BC sinaliza aperto em regras de capital para conter endividamento das famílias

O endividamento das famílias reduz poder de consumo e afeta o varejo, enquanto aumenta a inadimplência nos bancos.
Mais de 52 milhões carregam dívida em cartão, com 54% da renda comprometida
O presidente do BC alertou sobre a escala do endividamento das famílias brasileiras em crédito de alto custo.
Mark

Por que o BC está fazendo isso agora? Qual é a urgência?

Mimi

Porque o endividamento das famílias chegou a um ponto insustentável. Mais de 52 milhões de pessoas carregam dívida em cartão de crédito, e em média 54% da renda delas está comprometida com essas despesas. Isso reduz o consumo, afeta o varejo, e aumenta a inadimplência nos bancos.

Luke

Mas espera — o BC está sinalizando isso publicamente, mas não deu datas. Quanto tempo até essas medidas entrarem em vigor?

Mark

E se o BC apertar as regras de capital, o que acontece com quem precisa de crédito?

Mimi

Fica mais caro. Os bancos vão cobrar juros mais altos ou emprestar menos dinheiro. Linhas como cartão de crédito e empréstimo pessoal, que já são caras, ficam ainda mais caras.

Luke

Certo, mas o FMI sugeriu um limite de 40% da renda comprometida. O BC está considerando isso?

Mark

E por que não implementam esse limite?

Mimi

Porque o Brasil tem muitos trabalhadores autônomos com renda variável, e muita rotatividade no mercado de trabalho. É difícil fiscalizar um limite quando a renda das pessoas muda constantemente.

Luke

Então o BC está considerando o aperto de capital como alternativa ao limite direto de endividamento?

Mark

Qual é a diferença entre essas duas abordagens?

Mimi

Um limite direto diz: você não pode emprestar mais de 40% da sua renda. O aperto de capital diz: os bancos precisam manter mais dinheiro próprio para fazer esses empréstimos, então eles vão emprestar menos naturalmente.

Luke

Mas a segunda abordagem é mais indireta e menos previsível. Não há garantia de quanto menos será emprestado.

Mark

Quem mais está preocupado com isso?

Mimi

O setor financeiro, especialmente os bancos digitais. Eles dependem muito de cartão de crédito e empréstimos pessoais. Se essas operações ficarem mais caras, seus modelos de negócio são afetados.

Luke

E os consumidores? Eles sabem que isso está vindo?

Mark

O que o BC disse exatamente sobre o cronograma?

Mimi

Que as medidas virão "nos próximos meses". Mas a ata do Comitê de Estabilidade Financeira não deu datas específicas. É um aviso, não um calendário.

Luke

Então ainda há espaço para negociação entre o BC e os bancos antes de qualquer coisa ser implementada.

  • Com 54% da renda média comprometida em cartão de crédito e juros rotativos de 15% ao mês, o endividamento das famílias brasileiras atingiu um patamar que o próprio BC classifica como risco sistêmico.
  • O diretor de fiscalização do BC declarou publicamente que 'medidas relevantes' virão 'nos próximos meses', retirando qualquer ambiguidade sobre a intenção do regulador.
  • A principal ferramenta em estudo é o aumento do Fator de Ponderação de Risco para cartão de crédito e empréstimos pessoais sem garantia, o que encarece o crédito e pode forçar os bancos a reduzir a oferta ou elevar taxas.
  • O FMI sugeriu um teto formal de 40% da renda comprometida com dívidas — mas o setor financeiro alerta que a informalidade e a rotatividade do mercado de trabalho brasileiro tornam esse limite de difícil aplicação prática.
  • A inadimplência já sobe nos balanços dos bancos, o consumo no varejo sente o peso das dívidas, e o BC avalia que o ciclo de crescimento baseado em crédito e transferências de renda chegou ao seu esgotamento.

Em um momento em que mais de 52 milhões de brasileiros carregam dívidas ativas em cartão de crédito, o Banco Central sinaliza que o modelo de crescimento sustentado por crédito fácil chegou ao seu limite natural. A instituição prepara medidas macroprudenciais — entre elas o aumento do capital exigido dos bancos para operações de crédito pessoal e cartão — que tornarão o ato de emprestar mais caro e, portanto, mais seletivo. É a resposta regulatória a uma equação antiga: quando o crédito cresce mais rápido do que a capacidade de pagamento, a estabilidade de todo o sistema passa a depender de uma correção de rota.

O Banco Central está prestes a apertar as regras de capital para os bancos, sinalizando que o avanço do endividamento das famílias brasileiras deixou de ser apenas uma preocupação social para se tornar um risco à estabilidade financeira do país. A medida mais provável é o aumento do Fator de Ponderação de Risco para cartão de crédito e empréstimos pessoais sem garantia — o que, na prática, torna mais caro para os bancos manter essas carteiras e deve pressionar tanto a oferta quanto as taxas de juros cobradas.

A urgência tem rosto e número. Gabriel Galípolo, presidente do BC, revelou que dos 96 milhões de usuários de cartão de crédito no Brasil, 52,8 milhões carregam dívida ativa — no rotativo ou no parcelamento com juros. Em média, 54% da renda dessas pessoas está comprometida com gastos no cartão. O rotativo cobra 15,1% ao mês; o crédito pessoal não consignado chega a 149,5% ao ano. O diretor de fiscalização Ailton de Aquino foi direto ao afirmar, durante evento em Brasília, que o BC precisava 'endereçar o endividamento nas linhas mais caras' e que medidas concretas viriam nos próximos meses.

O Fundo Monetário Internacional, após missão no Brasil, sugeriu um teto formal de 40% da renda comprometida com empréstimos. Simulações do FMI indicam que esse limite teria reduzido em 5,6% a contratação de crédito bancário no ano passado. O setor financeiro, porém, resiste: com alta informalidade e rotatividade no mercado de trabalho, comprovar renda de autônomos é um obstáculo real. O único limite formal de endividamento que existe hoje no país é o do consignado para beneficiários do INSS, fixado em 45%.

O BC também monitora o consignado privado, que apresenta inadimplência acima do esperado e lidera o crescimento do endividamento das famílias. O efeito cascata já é visível: consumo em queda no varejo, resultados bancários abaixo das projeções e a percepção, dentro do próprio regulador, de que o modelo de crescimento baseado em crédito e renda chegou ao seu limite.

O Banco Central está preparando um aperto nas regras que governam quanto capital os bancos precisam manter quando fazem empréstimos. A sinalização veio após semanas de avisos públicos sobre o endividamento crescente das famílias brasileiras e o risco que isso representa para a estabilidade do sistema financeiro como um todo.

O movimento mais provável envolve aumentar o chamado Fator de Ponderação de Risco para duas modalidades de crédito específicas: cartão de crédito e empréstimos pessoais sem garantia. O efeito prático é direto. Se um banco precisa manter mais capital próprio para fazer o mesmo volume de empréstimos nessas linhas, fica mais caro emprestar. Os bancos podem responder reduzindo o dinheiro que oferecem ou aumentando as taxas de juros que cobram. Pessoas familiarizadas com as discussões internas do regulador confirmaram à Folha que essa mudança está sendo considerada, embora pediram anonimato dada a sensibilidade do tema em período eleitoral.

O Comitê de Estabilidade Financeira do BC divulgou uma ata em 2 de setembro sinalizando que medidas específicas para o mercado de crédito estão sendo preparadas. Um dia antes, Ailton de Aquino, diretor de fiscalização da autarquia, foi mais direto. Ele disse que o BC precisava "endereçar o endividamento nas linhas mais caras", referindo-se exatamente ao cartão de crédito e ao crédito não consignado, e que "nos próximos meses" haveria "medidas relevantes para o sistema financeiro". A declaração foi feita durante o Zetta Summit, um evento de inovação financeira em Brasília.

Os números explicam a urgência. Gabriel Galípolo, presidente do BC, apontou que dos 96 milhões de usuários de cartão de crédito no país, mais da metade carrega dívida ativa. São 52,8 milhões de pessoas nas modalidades de rotativo ou parcelamento com juros. Em média, 54% da renda dessas pessoas está comprometida com gastos em cartão. O rotativo cobra em média 15,1% de juros ao mês, enquanto o parcelamento com juros fica em 9,3% ao mês. O crédito pessoal não consignado é ainda mais caro: juros médios de 149,5% ao ano, comparados a 27,5% nas linhas que têm alguma garantia.

O Fundo Monetário Internacional, em relatório sobre estabilidade financeira após missão no Brasil, sugeriu que o BC adotasse limites rígidos de endividamento. O fundo propôs um teto de até 40% da renda comprometida com empréstimos. Segundo simulações do FMI, se esse limite tivesse vigorado no ano passado, as famílias teriam contratado cerca de 5,6% menos em empréstimos bancários, excluindo financiamentos imobiliários. Limites alternativos de 35% e 45% produziriam impactos semelhantes, com reduções mais acentuadas em parâmetros mais restritivos.

Mas há obstáculos práticos. Dirigentes do setor financeiro argumentam que estabelecer um limite formal de endividamento seria quase inviável no Brasil, onde existe uma quantidade muito grande de trabalhadores autônomos cuja renda é variável e difícil de comprovar. O país também tem alta rotatividade no mercado de trabalho, com profissionais trocando de emprego com frequência. Sacar o FGTS virou rotina para muitos. O único limite formal de endividamento que existe hoje é no crédito consignado para beneficiários do INSS, fixado em 45% da renda.

O BC está preocupado também com o consignado privado, que tem garantia do salário do trabalhador. Essa modalidade está com inadimplência acima do esperado e é atualmente a principal responsável pelo crescimento do endividamento das famílias. O alto endividamento das pessoas reduz seu poder de consumo, afetando sobretudo o varejo. Os bancos já registram aumento significativo da inadimplência, com alguns apresentando resultados abaixo das projeções dos analistas. O BC avalia que a receita de crescimento baseada em renda e crédito, impulsionada pelas políticas públicas do governo federal, chegou ao limite.

A gente precisa endereçar o endividamento nas linhas mais caras, ou seja, cartão de crédito e não consignado. Eu acredito que, nos próximos meses, vamos ter algumas medidas relevantes para o sistema financeiro.
— Ailton de Aquino, diretor de fiscalização do Banco Central
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