Bancos veem potencial de alta de até 28% na Bolsa brasileira após eleições

O mercado criou uma desconexão entre o medo político e os fundamentos
Investidores fugiram do Brasil em agosto, mas os fundamentos econômicos não pioraram na mesma proporção.
Mark

Por que agora? O que mudou para que esses bancos vejam essa oportunidade justamente antes das eleições?

Mimi

O mercado brasileiro está negociando com um desconto significativo — a cerca de 8,6 vezes o lucro projetado — enquanto os investidores estrangeiros praticamente fugiram. Retiraram R$ 13 bilhões em agosto. Mas os fundamentos não pioraram tanto assim. É como se o medo político tivesse criado uma desconexão.

Luke

Mas espera — 60% dos investidores globais dizem que estão "leves" em Brasil. Isso é uma posição reduzida ou é só o que eles estão dispostos a admitir em uma pesquisa?

Mimi

É uma pesquisa do Goldman com 70 investidores. Não é uma amostra pequena, mas também não é o universo inteiro. O ponto é que há espaço para entrada de capital se a incerteza eleitoral se resolver.

Mark

E se a oposição vencer, o que muda concretamente?

Mimi

A tese principal é sobre juros. Se há uma mudança política que leva a uma agenda fiscal mais disciplinada, o Banco Central pode cortar a Selic com mais confiança. O Brasil tem juros reais de 9,3% — entre os maiores do mundo. Se caem 200 a 300 pontos-base, as ações mais sensíveis aos juros podem subir 30% ou mais.

Luke

Mas a Global X também disse que uma vitória de Lula já está "amplamente precificada". Então qual é o cenário que realmente surpreende positivamente?

Mimi

Uma vitória mais clara da oposição, ou sinais mais fortes de que a política fiscal vai melhorar. Lula já é esperado. O que não está precificado é uma mudança mais radical.

Mark

Quais setores ganham mais com isso?

Mimi

Bancos principalmente — 38% da cesta que o Goldman montou. Depois construção civil, imobiliário, industriais. Setores que sofrem com juros altos.

Luke

E isso é diferente de apostar em IA ou tech?

Mimi

Completamente. O MSCI Brazil é 40% bancos e 37% commodities. Não é o mercado que está subindo em Nova York. É uma aposta em um mercado que foi deixado para trás.

Mark

Então o risco aqui é que a eleição não mude nada?

Luke

Ou que mude para pior. A pesquisa mostra que o mercado reagiu 0,72% em média quando as chances da oposição melhoraram em setembro. Mas se a oposição perder, ou se ganhar mas não conseguir fazer as reformas que o mercado espera, você volta ao ponto de partida — ou pior.

  • MSCI Brazil negocia a 8,6 vezes o lucro projetado, perto do cenário de deterioração
  • Potencial de valorização de 28% em cenário de melhora, até 54% em ajuste estrutural
  • Investidores estrangeiros retiraram R$ 13 bilhões entre 11 e 18 de agosto
  • 60% dos investidores globais consultados estão leves ou muito leves em Brasil
  • Brasil tem juros reais de 9,3%, entre os maiores do mundo

MSCI Brazil negocia com desconto em relação a cenários de melhora econômica, oferecendo potencial de valorização de 28% em ambiente mais favorável. Investidores estrangeiros mantêm posições reduzidas no Brasil, com 60% dos consultados pelo Goldman declarando-se leves ou muito leves no país.

JPMorgan, Goldman Sachs e Global X identificam oportunidade rara no mercado brasileiro antes das eleições de outubro, apontando potencial de valorização de 28% a 54% caso haja mudança no cenário político e econômico.

Faltando menos de duas semanas para o primeiro turno das eleições presidenciais, três das maiores instituições financeiras do mundo — JPMorgan, Goldman Sachs e a gestora Global X — enxergam uma oportunidade rara se formando no mercado brasileiro. Seus relatórios recentes convergem em um diagnóstico: a bolsa está negociando com desconto, os investidores internacionais mantêm posições pequenas no país, e a definição do cenário eleitoral pode funcionar como gatilho para uma reprecificação significativa dos ativos.

O JPMorgan calculou que o MSCI Brazil está sendo negociado a cerca de 8,6 vezes o lucro projetado para os próximos 12 meses — um patamar mais próximo do que o banco chama de cenário de "deterioração" do que de "melhora". Se o mercado migrar para um ambiente de melhora econômica e política, o índice teria potencial de valorização de aproximadamente 28%. Em um cenário ainda mais otimista, batizado de "ajuste estrutural", o espaço de alta poderia alcançar 54%. O banco observou um padrão claro: desde julho, o MSCI Brazil subiu em média 0,20% nos dias em que aumentaram as chances da oposição nas pesquisas e mercados de apostas. Em setembro, esse efeito se intensificou, com avanços médios de 0,72% nos dias de melhora das probabilidades eleitorais da oposição. Os estrategistas do JPMorgan acreditam que uma possível mudança na política econômica combinada com uma agenda fiscal mais disciplinada poderia reproduzir o movimento observado entre 2016 e 2020, período marcado pela queda dos juros e expansão dos múltiplos das ações brasileiras.

O diagnóstico sobre o posicionamento dos investidores estrangeiros é particularmente revelador. A Global X destacou que investidores internacionais retiraram cerca de R$ 13 bilhões da bolsa brasileira entre 11 e 18 de agosto — um dos maiores movimentos de saída de recursos desde 2008. Ainda assim, a gestora argumenta que os fundamentos da economia não sofreram uma deterioração compatível com a magnitude dessa reação. O Goldman Sachs chegou à mesma conclusão em pesquisa realizada com 70 investidores globais: ações brasileiras são atualmente a classe de ativos menos comprada pelos investidores internacionais. Cerca de 60% dos participantes se declararam "leves" ou "muito leves" em Brasil. Simultaneamente, essas mesmas ações foram apontadas como a classe de ativo com maior potencial de valorização caso o cenário eleitoral evolua de forma favorável. Metade dos investidores consultados pelo banco acredita que o ETF EWZ pode subir pelo menos 20% até o fim do ano em um cenário de vitória da oposição.

Os três bancos apontam a trajetória dos juros como o principal mecanismo de transmissão para a bolsa. A Global X destaca que o Brasil continua oferecendo juros reais próximos de 9,3%, um dos maiores entre as grandes economias, e que a expectativa de cortes da Selic tende a favorecer uma expansão dos múltiplos das ações. O JPMorgan calculou que uma queda mais expressiva das taxas poderia adicionar entre 21% e 41% de valorização ao MSCI Brazil no médio prazo. O Goldman Sachs, por sua vez, acredita que o principal benefício não estará concentrado no Ibovespa como um todo, mas em empresas mais sensíveis aos juros domésticos. Segundo a instituição, o Brasil possui os juros reais mais elevados do mundo e apresenta uma das maiores correlações entre mercado acionário e taxas locais entre os emergentes. O banco calculou que, se o mercado passar a precificar entre 200 e 300 pontos-base de cortes nas taxas de curto prazo, sua cesta de ações mais expostas aos juros poderia passar por uma reprecificação superior a 30%, com expansão do múltiplo preço/lucro de 9 vezes para 12 vezes.

O Goldman Sachs construiu uma cesta composta pelas 30 ações do Ibovespa mais correlacionadas aos juros de cinco anos no Brasil. O portfólio é formado principalmente por empresas financeiras, que representam 38% da carteira, além de companhias de construção civil e imobiliário (17%), industriais (17%), utilities (12%), consumo discricionário (9%) e materiais básicos (6%). Em períodos históricos de fechamento relevante da curva de juros, esse grupo de empresas entregou retorno aproximadamente três vezes superior ao do Ibovespa. A tese dialoga com a avaliação da Global X de que a bolsa brasileira pode funcionar como uma alternativa aos mercados atualmente dominados pelas empresas ligadas à inteligência artificial. Segundo a gestora, cerca de 40% do MSCI Brazil é composto por bancos e 37% por empresas de commodities, setores pouco dependentes do ciclo de investimentos em IA.

A visão geral entre as três instituições é de que boa parte das más notícias parece já estar refletida nas cotações. A Global X destaca que o MSCI Brazil negocia a cerca de 8,3 vezes o lucro projetado e oferece dividend yield próximo de 7%, combinação considerada incomum para o padrão histórico do mercado brasileiro. Na visão da gestora, uma eventual vitória de Lula tende a ter impacto mais limitado sobre os ativos porque esse cenário já estaria amplamente precificado. O principal potencial de surpresa positiva ficaria associado a um resultado mais favorável à oposição ou a uma melhora das expectativas para a política fiscal e para os juros.

Uma migração para um ambiente de melhora econômica e política implicaria potencial de valorização de aproximadamente 28% para o índice
— JPMorgan
Ações brasileiras são atualmente a classe de ativos menos comprada pelos investidores internacionais
— Goldman Sachs
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