Bancada digital ampliada quer desmantelar regulação de big techs e IA

O órgão que representa o governo passa a influenciar o que se diz sobre o governo
Senadora eleita Carol de Toni critica mecanismo pelo qual AGU pode notificar plataformas para remover anúncios sobre políticas públicas.
Mark

Por que essa bancada digital quer desmantelar regulações que foram construídas justamente para proteger dados e combater abuso?

Mimi

Eles veem essas regulações como ferramentas de censura política. Para eles, a ANPD e o Marco Civil foram usados para remover conteúdo conservador das plataformas. Querem devolver o poder ao Congresso e às plataformas, não a agências.

Luke

Mas espera — a ANPD foi criada para proteção de dados, não para moderação de conteúdo. Eles estão confundindo as duas coisas?

Mimi

Parcialmente. A ANPD ganhou atribuições sobre moderação através de decretos e interpretações do STF. Eles argumentam que isso nunca foi votado pelo Congresso.

Mark

E quanto ao ECA Digital? Parece que querem manter, mas ajustar.

Mimi

Sim, porque afeta crianças. Mas veem pontos "excessivos" — como a definição de conteúdo nocivo, que dizem ser vaga demais.

Luke

Vaga demais para quem? Para influenciadores infantis ou para quem quer postar conteúdo que o ECA considera prejudicial?

Mimi

Eles dizem que a lei alcança debates morais e religiosos que não deveriam estar lá. Mas é verdade que a lei é ampla.

Mark

E esse "czar de IA"? Parece que estão criando outra estrutura de poder, não reduzindo.

Mimi

É diferente — seria focado em inovação e automatização, não em regulação restritiva. Mas você tem razão, é ainda centralização de poder.

Luke

Ninguém sabe ainda como esse czar funcionaria ou quem seria. Estão em conversas laterais, não há proposta formal.

Mark

Então basicamente estão trocando um tipo de regulação por outro?

Mimi

Não exatamente. Estão reduzindo regulação sobre conteúdo e aumentando incentivos a inovação. É uma escolha política diferente.

  • Bancada digital ampliada no Congresso pretende reverter decreto sobre Marco Civil da Internet e reduzir poderes da ANPD
  • Flávio Bolsonaro planeja revogar decretos de Lula e criar 'czar de IA' focado em automatização administrativa
  • Próximo presidente indicará 3 das 5 cadeiras da ANPD, incluindo presidência, se vagas não forem preenchidas em 2026
  • PL de IA será 'desidratado' para excluir pagamento de direitos autorais e escala de risco; PL de Mercados Digitais não deve avançar

A bancada digital ampliada no Congresso pretende reverter o decreto que regulamentou o Marco Civil da Internet e reduzir poderes da ANPD sobre moderação de conteúdo. Flávio Bolsonaro planeja revogar decretos de Lula e criar 'czar de IA' no governo, focando em inovação e automatização administrativa em vez de regulação restritiva.

Legisladores bolsonaristas eleitos em 2026 planejam desmantelar regulações de internet e IA, revogando decretos sobre proteção de dados e moderação de conteúdo que consideram restritivos à liberdade de expressão.

Nos corredores do Congresso Nacional, uma coalizão legislativa ampliada pela eleição de 2026 está se organizando em torno de uma agenda clara: desmantelar ou diluir as regulações que seus membros veem como obstáculos à liberdade de expressão digital. Essa bancada, fortalecida tanto na Câmara quanto no Senado, aponta para um confronto direto com a arquitetura regulatória construída nos últimos anos, particularmente os decretos que expandiram o papel da Agência Nacional de Proteção de Dados e as interpretações do Supremo Tribunal Federal sobre responsabilidade das plataformas.

Flávio Bolsonaro, caso eleito, pretende começar por um revogaço de decretos presidenciais. Entre os alvos está o decreto que estabeleceu a ANPD como reguladora da internet e que implementou a decisão do STF sobre o Marco Civil da Internet — a lei que aumentou a responsabilidade das plataformas por conteúdo de terceiros. A senadora eleita Carol de Toni, do PL de Santa Catarina, é clara sobre a intenção: devolver ao Congresso a regulamentação dessa decisão, através de uma lei que mantenha a ordem judicial como regra para remoção de conteúdo, mas preserve a capacidade de remover rapidamente crimes graves como abuso infantil. Magno Malta, senador eleito pelo Espírito Santo, alinha-se com essa posição.

O projeto de lei sobre mercados digitais, que regulamenta a concorrência entre plataformas e fortalece o Cade, não deve avançar sob essa nova configuração. Já o projeto de lei sobre inteligência artificial, aprovado no Senado e em tramitação na Câmara, será "desidratado", segundo avaliações de consultores ouvidos. Filipe Barros, senador eleito pelo Paraná, defende uma lei de IA "mínima", focada em incentivar investimentos e automatizar processos governamentais, sem as restrições que considera excessivas. De Toni critica o modelo europeu de regulação por risco mantido no projeto, as multas de até 50 milhões de reais por infração e a centralidade da ANPD na fiscalização.

A ANPD é o ponto de maior tensão. Carlos Jordy, senador eleito pelo Rio de Janeiro, argumenta que a agência tem papel legítimo na proteção de dados e segurança digital, mas não deve ser "árbitro político da liberdade de expressão". De Toni vai além: afirma que o Congresso nunca atribuiu à ANPD a função de fiscalizar moderação de conteúdo nas redes sociais. Ela aponta um risco: mesmo proibida de pedir remoção direta, a agência regula e fiscaliza as plataformas, estimulando remoção preventiva de conteúdo legítimo. Soma-se a isso a possibilidade de a Advocacia-Geral da União notificar plataformas para remover anúncios sobre políticas públicas, criando, na visão dessa senadora, um mecanismo pelo qual o governo influencia o que se diz sobre si mesmo.

O Estatuto Digital da Criança e do Adolescente, sancionado por Lula no ano passado, deve sobreviver, mas pode ser diluído por regulamentação. Lucas Pavanato, deputado eleito por São Paulo, vê pontos "mal concebidos" que causam problemas para influenciadores digitais infantis. De Toni defende ajustes na aplicação, particularmente na definição de conteúdo nocivo para que não alcance debates morais, religiosos ou políticos, e na proporcionalidade das obrigações conforme o porte das empresas.

Por outro lado, pode avançar uma regra de maior transparência na moderação de conteúdo pelas plataformas. Legisladores e Flávio Bolsonaro veem nessa transparência uma proteção contra o que caracterizam como censura a conteúdos de direita. De Toni propõe que a lei assegure ao usuário o direito de conhecer o motivo da remoção, pedir revisão humana e recuperar conteúdo quando a decisão estiver errada, além de obrigar as plataformas a informar quantos pedidos de remoção partiram de órgãos públicos. Essa agenda não é nova: em 2021, Jair Bolsonaro enviou uma medida provisória ao Senado para limitar remoção de conteúdo, mas Rodrigo Pacheco a devolveu.

Na campanha de Flávio, não há uma pessoa formalmente encarregada de política digital, mas Luiz Felipe Trevisan, executivo licenciado do Itaú, e Alexandre Iwata, ex-secretário de Desenvolvimento da Infraestrutura no governo Bolsonaro, têm abordado o tema em conversas com empresários. Há discussões para criar "chief AI officers" em ministérios e possivelmente um "czar de IA" ligado à Presidência, modelo seguido no governo Trump. O foco é usar inteligência artificial para automatizar processos administrativos — licenciamento ambiental, agendamentos no SUS, fiscalização de recursos públicos — e integrar pastas.

O poder sobre agências reguladoras será consolidado rapidamente. O próximo presidente indicará três das cinco cadeiras da ANPD, incluindo a presidência, se as indicações pendentes não forem concluídas em 2026. O Senado precisa aprovar essas indicações. No Cade, o próximo Senado aprovará até cinco posições centrais. A Anatel também terá vagas. A campanha de Flávio afirma que as propostas serão "aprimoradas durante a transição e ao longo do governo", e reafirma defesa da liberdade de expressão e combate a fake news, contrastando com o que caracteriza como controle estatal do PT.

A ANPD tem papel importante na fiscalização das plataformas, mas não deve se transformar em árbitro político da liberdade de expressão
— Senador eleito Carlos Jordy (PL-RJ)
A lei de IA precisa ser mínima, não é possível ser muito detalhada porque não vai acompanhar a evolução da tecnologia
— Senador eleito Filipe Barros (PL-PR)
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