Angelo era responsável por operações suspeitas com cotas do fundo CARE11 que provocaram oscilação artificial de preços entre 2018 e 2019. A CVM propôs responsabilização de Angelo e do banco por manipulação, mas o caso terminou em acordo em 2022 sem reconhecimento de culpa.
BC aprovou diretor do Master investigado pela CVM mesmo após alerta sobre manipulação
Homologou Angelo mesmo após alerta sobre investigação de manipulação
Como é possível que o BC tenha aprovado alguém sob investigação da CVM? Não havia um sistema de comunicação entre as duas autarquias?
Havia sim — a CVM enviou comunicações formais ao BC sobre o caso em 2021. O documento está citado no relatório que o ministro Dino usou em sua decisão. Mas a aprovação saiu pouco mais de um mês depois.
Espera. A CVM comunicou sobre a investigação, mas não sobre uma condenação. O caso terminou em acordo sem reconhecimento de culpa. Então tecnicamente Angelo não foi condenado por nada quando foi aprovado.
Verdade, mas a CVM havia proposto responsabilizá-lo por manipulação de preços. Havia gravações de conversas dele orientando operadores. Havia 455 operações suspeitas. Isso não é nada.
E o Banco Central sabia de todos esses detalhes quando aprovou Angelo?
O documento da CVM que Dino cita diz que a SMI enviou comunicações formais. Mas não sabemos exatamente o que estava nessas comunicações — se era um resumo ou se incluía as gravações e os números específicos.
O que sabemos é que o BC tinha histórico de problemas com essa instituição. Havia rejeitado Vorcaro dois anos antes. Em 2020 já apontava riscos acima da capacidade de controle. Então não era como se o BC não tivesse razão para ser cauteloso.
Mas foi cauteloso? Aprovou Angelo, aprovou a aquisição do Vipal, deixou a coisa continuar até 2024.
E enviou 31 ofícios entre 2022 e 2024 pedindo ajustes. Então havia supervisão, mas aparentemente não foi suficiente para evitar o colapso.
O que é interessante agora é que Dino vê um padrão. Não é só o CARE11. Há outras operações envolvendo fundos de investimento e serviços funerários. Ele está mandando a PF investigar se há algo sistemático aqui.
Então a questão não é só se Angelo deveria ter sido aprovado. É se havia algo maior acontecendo.
Exatamente. E se havia, por que ninguém viu antes. Ou se viram, por que não agiram.
El Pulso
- Angelo Antonio Ribeiro da Silva foi homologado diretor do Banco Master em 4 de agosto de 2021
- 455 operações de compra do fundo CARE11 entre setembro de 2018 e dezembro de 2019 provocaram oscilação artificial de preços
- CVM propôs responsabilização por manipulação; caso terminou em acordo de R$ 2,944 milhões em novembro de 2022 sem reconhecimento de culpa
- Banco Master foi liquidado em novembro de 2025 por grave crise de liquidez
- Ministro Flávio Dino determinou investigação criminal à PF em setembro de 2026
Angelo era responsável por operações suspeitas com cotas do fundo CARE11 que provocaram oscilação artificial de preços entre 2018 e 2019. A CVM propôs responsabilização de Angelo e do banco por manipulação, mas o caso terminou em acordo em 2022 sem reconhecimento de culpa.
O Banco Central sob Campos Neto homologou Angelo Antonio Ribeiro da Silva como diretor do Banco Master após receber da CVM comunicação sobre investigação de manipulação de preços envolvendo o executivo no antigo Banco Máxima.
Em agosto de 2021, o Banco Central homologou Angelo Antonio Ribeiro da Silva como diretor do Banco Master. A aprovação ocorreu pouco mais de um mês após a autoridade monetária autorizar a mudança de nome de Banco Máxima para Banco Master. Mas havia um problema que o BC conhecia: meses antes, a Comissão de Valores Mobiliários havia comunicado formalmente à instituição que investigava operações nas quais Angelo estava diretamente envolvido — negociações que a CVM suspeitava terem manipulado artificialmente os preços de um fundo imobiliário.
As operações questionadas ocorreram entre 2018 e 2019, quando Angelo era responsável por emitir ordens de compra do fundo CARE11 pelo Banco Máxima. A BSM Supervisão de Mercados, braço de autorregulação da B3, identificou a atuação suspeita e passou a investigar. Em abril de 2020, o caso chegou à CVM. A análise revelou 455 operações de compra realizadas entre setembro de 2018 e dezembro de 2019 que provocaram oscilação positiva na cotação. Em períodos considerados críticos, o Máxima respondeu por entre 48,9% e 87% de todas as compras do fundo. Gravações de conversas entre Angelo e operadores de corretoras mostravam o executivo orientando operadores a dar uma "protegida no papel" para que a operação não caísse — linguagem que sugeria intenção de sustentar artificialmente o preço.
A CVM concluiu que o banco havia atuado de forma coordenada e sistemática, especialmente nos últimos pregões dos meses. A valorização das cotas poderia aumentar o resultado da carteira mantida pelo próprio banco e melhorar seus resultados financeiros nos balanços mensais. Em maio de 2021, a SMI — Superintendência de Relações com o Mercado e Intermediários — formalmente requisitou ao Máxima que explicasse as operações. A área técnica da CVM propôs responsabilizar tanto o banco quanto Angelo por suposta manipulação de preços. Mas em novembro de 2022, a CVM aceitou um acordo global. O Máxima se comprometeu a pagar R$ 2,208 milhões e Angelo, R$ 736 mil. O termo de compromisso, totalizando R$ 2,944 milhões, encerrou os procedimentos sem reconhecimento de culpa e sem que o mérito fosse julgado.
O que torna a aprovação de Angelo particularmente significativa é o contexto mais amplo de decisões do Banco Central sobre a instituição durante a gestão de Roberto Campos Neto. Em fevereiro de 2019, o BC havia rejeitado a transferência do controle do Máxima para Daniel Vorcaro, citando insuficiência de informações sobre a origem dos recursos e falta de demonstração de capacidade econômica e financeira. Oito meses depois, já sob Campos Neto, a diretoria colegiada reconsiderou e autorizou Vorcaro e seus sócios a assumir o controle. Em 2020, a própria supervisão do BC apontou problemas de liquidez e na estrutura do balanço do Máxima, avaliando que a instituição assumia riscos acima de sua capacidade de controle. O BC advertiu Vorcaro de que o descumprimento das medidas exigidas poderia levar à liquidação extrajudicial.
Apesar desses sinais de alerta, o Banco Central continuou aprovando operações. Em 2021, enquanto a CVM investigava o CARE11 e comunicava o caso ao BC, o Máxima virou Master, Angelo foi homologado como diretor e a autoridade monetária autorizou a aquisição do Banco Vipal. Os problemas persistiram. Entre 2022 e 2024, a fiscalização do BC enviou 31 ofícios ao conglomerado determinando ajustes de provisões, reforço de capital e melhorias na gestão. Em 2024, o Banco Central passou a acompanhar continuamente a liquidez do Master. A instituição se comprometeu a captar R$ 15 bilhões em recursos institucionais de longo prazo, mas conseguiu cerca de R$ 2 bilhões.
Campos Neto tinha conhecimento dos problemas de liquidez e, segundo reportagem do Estadão, evitou medidas mais extremas, como intervenção ou liquidação, em pelo menos duas ocasiões naquele ano. A alternativa adotada foi buscar uma solução de mercado. O ex-presidente do BC afirmou posteriormente que decisões dessa natureza não dependiam exclusivamente dele e que nenhuma proposta de intervenção ou liquidação foi submetida à diretoria colegiada durante sua gestão. A liquidação do Master seria decretada em novembro de 2025, já durante a gestão de Gabriel Galípolo. O BC apontou "grave crise de liquidez", comprometimento significativo da situação econômico-financeira e graves violações às normas do Sistema Financeiro Nacional.
O caso reapareceu agora em um relatório produzido por um grupo de trabalho da CVM sobre sua atuação em casos relacionados ao Master. O ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal, identificou uma possível conexão entre os fatos do processo CARE11 e elementos encontrados em outra apuração sob sua relatoria, envolvendo fundos de investimento e concessões de serviços funerários e cemitérios. Para o ministro, há elementos que sugerem um "padrão comum de atuação". Dino determinou à Polícia Federal que investigue as possíveis repercussões penais das operações envolvendo o CARE11, bem como outros episódios relacionados à atuação da CVM no caso Master, incluindo possíveis interferências indevidas na autarquia e eventual participação de agentes públicos. A PF tem prazo inicial de 60 dias para apresentar relatório. Cinco anos depois de a CVM ter comunicado os fatos ao Banco Central e ao Ministério Público Federal, o caso retorna agora pela via criminal.
Citas Notables
A operação era 'pra não cair' e orienta o operador a dar uma 'protegida no papel'— Angelo Antonio Ribeiro da Silva, em gravação de conversa com operador de corretora
Há elementos que sugerem, em tese, um 'padrão comum de atuação'— Ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal