Beto Sicupira, bilionário e alvo da PF, é descrito como 'trator' agressivo

Não havia autonomia no alto escalão: as decisões dependiam diretamente do bilionário
Pessoas que trabalharam próximas a Miguel Gutierrez descrevem o controle absoluto de Sicupira sobre a Americanas.
Mark

Como um homem que ocupava posição tão central na Americanas pode dizer que foi surpreendido pelas fraudes?

Mimi

Essa é a questão central. Os relatos mostram que Sicupira aprovava até pagamentos de R$ 50 mil. Não havia decisão importante sem sua anuência. A defesa dele é que foi enganado pela diretoria, mas os investigadores parecem acreditar que o conhecimento era contínuo.

Mark

E quanto ao seu temperamento? Isso importa para a investigação?

Mimi

Importa porque ajuda a entender a dinâmica de poder. Se ele era conhecido por gritar, bater na mesa e impor sua vontade, é difícil imaginar que a diretoria conseguisse esconder fraudes sistemáticas dele por anos.

Mark

A relação entre os três sócios se deteriorou?

Mimi

Sim. Pessoas próximas ao trio disseram que o escândalo abalou a relação entre Sicupira, Lemann e Telles. Quando algo desse tamanho acontece, a confiança se quebra.

Mark

Qual era exatamente o papel dele na Americanas?

Mimi

Ele era o responsável pelo desenvolvimento da varejista enquanto Telles cuidava da Ambev. Ocupou a presidência do conselho por muitos anos, depois virou membro. Mas sua influência real era muito maior que o título sugeria.

Mark

Como alguém com essa formação — Harvard, UFRJ — não vê fraudes contábeis acontecendo?

Mimi

Essa é a pergunta que a Polícia Federal está fazendo. Ou ele não viu porque não quis ver, ou viu e não agiu. Nenhuma das opções é boa para sua defesa.

  • A Polícia Federal cumpriu mandados contra Sicupira, 78 anos, um dos três bilionários que controlavam as Americanas — sinalizando que a investigação chegou ao topo da cadeia de poder da varejista.
  • A holding LTS insiste que os acionistas foram 'enganados' pela antiga diretoria, mas investigadores apontam evidências de que o conhecimento das fraudes era contínuo e não acidental.
  • Relatos de ex-funcionários revelam que nem mesmo pagamentos menores eram feitos sem a aprovação de Sicupira, tornando difícil sustentar a tese de um acionista alheio à operação cotidiana.
  • A relação entre os três sócios históricos — Sicupira, Lemann e Telles — teria se abalado após o escândalo, sugerindo que o colapso das Americanas fraturou também o núcleo humano da 3G Capital.
  • Aos 78 anos, o homem descrito como 'trator' e 'dono da verdade' enfrenta o maior teste de sua trajetória: provar que o controle que exerceu tinha limites que a fraude soube respeitar.

Na última quinta-feira, a Polícia Federal alcançou Carlos Alberto Sicupira, um dos arquitetos do capitalismo brasileiro contemporâneo, no âmbito da Operação Disclosure — investigação que questiona se o controle absoluto que ele exerceu sobre as Lojas Americanas por décadas poderia coexistir com a ignorância sobre as fraudes contábeis que corroíam a empresa por dentro. A tensão entre a narrativa do acionista surpreendido e o retrato de um homem que aprovava até pagamentos de R$ 50 mil coloca em xeque não apenas uma reputação construída ao longo de cinquenta anos, mas também os limites morais e legais do poder empresarial no Brasil.

Na quinta-feira, 25 de junho, a Polícia Federal bateu à porta de Carlos Alberto Sicupira como parte da Operação Disclosure, que investiga fraudes contábeis nas Lojas Americanas. Com patrimônio de R$ 39,1 bilhões e posição entre os seis brasileiros mais ricos, Sicupira é um dos três acionistas de referência da varejista, ao lado de Jorge Paulo Lemann e Marcel Telles — trio que também fundou a 3G Capital, controladora de marcas como AB InBev e Burger King.

O ponto central da investigação é o conhecimento. A holding LTS afirmou em nota que os três sócios foram 'surpreendidos' pela operação e que o conselho foi 'continuamente enganado' pela antiga diretoria. Os investigadores, porém, parecem não compartilhar dessa versão. Em depoimento à CVM em 2023, o próprio Sicupira disse ter 'caído para trás' ao ser informado das inconsistências contábeis — narrativa que contrasta com os relatos sobre seu controle operacional da empresa.

Formado em administração pela UFRJ com MBA de Harvard, Sicupira construiu sua reputação no banco Garantia antes de fundar a 3G Capital. Livros sobre o trio o descrevem como 'o mais agressivo' dos três sócios — alguém que não economizava gritos ou murros na mesa para impor sua visão. Na Americanas, era o responsável pelo desenvolvimento da varejista e sua influência ultrapassava em muito o título formal. Segundo pessoas próximas ao ex-presidente Miguel Gutierrez, nenhuma decisão relevante — nem pagamentos de R$ 50 mil a fornecedores — era tomada sem a aprovação de 'Beto'. O mesmo padrão valia para outros diretores afastados após o escândalo.

Fora dos negócios, Sicupira é conhecido por iniciativas como a Fundação Estudar, a Fundação Brava e a introdução da Endeavor no Brasil. É também recordista mundial em pesca submarina. Mas agora, com 78 anos, toda essa trajetória é colocada à prova por uma pergunta que as investigações tentam responder: o homem que controlava até os menores detalhes da empresa poderia, de fato, ter ignorado as fraudes que a destruíram por dentro?

Na quinta-feira, 25 de junho, a Polícia Federal bateu à porta de Carlos Alberto Sicupira, 78 anos, um dos homens mais ricos do Brasil. A ação fazia parte da Operação Disclosure, que investiga fraudes contábeis na Lojas Americanas — a varejista que ele ajudou a construir e sobre a qual exerceu controle praticamente absoluto por décadas. Sicupira é o sexto bilionário mais rico do país, com patrimônio líquido de R$ 39,1 bilhões segundo a Forbes de 2025, e um dos três acionistas de referência da Americanas, ao lado de Jorge Paulo Lemann e Marcel Telles. Os três fundaram juntos a 3G Capital, o grupo de investimentos que controla marcas globais como AB InBev e Burger King.

O que torna a situação particularmente delicada é a questão do conhecimento. Segundo as investigações, os acionistas de referência teriam ciência das fraudes contábeis que ocorreram ao longo de anos. A holding LTS, que funciona como escritório de investimentos das famílias de Sicupira, Lemann e Telles, respondeu à ação com uma nota afirmando que os três foram "surpreendidos" pela operação e que o conselho de administração e os acionistas foram "continuamente enganados e induzidos a erro pela antiga diretoria". Mas os investigadores parecem discordar dessa versão. Sicupira não respondeu aos pedidos de comentário da reportagem.

Para entender quem é Sicupira, é preciso conhecer sua reputação dentro do mundo empresarial brasileiro. Carioca, formado em administração pela UFRJ com MBA de Harvard, filho de um servidor público do Banco do Brasil e do Banco Central, ele construiu sua carreira no Garantia, o banco que Lemann comprou e onde os três sócios trabalharam antes de fundar a 3G Capital. A jornalista Cristiane Correa, em seu livro "Sonho Grande", descreve Sicupira como alguém para quem "delicadeza no ambiente de trabalho nunca foi o forte". Ela cita expressões usadas por antigos colegas do Garantia para caracterizá-lo: "trator" e "dono da verdade". Segundo o relato, ele não economizava gritos, palavrões e murros na mesa para fazer valer sua opinião.

Claudio Galeazzi, fundador da consultoria Galeazzi & Associados que trabalhou com o trio, oferece um retrato mais nuançado em seu livro "Sem Cortes". Ele descreve os três como "implacáveis na cobrança pelos resultados" mas "afáveis no trato com as pessoas no dia a dia". De Lemann, diz que fala pouco e ouve muito. De Telles, que tem um perfil mais conciliador e ironia refinada. De Sicupira, porém, afirma ser "o mais agressivo" dos três. Galeazzi critica o que chama de "frieza excessiva" do grupo — uma mentalidade em que "fora os resultados, nada interessa" — que criava um "clima de competição interna sanguinária" onde cada colega era visto como um adversário a ser derrotado.

Na Americanas, Sicupira era o responsável pelo desenvolvimento da varejista enquanto Telles cumpria papel similar na Ambev. Ele ocupou a presidência do conselho por muitos anos e depois se tornou membro do conselho, posição que mantinha quando o escândalo eclodiu. Mas sua influência ia muito além do título. De acordo com pessoas que trabalharam próximas ao ex-presidente Miguel Gutierrez, o executivo não dava um passo sem pedir permissão a Sicupira. Não havia autonomia real no alto escalão da empresa. Decisões menores — como o pagamento de R$ 50 mil a um fornecedor — dependiam da aprovação do "Beto". O mesmo padrão se repetia com outros três diretores afastados após o escândalo: Anna Saicali, Timotheo Barros e Márcio Meirelles, todos com mais de uma década na companhia.

Em depoimento à CVM em maio de 2023, Sicupira disse ter "ficado em choque" e "caído para trás" quando recebeu uma ligação do CEO Sergio Rial no início de janeiro daquele ano informando sobre as inconsistências contábeis. Essa versão — a de um acionista surpreendido — contrasta com o quadro que emerge das investigações e dos relatos sobre seu controle operacional da empresa. Pessoas ouvidas pela Folha indicam que a relação entre os três sócios se abalou depois que o escândalo veio à tona.

Fora dos negócios, Sicupira também é conhecido por suas atividades filantrópicas. Trouxe a Endeavor para o Brasil em 2000, fundou a Fundação Brava para melhorar a gestão pública e a Fundação Estudar para financiar bolsas de estudo no exterior. É também recordista mundial em pesca submarina, esporte que o aproximou de Lemann. Mas agora, aos 78 anos, sua reputação de homem de negócios implacável e controlador enfrenta seu maior teste: responder se sabia, ou deveria ter sabido, sobre as fraudes que ocorriam na empresa que ajudou a construir.

Delicadeza no ambiente de trabalho nunca foi o forte de Beto Sicupira
— Cristiane Correa, autora de 'Sonho Grande'
Dos três, Sicupira é o mais agressivo
— Claudio Galeazzi, fundador da consultoria Galeazzi & Associados
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