BC liquida Trustee e Banvox; dono investigado em operações da PF

Administrava bilhões em fundos que investigações apontavam como canais de ocultação de bens
A Trustee e Banvox foram fechadas pelo BC após serem investigadas em operações que rastreavam fraudes e sonegação fiscal.
Mark

Por que o Banco Central decidiu liquidar essas duas distribuidoras agora, em setembro, se as investigações começaram bem antes?

Mimi

A liquidação extrajudicial é uma ação regulatória que o BC toma quando identifica risco sistêmico ou irregularidades graves que comprometem a segurança dos investidores. As operações da PF e da Operação Carbono Oculto forneceram evidências suficientes para que o BC considerasse necessário encerrar as atividades.

Luke

Mas o comunicado do BC especifica quais foram as irregularidades que levaram à liquidação? Porque há diferença entre estar sob investigação e ter comprovação de fraude.

Mark

Quadrado parece estar em várias investigações ao mesmo tempo. Ele foi procurado na Compliance Zero, mas não na Carbono Oculto. Como isso funciona?

Mimi

Diferentes operações investigam diferentes aspectos. A Compliance Zero focava em fraudes no Banco Master. A Carbono Oculto investigava uma cadeia de sonegação fiscal envolvendo combustíveis. As distribuidoras dele foram investigadas na Carbono Oculto como intermediárias que movimentavam recursos, mas Quadrado pessoalmente não foi alvo daquela operação específica.

Luke

Então não sabemos se Quadrado sabia ou participava ativamente das operações investigadas na Carbono Oculto. Ele pode ter sido apenas o proprietário formal das empresas.

Mark

Os números de patrimônio sob administração são impressionantes. R$ 23 bilhões na Trustee. Onde esse dinheiro vai agora?

Mimi

Quando uma distribuidora é liquidada extrajudicialmente, há um processo de segregação de ativos. Os fundos sob administração precisam ser transferidos para outras gestoras ou devolvidos aos cotistas. É um processo complexo que pode levar tempo.

Luke

E a gente não sabe ainda quantos investidores foram prejudicados ou se houve perdas reais. A liquidação protege o sistema, mas não significa necessariamente que houve fraude comprovada em todos os fundos.

  • Trustee e Banvox administravam R$ 23,225 bilhões e R$ 7,448 bilhões respectivamente, segundo ranking da Anbima
  • Maurício Quadrado foi alvo da Operação Compliance Zero em janeiro de 2026
  • As duas distribuidoras foram investigadas na Operação Carbono Oculto em agosto de 2025 como gestoras de fundos para organização criminosa
  • Banvox enfrentou 3 processos administrativos na CVM; Trustee enfrentou 4, todos por irregularidades em emissão e distribuição de valores

Trustee e Banvox administravam bilhões em fundos de investimento e foram alvo de buscas em operações que investigam fraudes e sonegação fiscal. Maurício Quadrado, dono das DTVMs, foi alvo de investigação da PF e tem histórico em empresas também investigadas, como Planner e Banco Master.

O Banco Central liquidou extrajudicialmente as distribuidoras Trustee e Banvox, ligadas a Maurício Quadrado, que foi alvo da Operação Compliance Zero da PF. As empresas também foram investigadas na Operação Carbono Oculto por suspeita de gestão de fundos para organização criminosa.

O Banco Central liquidou extrajudicialmente duas distribuidoras de títulos e valores mobiliários na manhã de quinta-feira, 3 de setembro. A Trustee e a Banvox, que juntas administravam dezenas de bilhões em fundos de investimento, foram fechadas em ação que marca o desfecho de investigações que remontam a anos anteriores.

As duas empresas pertencem a Maurício Quadrado, que construiu sua carreira no setor financeiro passando por instituições que se tornaram alvo de escrutínio regulatório e criminal. Quadrado foi sócio da Planner, onde trabalhou até 2020, quando saiu levando consigo a operação de custódia para fundar a Trustee. Antes disso, ele havia sido sócio do Banco Master, do qual se desligou em 2024 após vender uma participação que variava entre 20% e 30%. Sua trajetória profissional o colocou no centro de múltiplas investigações: a Planner entrou na mira da Operação Compliance Zero em maio deste ano, enquanto o próprio Quadrado foi alvo de buscas pela Polícia Federal em janeiro, quando a segunda fase daquela operação foi deflagrada para investigar supostas fraudes no banco de Daniel Vorcaro.

A Operação Compliance Zero não foi a única ação que atingiu as distribuidoras agora liquidadas. Em agosto do ano anterior, tanto a Trustee quanto a Banvox foram alvo de buscas e apreensão na Operação Carbono Oculto, uma investigação conjunta que envolveu o Ministério Público, a Polícia Federal, a Agência Nacional do Petróleo, a Receita Federal e órgãos fiscais estaduais. Aquela operação atacava uma cadeia criminosa de fraudes e sonegação fiscal que se estendia por postos de combustível, distribuidoras e usinas de etanol, além de operações de importação. As duas distribuidoras foram investigadas especificamente como administradoras e gestoras de fundos de investimento que teriam sido utilizados pela organização criminosa para adquirir e ocultar bens. Quadrado não foi alvo direto daquela operação.

O tamanho das operações que agora foram liquidadas era considerável. Segundo informações divulgadas em seus próprios sites, a Banvox administrava 92 fundos com patrimônio total de R$ 8,575 bilhões, enquanto a Trustee listava quase 320 fundos. Dados do ranking da Anbima apresentavam números ligeiramente diferentes: a Banvox com R$ 7,448 bilhões e a Trustee com R$ 23,225 bilhões. Um dos maiores fundos sob administração da Banvox era o FIDC Voiter Consignado II, com R$ 581,3 milhões. O nome Voiter remetia ao antigo Banco Pleno, que também integrava o conglomerado do Master e havia sido liquidado pelo Banco Central anteriormente. A Trustee, por sua vez, administrava fundos como o Kyra e o Naples, que estiveram envolvidos em várias investigações sobre o Master.

O histórico regulatório de ambas as distribuidoras revelava padrão de irregularidades. A Banvox, que se chamava CM Capital Markets quando foi investigada pela primeira vez, foi alvo de três processos administrativos sancionadores na Comissão de Valores Mobiliários. O primeiro, aberto em 2018, investigou falta de lealdade para com os interesses de cotistas de fundos sob sua administração. Os dois seguintes, em 2019 e 2020, focaram em irregularidades na emissão e distribuição de debêntures e de Certificados de Recebíveis Imobiliários. A Trustee enfrentou quatro processos administrativos sancionadores pela CVM, todos relacionados a irregularidades na emissão e distribuição de debêntures, com aberturas em 2017, 2018 e 2019.

A trajetória de Quadrado após sair do Master incluiu a criação de um novo grupo batizado BlueBank, que incorporava o Letsbank e outras unidades. Em janeiro de 2025, ele anunciou intenção de comprar o Digimais, antigo Banco Renner que pertence a Edir Macedo, líder da Igreja Universal do Reino de Deus e proprietário da TV Record. Três meses depois, porém, desistiu do negócio. A liquidação das duas distribuidoras representa mais um capítulo nas investigações que envolvem o setor de gestão de ativos e fundos de investimento, onde fraudes e operações de ocultação de bens continuam sendo identificadas pelas autoridades.

As distribuidoras foram investigadas como administradoras e gestoras de fundos de investimento usados pela organização criminosa para aquisição e ocultação de bens
— Descrição da Operação Carbono Oculto conforme investigação
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