Bessent anunciou duplicação de recompras de Treasuries de longo prazo para conter alta de rendimentos que afeta custos de financiamento do governo americano. Mercado reagiu positivamente mas perdeu força rapidamente; déficit fiscal de 5,8% do PIB e guerra no Irã pressionam custos de financiamento de forma estrutural.
Bessent enfrenta teste crucial ao tentar conter mercado de US$ 32 trilhões de Treasuries
Entender o problema e resolver são duas coisas diferentes
Por que Bessent não pode simplesmente fazer o que o Federal Reserve faz — criar dinheiro e comprar trilhões em títulos?
Porque o Tesouro não é o banco central. O Fed tem o poder de criar moeda. O Tesouro é o braço financeiro do governo — ele arrecada impostos, gasta dinheiro e toma emprestado. Quando Bessent compra títulos, ele precisa de dinheiro para fazer isso. Ele não pode criá-lo do nada.
Então de onde vem o dinheiro para essas compras de US$ 4 bilhões por mês?
Provavelmente de novas emissões de dívida de curto prazo. O Tesouro vende títulos de curto prazo para financiar a compra de títulos de longo prazo. É como trocar uma dívida por outra, esperando que isso mude o comportamento do mercado.
E isso funcionou?
Funcionou por algumas horas. Os preços subiram, os rendimentos caíram. Mas até o final do dia, a maioria dos ganhos havia desaparecido. O mercado voltou a vender.
Por quê? Se o governo está comprando, por que os investidores continuam vendendo?
Porque os investidores estão preocupados com coisas que nenhuma compra de títulos resolve. O déficit fiscal está em 5,8% do PIB. A guerra no Irã cria incerteza. A dívida total é de US$ 40 trilhões. Bessent pode comprar títulos, mas não pode mudar esses números.
Então o plano está condenado ao fracasso?
Não necessariamente condenado, mas limitado. Pode ganhar tempo, pode acalmar o mercado por um tempo. Mas se os problemas fundamentais não forem resolvidos — se o déficit não cair, se a inflação não diminuir — os investidores continuarão procurando saídas. E estão encontrando: bitcoin, ouro, moedas estrangeiras.
O que isso diz sobre a confiança no dólar?
Que está rachando. Quando investidores começam a comprar bitcoin em massa e ouro sobe 13% em um mês, eles estão dizendo que não confiam que o dólar mantenha seu valor. Bessent pode comprar títulos, mas não pode comprar confiança.
Der Puls
- Mercado de Treasuries tem US$ 32 trilhões
- Bessent dobrou recompras de títulos de longo prazo para US$ 4 bilhões mensais
- Déficit fiscal americano está em 5,8% do PIB
- Bitcoin subiu 23% na semana; ouro subiu 13% em agosto
- Dólar caiu 1% contra cesta de moedas desde terça-feira
Bessent anunciou duplicação de recompras de Treasuries de longo prazo para conter alta de rendimentos que afeta custos de financiamento do governo americano. Mercado reagiu positivamente mas perdeu força rapidamente; déficit fiscal de 5,8% do PIB e guerra no Irã pressionam custos de financiamento de forma estrutural.
Secretário do Tesouro Scott Bessent enfrenta seu maior desafio ao tentar conter vendas de títulos de longo prazo americanos, anunciando dobro de recompras para US$ 4 bilhões, mas analistas questionam se medida será suficiente.
Scott Bessent chegou ao cargo de secretário do Tesouro americano com uma reputação construída em mercados financeiros. Sua principal função, até agora, tem sido a de acalmar investidores assustados pelas políticas do presidente Donald Trump. Mas na semana passada, ele enfrentou seu teste mais difícil: tentar conter um mercado de US$ 32 trilhões em títulos do governo americano que começava a se descontrolar.
O problema era simples em aparência, mas profundo em suas raízes. Investidores estavam vendendo títulos de longo prazo — os Treasuries de 10 e 30 anos — porque temiam que a guerra no Irã elevasse os gastos públicos e acelerasse a inflação. Quando investidores vendem títulos, seus preços caem e os rendimentos sobem, o que torna mais caro para o governo americano tomar dinheiro emprestado. Essa onda de vendas havia elevado os custos de financiamento a níveis não vistos em quase duas décadas. Na quarta-feira, Bessent anunciou sua resposta: o Tesouro dobraria suas compras de títulos de longo prazo, de US$ 2 bilhões para pelo menos US$ 4 bilhões por mês, começando em 9 de setembro. A ideia era simples — se investidores queriam vender, o governo compraria, criando demanda artificial que sustentasse os preços.
Bessent apresentou a medida como prova de que tinha ferramentas à sua disposição, um "grande arsenal" para conter o mercado de títulos mais importante do mundo. Ele também insistiu que a onda de vendas não refletia os fundamentos econômicos reais, culpando a "liquidez muito ruim" do mercado. Mas havia um problema fundamental em sua posição: diferentemente do Federal Reserve, o Tesouro não pode simplesmente criar dinheiro. O Fed pode fazer quantitative easing — comprar trilhões em títulos para alterar a curva de juros. Bessent não tinha esse poder. Ele precisaria financiar essas compras de alguma forma, provavelmente emitindo mais dívida de curto prazo, o que deixaria o governo exposto às flutuações das taxas de juros. Analistas compararam a estratégia à Operation Twist de 2011, quando o Fed usou recursos de vendas de títulos curtos para comprar papéis de vencimento mais longo — mas aquela operação foi muito maior.
O mercado reagiu bem no início. Os Treasuries de prazo mais longo dispararam após o anúncio, afastando os custos de financiamento de 30 anos do pico de 19 anos atingido dias antes. Mas a alta perdeu força rapidamente. Na tarde de quinta-feira, boa parte dos ganhos havia desaparecido. O rendimento do Treasury de 10 anos — a referência para custos de empréstimos de prazo mais longo na economia americana — voltou a subir. Charlie McElligott, analista da Nomura, chamou o plano de "curativo para um ferimento à bala", sugerindo que seria insuficiente. Jim Caron, da Morgan Stanley Investment Management, foi mais direto: Bessent entendia o problema, mas "entender o problema e ser capaz de fazer algo relevante a respeito são duas coisas diferentes". O Tesouro simplesmente não conseguia controlar os rendimentos de longo prazo.
Os fatores pressionando os custos de financiamento eram estruturais e não podiam ser resolvidos com compras de títulos. O déficit fiscal americano estava em 5,8% do PIB, bem acima da meta de Bessent de 3% até 2028. A guerra no Irã criava incerteza econômica. Empresas de inteligência artificial estavam competindo por capital global. Tudo isso empurrava investidores para fora dos Treasuries.
A intervenção de Bessent teve efeitos colaterais em outros mercados. Investidores começaram a se proteger contra a possível desvalorização do dólar, comprando bitcoin e ouro — ativos historicamente vistos como proteção contra inflação e moedas fracas. O bitcoin saltou quase 7% na sexta-feira e acumulava alta de 23% na semana, chegando a cerca de US$ 77.380, seu maior nível desde maio. O ouro avançou 1,5% e acumulava ganho superior a 13% em agosto, caminhando para seu melhor mês desde 1999. O dólar caiu cerca de 1% contra uma cesta de moedas desde terça-feira.
Matt King, estrategista macroeconômico da Satori Insights, resumiu o sentimento do mercado: as intervenções de Bessent não faziam nada para lidar com as vulnerabilidades fundamentais da economia americana. A dívida total era de US$ 40 trilhões. A inflação persistia. Os investidores estavam voltando para apostas contra o dólar porque acreditavam que nenhuma compra de títulos resolveria esses problemas. O que Bessent enfrentava não era um problema de liquidez ou de confiança temporária — era uma questão de solvência de longo prazo que nenhum arsenal de curto prazo poderia resolver.
Bemerkenswerte Zitate
Os rendimentos não refletem os fundamentos subjacentes— Scott Bessent, secretário do Tesouro
O Tesouro simplesmente não consegue controlar os rendimentos de longo prazo— Jim Caron, Morgan Stanley Investment Management