Indústria do Gaming obtido pela Folha. Os números ainda não refletem o impacto total: fornecedores e terceirizados também foram atingidos, e as demissões se concentram por ora nas empresas menores.

A H2Bet, plataforma ligada ao universo do pôquer, dispensou 170 de seus 270 funcionários. Seu diretor de operações descreveu publicamente aquele como o pior dia de seus 28 anos como empreendedor no Brasil. A Rivalo desligou quase toda a sua equipe de cerca de 100 pessoas, mantendo apenas alguns colaboradores na esperança de uma eventual retomada. O Rei do Pitaco, que recebeu investimento do Grupo Globo em sua fase inicial, demitiu 40 funcionários e colocou outros 30 em férias coletivas.

O impacto se alastrou para além das plataformas. A Alob Sports, empresa de live marketing e promoção de eventos para bets, precisou desligar funcionários e viu contratos com empresas de cenografia, segurança e fornecedores de brindes serem cancelados em cadeia. A startup portuguesa Hoopers, que operava no Brasil desde 2023, suspendeu contratos e enfrentou uma semana descrita por seu fundador como a mais turbulenta de sua trajetória.

Estudo da consultoria LCA aponta que o setor emprega diretamente cerca de 10 mil pessoas no Brasil e gera outros 5 mil postos indiretos. Executivos ouvidos em anonimato alertam que bets sem reservas em caixa devem encerrar operações permanentemente — e que mesmo uma reversão judicial do veto não eliminaria os danos já causados. As grandes multinacionais do setor seguram seus times por ora, mas o mercado de trabalho já carrega as marcas de uma decisão que chegou antes de qualquer certeza sobre o que vem a seguir.

Na semana que se seguiu ao veto do governo Lula às apostas online, as bets começaram a desligar funcionários em massa. Pelo menos 36 das 188 marcas autorizadas a operar no Brasil fizeram rodadas de demissão até segunda-feira, dia 5 de outubro, conforme levantamento da Amig (Associação de Mulheres da Indústria do Gaming) obtido pela Folha. Os números ainda não capturam o efeito completo: fornecedores e empresas terceirizadas também foram atingidos, e as dispensas se concentram por enquanto nas companhias de pequeno e médio porte.

A H2Bet, plataforma nascida do universo dos clubes de pôquer, foi uma das mais afetadas. A empresa dispensou 170 de seus 270 funcionários. Diego Breda de Carvalho, diretor de operações, publicou a notícia no Instagram com tom de derrota pessoal: descreveu aquele como o pior dia de seus 28 anos como empreendedor no Brasil. "Mais de 170 pessoas foram comunicadas que perderam seus trabalho simplesmente porque Lula decidiu que o trabalho delas não existiria mais", escreveu. A H2Bet não respondeu aos contatos da reportagem, mas fontes indicam que a empresa manterá operações em seu clube de pôquer físico e continuará patrocinando competições de carteado.

A Rivalo, outro site de apostas, desligou quase toda sua equipe de cerca de 100 pessoas. Os avisos prévios começaram na semana anterior. O diretor da empresa para o Brasil, Daniel Eskinazi, atribuiu as demissões à medida provisória 1.394 de 2026, que interrompeu as operações da plataforma, mas sinalizou que a empresa mantém alguns colaboradores na expectativa de uma possível retomada caso o mercado retorne à regulamentação. O Rei do Pitaco, que recebeu investimento do Grupo Globo em sua fase inicial, também afastou mais da metade de sua equipe de 100 pessoas: 40 foram demitidas e 30 receberam férias coletivas.

O impacto não se limita às bets. A Alob Sports, empresa que trabalhava com promoção de eventos, divulgação com influenciadores e live marketing para plataformas como a Betano, precisou desligar diversos funcionários. Bernardo Pontes, sócio-fundador, descreveu o efeito em cascata: empresas de cenografia, segurança, promotores de eventos e fornecedores de brindes também foram impactados. "O mercado pode voltar, mas vai voltar diferente. A gente precisa entender qual vai ser a regra do jogo para saber se podemos retomar a operação", disse. A startup portuguesa Hoopers, que promovia eventos esportivos e operava no Brasil desde 2023, também enfrentou suspensão de contratos e cancelamento de reuniões. Seu fundador, André Costa, publicou no LinkedIn que nunca havia vivido uma semana tão conturbada.

Estudo da consultoria LCA, encomendado pelas próprias bets, mostra que o setor emprega diretamente cerca de 10 mil pessoas no país e gera outros 5 mil empregos de forma indireta. A Ana Gaming, dona de Bet 7K e Cassino, já fez dispensas, embora não detalhe quantidades. Em nota, a companhia alertou que "encerrar operações por determinação legal compromete as condições que sustentam postos de trabalho e contratos. Mesmo uma eventual reversão da medida não elimina os danos já provocados".

Executivos ouvidos sob condição de anonimato alertam que uma parte significativa das bets sem reservas em caixa deve encerrar as operações de forma permanente. As empresas menores já enfrentavam cenário de aperto durante o mercado regulado, com queda no número de jogadores ativos nos primeiros meses de 2026 e concentração de clientela nos maiores sites. A insegurança jurídica criada pelo veto é vista como um "golpe fatal" para esses negócios. A ANJL (Associação Nacional de Jogos e Loterias) convocou todas as empresas do setor a preencher formulário sobre as demissões, mas ainda não consegue dimensionar o alcance total das dispensas.

As grandes empresas com estruturas multinacionais e caixa acumulado, como Betano e Superbet, estão segurando seus funcionários, argumentando que seriam postos difíceis de repor. Enquanto isso, as associações do setor esperam pela reversão do veto na Justiça, mas o cenário de incerteza já deixou suas marcas no mercado de trabalho.

Mais de 170 pessoas foram comunicadas que perderam seus trabalho simplesmente porque Lula decidiu que o trabalho delas não existiria mais
— Diego Breda de Carvalho, diretor de operações da H2Bet
É um efeito em cascata. As empresas de cenografia, de segurança, de promotores de eventos e de brindes que a gente contratava também foram impactadas
— Bernardo Pontes, sócio-fundador da Alob Sports
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