BC aprovou diretor do Master investigado pela CVM mesmo após alerta sobre manipulação

Homologou Angelo mesmo após alerta sobre investigação de manipulação
O BC aprovou o executivo como diretor do Master meses após a CVM comunicar formalmente sobre operações suspeitas envolvendo Angelo.
Mark

Como é possível que o BC tenha aprovado alguém sob investigação da CVM? Não havia um sistema de comunicação entre as duas autarquias?

Mimi

Havia sim — a CVM enviou comunicações formais ao BC sobre o caso em 2021. O documento está citado no relatório que o ministro Dino usou em sua decisão. Mas a aprovação saiu pouco mais de um mês depois.

Luke

Espera. A CVM comunicou sobre a investigação, mas não sobre uma condenação. O caso terminou em acordo sem reconhecimento de culpa. Então tecnicamente Angelo não foi condenado por nada quando foi aprovado.

Mimi

Verdade, mas a CVM havia proposto responsabilizá-lo por manipulação de preços. Havia gravações de conversas dele orientando operadores. Havia 455 operações suspeitas. Isso não é nada.

Mark

E o Banco Central sabia de todos esses detalhes quando aprovou Angelo?

Luke

O documento da CVM que Dino cita diz que a SMI enviou comunicações formais. Mas não sabemos exatamente o que estava nessas comunicações — se era um resumo ou se incluía as gravações e os números específicos.

Mimi

O que sabemos é que o BC tinha histórico de problemas com essa instituição. Havia rejeitado Vorcaro dois anos antes. Em 2020 já apontava riscos acima da capacidade de controle. Então não era como se o BC não tivesse razão para ser cauteloso.

Mark

Mas foi cauteloso? Aprovou Angelo, aprovou a aquisição do Vipal, deixou a coisa continuar até 2024.

Luke

E enviou 31 ofícios entre 2022 e 2024 pedindo ajustes. Então havia supervisão, mas aparentemente não foi suficiente para evitar o colapso.

Mimi

O que é interessante agora é que Dino vê um padrão. Não é só o CARE11. Há outras operações envolvendo fundos de investimento e serviços funerários. Ele está mandando a PF investigar se há algo sistemático aqui.

Mark

Então a questão não é só se Angelo deveria ter sido aprovado. É se havia algo maior acontecendo.

Luke

Exatamente. E se havia, por que ninguém viu antes. Ou se viram, por que não agiram.

  • Angelo Antonio Ribeiro da Silva foi homologado diretor do Banco Master em 4 de agosto de 2021
  • 455 operações de compra do fundo CARE11 entre setembro de 2018 e dezembro de 2019 provocaram oscilação artificial de preços
  • CVM propôs responsabilização por manipulação; caso terminou em acordo de R$ 2,944 milhões em novembro de 2022 sem reconhecimento de culpa
  • Banco Master foi liquidado em novembro de 2025 por grave crise de liquidez
  • Ministro Flávio Dino determinou investigação criminal à PF em setembro de 2026

Angelo era responsável por operações suspeitas com cotas do fundo CARE11 que provocaram oscilação artificial de preços entre 2018 e 2019. A CVM propôs responsabilização de Angelo e do banco por manipulação, mas o caso terminou em acordo em 2022 sem reconhecimento de culpa.

O Banco Central sob Campos Neto homologou Angelo Antonio Ribeiro da Silva como diretor do Banco Master após receber da CVM comunicação sobre investigação de manipulação de preços envolvendo o executivo no antigo Banco Máxima.

Em agosto de 2021, o Banco Central homologou Angelo Antonio Ribeiro da Silva como diretor do Banco Master. A aprovação ocorreu pouco mais de um mês após a autoridade monetária autorizar a mudança de nome de Banco Máxima para Banco Master. Mas havia um problema que o BC conhecia: meses antes, a Comissão de Valores Mobiliários havia comunicado formalmente à instituição que investigava operações nas quais Angelo estava diretamente envolvido — negociações que a CVM suspeitava terem manipulado artificialmente os preços de um fundo imobiliário.

As operações questionadas ocorreram entre 2018 e 2019, quando Angelo era responsável por emitir ordens de compra do fundo CARE11 pelo Banco Máxima. A BSM Supervisão de Mercados, braço de autorregulação da B3, identificou a atuação suspeita e passou a investigar. Em abril de 2020, o caso chegou à CVM. A análise revelou 455 operações de compra realizadas entre setembro de 2018 e dezembro de 2019 que provocaram oscilação positiva na cotação. Em períodos considerados críticos, o Máxima respondeu por entre 48,9% e 87% de todas as compras do fundo. Gravações de conversas entre Angelo e operadores de corretoras mostravam o executivo orientando operadores a dar uma "protegida no papel" para que a operação não caísse — linguagem que sugeria intenção de sustentar artificialmente o preço.

A CVM concluiu que o banco havia atuado de forma coordenada e sistemática, especialmente nos últimos pregões dos meses. A valorização das cotas poderia aumentar o resultado da carteira mantida pelo próprio banco e melhorar seus resultados financeiros nos balanços mensais. Em maio de 2021, a SMI — Superintendência de Relações com o Mercado e Intermediários — formalmente requisitou ao Máxima que explicasse as operações. A área técnica da CVM propôs responsabilizar tanto o banco quanto Angelo por suposta manipulação de preços. Mas em novembro de 2022, a CVM aceitou um acordo global. O Máxima se comprometeu a pagar R$ 2,208 milhões e Angelo, R$ 736 mil. O termo de compromisso, totalizando R$ 2,944 milhões, encerrou os procedimentos sem reconhecimento de culpa e sem que o mérito fosse julgado.

O que torna a aprovação de Angelo particularmente significativa é o contexto mais amplo de decisões do Banco Central sobre a instituição durante a gestão de Roberto Campos Neto. Em fevereiro de 2019, o BC havia rejeitado a transferência do controle do Máxima para Daniel Vorcaro, citando insuficiência de informações sobre a origem dos recursos e falta de demonstração de capacidade econômica e financeira. Oito meses depois, já sob Campos Neto, a diretoria colegiada reconsiderou e autorizou Vorcaro e seus sócios a assumir o controle. Em 2020, a própria supervisão do BC apontou problemas de liquidez e na estrutura do balanço do Máxima, avaliando que a instituição assumia riscos acima de sua capacidade de controle. O BC advertiu Vorcaro de que o descumprimento das medidas exigidas poderia levar à liquidação extrajudicial.

Apesar desses sinais de alerta, o Banco Central continuou aprovando operações. Em 2021, enquanto a CVM investigava o CARE11 e comunicava o caso ao BC, o Máxima virou Master, Angelo foi homologado como diretor e a autoridade monetária autorizou a aquisição do Banco Vipal. Os problemas persistiram. Entre 2022 e 2024, a fiscalização do BC enviou 31 ofícios ao conglomerado determinando ajustes de provisões, reforço de capital e melhorias na gestão. Em 2024, o Banco Central passou a acompanhar continuamente a liquidez do Master. A instituição se comprometeu a captar R$ 15 bilhões em recursos institucionais de longo prazo, mas conseguiu cerca de R$ 2 bilhões.

Campos Neto tinha conhecimento dos problemas de liquidez e, segundo reportagem do Estadão, evitou medidas mais extremas, como intervenção ou liquidação, em pelo menos duas ocasiões naquele ano. A alternativa adotada foi buscar uma solução de mercado. O ex-presidente do BC afirmou posteriormente que decisões dessa natureza não dependiam exclusivamente dele e que nenhuma proposta de intervenção ou liquidação foi submetida à diretoria colegiada durante sua gestão. A liquidação do Master seria decretada em novembro de 2025, já durante a gestão de Gabriel Galípolo. O BC apontou "grave crise de liquidez", comprometimento significativo da situação econômico-financeira e graves violações às normas do Sistema Financeiro Nacional.

O caso reapareceu agora em um relatório produzido por um grupo de trabalho da CVM sobre sua atuação em casos relacionados ao Master. O ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal, identificou uma possível conexão entre os fatos do processo CARE11 e elementos encontrados em outra apuração sob sua relatoria, envolvendo fundos de investimento e concessões de serviços funerários e cemitérios. Para o ministro, há elementos que sugerem um "padrão comum de atuação". Dino determinou à Polícia Federal que investigue as possíveis repercussões penais das operações envolvendo o CARE11, bem como outros episódios relacionados à atuação da CVM no caso Master, incluindo possíveis interferências indevidas na autarquia e eventual participação de agentes públicos. A PF tem prazo inicial de 60 dias para apresentar relatório. Cinco anos depois de a CVM ter comunicado os fatos ao Banco Central e ao Ministério Público Federal, o caso retorna agora pela via criminal.

A operação era 'pra não cair' e orienta o operador a dar uma 'protegida no papel'
— Angelo Antonio Ribeiro da Silva, em gravação de conversa com operador de corretora
Há elementos que sugerem, em tese, um 'padrão comum de atuação'
— Ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal
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