Fundada em 1986 por Marcelo Ferraz e Marcelo Suzuki após trabalho com Lina Bo Bardi, a Baraúna prioriza durabilidade e desenho que não envelhece. A cadeira Girafa, criada com Lina Bo Bardi, demorou dez anos para vender mas tornou-se o móvel mais conhecido da empresa, hoje custando de R$ 2.375 a R$ 6.000.
Baraúna celebra 40 anos nadando na contramão da novidade
A gente talvez nade na contracorrente da novidade
Por que escolher móveis usados para uma exposição de aniversário? Parece uma decisão estranha para celebrar.
Não é celebração no sentido de mostrar o novo. É mostrar que aquilo que a Baraúna fez há 40 anos ainda está sendo usado, ainda funciona, ainda é bonito. Os riscos e manchas não são defeitos — são provas de que o desenho resistiu.
Mas isso é uma seleção. Nem todo móvel que a empresa fez há 40 anos sobreviveu. Estamos vendo os sucessos, não a história completa.
Verdade. Mas a intenção é clara: a filosofia deles é que um bom desenho não envelhece. Essa exposição testa essa ideia.
E a Girafa? Ouvi dizer que demorou dez anos para vender.
Demorou mesmo. Lina nem acreditava que ia funcionar. Mas depois virou o móvel mais vendido da empresa.
Dez anos é um tempo longo. Quantas outras peças não tiveram a mesma sorte? Quantas foram descontinuadas?
Boa pergunta. O texto não diz. Mas Ferraz deixa claro que eles não estão perseguindo novidade — estão perseguindo profundidade.
Ele fala muito sobre não ser mágico, sobre móvel vir de móvel. Isso é humildade ou é uma crítica ao design contemporâneo?
Acho que é os dois. Ele está dizendo que design não é gênio individual. É trabalho, é acúmulo, é experimentação.
Mas ele também está vendendo cadeiras por até R$ 6 mil. Não é exatamente acessível, apesar do discurso sobre preços baixos.
Ele reconhece isso. Diz que o ideal seria barato, mas não é o que acontece. Madeira maciça, trabalho manual — tem um custo.
E agora vão para Nova York, Los Angeles, Miami e Londres. Isso muda a história?
Muda o alcance. Mas a filosofia permanece a mesma: não querem ser novidade.
Le Pouls
- Fundada em 1986 por Marcelo Ferraz e Marcelo Suzuki após trabalho com Lina Bo Bardi no Sesc Pompeia
- Cadeira Girafa demorou dez anos para vender, hoje custa de R$ 2.375 a R$ 6.000
- Ferraz trabalhou com Lina Bo Bardi por 15 anos, até sua morte em 1992
- Acordo com Espasso para representação em Nova York, Los Angeles, Miami e Londres
Fundada em 1986 por Marcelo Ferraz e Marcelo Suzuki após trabalho com Lina Bo Bardi, a Baraúna prioriza durabilidade e desenho que não envelhece. A cadeira Girafa, criada com Lina Bo Bardi, demorou dez anos para vender mas tornou-se o móvel mais conhecido da empresa, hoje custando de R$ 2.375 a R$ 6.000.
A Marcenaria Baraúna comemora quatro décadas com exposição de móveis usados que resistiram ao tempo, refletindo sua filosofia de design atemporal contra a lógica da novidade.
Na quarta-feira passada, a Marcenaria Baraúna abriu as portas de sua exposição de aniversário de 40 anos com uma escolha deliberada: nenhum dos móveis em exibição havia sido fabricado para a ocasião. A empresa pediu emprestado aos clientes peças que já acumulavam décadas de uso — mesas e cadeiras marcadas por riscos, manchas e alterações na madeira, cada uma delas um testemunho de tempo vivido.
Marcelo Ferraz, um dos fundadores, caminhava pela Vila Madalena explicando a intenção por trás dessa seleção. Aqueles móveis usados contavam uma história que nenhuma peça nova poderia contar: que uma mesa feita há 40 anos, ou 35, ou 30, ainda estava de pé, ainda era útil, ainda era bela. A escolha resumia uma filosofia que acompanha a Baraúna desde sua fundação em 1986 — a ideia de que um móvel deve durar não porque foi bem construído, mas porque seu desenho não envelhece. "A gente talvez nade na contracorrente da novidade", disse Ferraz. "Nesse campo do design tem muito essa coisa da moda, da novidade. E a gente acha que as coisas que ficam mais tempo são mais profundas."
A marcenaria nasceu quando Ferraz e o arquiteto Marcelo Suzuki terminavam o trabalho no Sesc Pompeia, projeto de Lina Bo Bardi. Os dois haviam participado da produção do mobiliário para aquele espaço e resolveram abrir uma marcenaria própria. Ferraz trabalhou com Lina por 15 anos, até sua morte em 1992. Francisco Fanucci, sócio de Ferraz no escritório Brasil Arquitetura, também participou da criação da empresa. Quando Lina aprovou a ideia, fez um alerta que se mostraria profético: "Acho ótimo. Mas tome cuidado, porque é complicado." Ela previu que os móveis seriam copiados — e tinha razão em se preocupar com a proteção daquilo que sairia da marcenaria.
Entre as primeiras peças estava a cadeira Girafa, criada por Lina, Ferraz e Suzuki, hoje o móvel mais conhecido da Baraúna. Foi feita inicialmente para a Casa do Benin, em Salvador. Lina não acreditava que funcionaria. "A gente fazendo a Girafa e a Lina dizia que não ia dar certo, que ela já tinha experimentado aquilo dez anos antes. Eu e Suzuki começamos a insistir." A abertura da marcenaria permitiu fazer protótipos em tamanho real. A cadeira ficou de pé. Lina aprovou e deu a ela o nome de Girafa. Ela rejeitava comparações com o famoso banco de três pés do finlandês Alvar Aalto, dizendo: "A nossa cadeira não é cadeira de sanatório." A Girafa demorou a vender — Ferraz calcula que levou cerca de dez anos para ganhar mercado. Quatro décadas depois, continua sendo a peça mais vendida pela empresa, com preços que variam de R$ 2.375 na versão convencional a R$ 6.000 em edição especial numerada em grumixama.
Ferraz rejeita a noção romântica de que um designer produza objetos inteiramente novos a partir de um gesto de inspiração. "Móveis são feitos a partir de outros móveis, que foram feitos a partir de outros móveis. Tudo vem numa evolução, num acúmulo de conhecimento." Esse repertório inclui arquitetos conhecidos e objetos sem autoria identificada — bancos rurais brasileiros, móveis antigos europeus, peças de Aalto e Álvaro Siza. "Hoje em dia os designers são um pouco mágicos. 'Fiz uma luminária, fiz uma cadeira.' Uma cadeira é uma coisa muito complexa. Se você fizer uma cadeira na vida, pode ficar satisfeito."
O texto da exposição descreve a busca da Baraúna pela "coisa justa": eliminar o que não é necessário sem esconder como o móvel foi construído. Isso não significa que os desenhos permaneçam intocados. Ferraz mostrou uma cadeira inspirada em Siza que precisou ser reforçada anos depois, com uma peça estrutural aumentada para suportar melhor o peso. "O móvel a gente desenha, faz os protótipos, experimenta, experimenta, aí chega uma hora e fala: 'Está pronto'. Anos depois você vem, faz uma interferência nele e ele melhora um pouquinho."
A Baraúna continua produzindo novos móveis. A cadeira Maria, de Ferraz, nasceu de referências de antigas cadeiras de canto que ele guardava há anos. O desenho só saiu do papel quando Maria Bethânia completou 50 anos de carreira e uma exposição no Paço Imperial, no Rio, reuniu trabalhos em homenagem à cantora — um exemplo de criação menos ligada à inspiração repentina do que a uma elaboração longa. Francisco Fanucci, o outro sócio atual, aborda na exposição um dos elementos centrais dessa produção: a madeira maciça. "A imensa diversidade, beleza e qualidade das madeiras provenientes dos biomas brasileiros nos oferece um universo riquíssimo de possibilidades", escreve em um dos painéis. Variações de textura e coloração podem ocorrer até numa única tábua. Em vez de defeitos, tornam cada peça diferente. A Baraúna não usa MDF. Apesar da madeira maciça e do trabalho manual, Ferraz diz que a empresa tenta manter os preços baixos — embora reconheça que o ideal seria que as cadeiras fossem muito baratas e pudessem encher o mundo.
Mais da metade da produção é de peças de linha, segundo Ferraz. O restante vem de encomendas, de estantes a quartos de criança. Suzuki deixou a sociedade depois dos primeiros dez anos, mas a Baraúna continua produzindo alguns de seus desenhos. Desde 2023, também fabrica, por acordo com o Instituto Bardi, outros móveis de Lina Bo Bardi. Agora a empresa prepara outro movimento: Ferraz fechou um acordo com a Espasso, especializada em design brasileiro, para representar a Baraúna em Nova York, Los Angeles, Miami e Londres. A expansão chega quando a empresa olha para trás sem tratar sua história como encerrada. "A gente trabalha sempre em coisas novas", diz Ferraz. "Mas não queremos ser novidade."
Citations marquantes
Nesse campo do design tem muito essa coisa da moda, da novidade. E a gente acha que as coisas que ficam mais tempo são mais profundas.— Marcelo Ferraz, fundador da Baraúna
A gente trabalha sempre em coisas novas. Mas não queremos ser novidade.— Marcelo Ferraz