Banco digital falso fechou após fraudes de R$ 18 mi em reembolsos de saúde

Beneficiários de planos de saúde foram enganados ao fornecer credenciais de acesso para operações fraudulentas sem seu conhecimento efetivo.
Um verdadeiro esquema de dinheiro infinito
Descrição judicial do mecanismo usado pelo Theos Bank para facilitar fraudes de reembolso em planos de saúde.
Mark

Como exatamente um banco sem registro no Banco Central conseguiu operar por dois anos sem ser parado?

Mimi

Porque não se apresentava como banco. Era uma fintech, uma empresa de tecnologia oferecendo serviços de pagamento. A regulação estava alguns passos atrás. Só quando os planos de saúde começaram a investigar é que viram a estrutura.

Mark

E os pacientes? Eles sabiam que estavam participando de fraude?

Mimi

Muitos não. Foram orientados a fornecer credenciais de acesso e a validar operações se ligassem para confirmar. Alguns talvez suspeitassem que algo estava errado, mas a promessa era irrecusável: serviço de graça, sem sair do bolso.

Mark

Por que o banco fechou tão rápido depois das liminares?

Mimi

Porque perdeu sua utilidade. Sem poder intermediar as operações com as clínicas, sem poder emitir comprovantes que os planos aceitassem, não tinha mais negócio. Era um instrumento criado para um propósito específico.

Mark

A defesa ainda nega tudo?

Mimi

Completamente. Diz que não precisava de autorização do Banco Central, que operava legalmente, que nunca cometeu fraude. Mas o padrão é claro: criada para isso, funcionou dois anos, fechou quando a Justiça bloqueou.

Mark

Isso vai parar por aqui?

Mimi

Dificilmente. A Fenasaúde vê isso como ponta de iceberg. A Polícia Civil já fez operação maior descobrindo clínicas-fantasmas e exames forjados. Provavelmente há mais esquemas usando outras ferramentas.

  • Theos Bank movimentou R$ 18 milhões em reembolsos fraudulentos em dois anos
  • Instituição fechou em 7 de agosto de 2024 após liminares favoráveis aos planos de saúde
  • Nunca teve registro no Banco Central e operava como intermediária de fraudes com clínicas não credenciadas

O Theos Bank operava como intermediário em fraudes de reembolso, emitindo comprovantes falsos de pagamento para clínicas e laboratórios não credenciados. A empresa fechou em agosto após liminares favoráveis aos planos de saúde que proibiam o pagamento de reembolsos irregulares e impediam a intermediação de operações.

Operadoras de saúde denunciam que o Theos Bank, banco digital sem registro no Banco Central, foi criado para emitir comprovantes fraudulentos em esquema de reembolsos com clínicas e laboratórios, movimentando cerca de R$ 18 milhões em dois anos.

Em agosto, um banco digital que nunca existiu oficialmente simplesmente desapareceu. O Theos Bank — nome fantasia de uma empresa de tecnologia chamada RRF Gestão e Administração de Recursos Financeiros — fechou as portas após dois anos operando à margem do sistema financeiro regulado, movimentando aproximadamente R$ 18 milhões em reembolsos que operadoras de saúde agora descrevem como fraudulentos. A instituição nunca teve registro no Banco Central, um detalhe que sua defesa argumenta ser irrelevante para as atividades que realizava.

O esquema, segundo denúncias da Fenasaúde e de seus associados como SulAmérica e Bradesco Saúde, funcionava de forma engenhosamente simples. Clínicas e laboratórios não credenciados — particularmente a S'Agapo Medicina Diagnóstica e Genética e o laboratório Mitros Lab, ambos em São Paulo — ofereciam serviços de saúde com uma promessa atraente: o plano pagaria tudo. Os pacientes não precisavam desembolsar nada. Bastava fornecer seu login e senha dos aplicativos dos planos de saúde. A clínica cuidaria de toda a burocracia do reembolso. O que os beneficiários não sabiam era que estavam autorizando operações que nunca deveriam ter sido aprovadas.

O Theos Bank era o intermediário perfeito para tornar isso possível. Funcionava sob o modelo chamado "private label", emitindo cartões restritos ao uso em clínicas específicas. No início de cada mês, a clínica ou laboratório depositava uma quantia em uma "conta bolsão" no banco. Quando o paciente era atendido, recebia um cartão carregado com o valor exato do serviço prestado. Ao usar o cartão na maquininha do Theos, o dinheiro retornava imediatamente para a conta bolsão. Um dos documentos judiciais descreve o mecanismo com precisão: "um verdadeiro esquema de dinheiro infinito". No final, um comprovante era emitido atestando que o paciente havia pagado. Esse comprovante — falso — era então anexado ao pedido de reembolso que a clínica fazia em nome do beneficiário. Se a operadora ligasse para confirmar, o paciente já estava orientado a validar a operação.

O sistema desmoronou quando as operadoras de saúde endureceram a fiscalização. Após descobrir a fraude através de inteligência artificial e contato direto com beneficiários, a SulAmérica e outras seguradoras ingressaram com ações judiciais pedindo autorização para negar pagamentos irregulares. Em setembro de 2023, começaram a chegar as primeiras liminares favoráveis aos planos. Essas decisões não apenas bloqueavam os reembolsos fraudulentos — impediam também que o Theos Bank continuasse intermediando operações com as clínicas. Sem sua função, a instituição não tinha razão de existir. No dia 7 de agosto de 2024, fechou.

A defesa do banco, representada pelo advogado Rodrigo Luiz de Oliveira Staut, nega qualquer ilegalidade. Argumenta que a empresa não precisava de autorização do Banco Central para as atividades que realizava e que nunca participou de fraude alguma. Um ofício enviado ao tribunal em 2 de setembro informava que a empresa havia encerrado operações e acumulava zero reais em faturamento nos oito meses anteriores. O advogado pediu gratuidade da Justiça para arcar com os custos processuais. Há quatro ações tramitando contra o Theos — em uma obteve liminar favorável, nas demais as decisões beneficiaram os planos de saúde.

Rosangela Eleutheriou, uma das sócias da S'Agapo e do Mitros Lab, respondeu por mensagem que nenhum ato criminoso foi realizado e que o caso já foi objeto de inquérito policial sem que crime algum fosse constatado. Vera Valente, diretora-executiva da Fenasaúde, tem interpretação diferente. Para ela, o fechamento do banco comprova que foi criado exclusivamente para facilitar fraudes. "Na hora em que teve a decisão da Justiça, fechou", afirma. Ela vê o caso como sintoma de um problema maior: fraudadores sempre estão um passo à frente, e a criatividade para enganar é enorme. Seu alerta é direto: nunca forneça login e senha de seus planos de saúde. "Certamente essa fintech é a ponta de um iceberg."

Em agosto, a Polícia Civil de São Paulo executou 49 mandados de busca e apreensão em operação contra fraudes em planos de saúde, descobrindo clínicas-fantasmas, pedidos médicos forjados e resultados de exames falsificados. O Theos Bank pode ter sido apenas uma ferramenta sofisticada em um esquema muito mais amplo. O que fica claro é que dois anos de operações movimentando R$ 18 milhões deixaram rastros — e agora a Justiça está rastreando-os.

Ficou evidente que o banco tinha sido criado apenas para esse tipo de fraude. Na hora em que teve a decisão da Justiça, fechou
— Vera Valente, diretora-executiva da Fenasaúde
Certamente essa fintech é a ponta de um iceberg
— Vera Valente, diretora-executiva da Fenasaúde
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