O césio-137 permanece concentrado nos solos florestais ucranianos, contaminando bagas silvestres que ultrapassam limites de radioatividade permitidos para consumo humano. A Ucrânia é o segundo maior produtor mundial de groselhas e terceiro de mirtilos silvestres, exportando 15.400 toneladas em 2025 para a UE, Reino Unido e EUA.
Bagas radioativas de Chernóbil chegam ao mercado europeu misturadas com frutos limpos
Bagas radioativas misturadas com frutos limpos para cumprir a lei
Como é que bagas radioativas conseguem chegar legalmente aos mercados europeus?
Através de uma prática chamada diluição. Quando bagas contaminadas com césio-137 ultrapassam o limite legal de 600 becqueréis por quilograma, são misturadas com frutos limpos até a concentração média descer abaixo desse limite. Depois, o lote inteiro pode ser comercializado legalmente.
Mas isso significa que cada baga individual no lote final pode ainda estar contaminada, certo? O limite é apenas uma média?
Exatamente. O limite é uma concentração média. Uma baga pode ter o dobro da radioatividade permitida, desde que seja compensada por outras com menos.
E quem controla isto? Há verificações nos mercados europeus?
As exportações ucranianas de bagas congeladas passam por controlos aduaneiros, mas ao longo dos anos foram identificados lotes com concentrações excessivas de radioatividade. A guerra tornou o acompanhamento ainda mais difícil.
Portanto, não sabemos quantos lotes contaminados já passaram? E quanto à recolha ilegal?
A polícia ucraniana apreende regularmente frutos retirados ilegalmente da Zona de Exclusão. Alguns apresentavam radioatividade quatro vezes superior ao limite. A Chernobyl Children International sustenta que alguns conseguem entrar nas cadeias comerciais através de subornos e falsificação de documentos.
Por que as pessoas continuam a recolher bagas numa zona tão perigosa?
Porque é uma fonte de rendimento importante para comunidades rurais empobrecidas. A necessidade económica sobrepõe-se à preocupação com a exposição à radiação.
E as certificações biológicas? Como é que bagas radioativas conseguem esse rótulo?
Os critérios de certificação avaliam apenas a utilização de pesticidas e produtos químicos agrícolas, não a radioatividade do solo. Bagas contaminadas com césio-137 podem ser legalmente vendidas como biológicas na Europa.
O Pulso
- Acidente de Chernóbil: 31 mortes iniciais, 116 mil pessoas deslocadas, Zona de Exclusão com 2.590 km²
- Ucrânia: 2º maior produtor mundial de groselhas, 3º de mirtilos silvestres, exportou 15.400 toneladas em 2025
- Césio-137: semivida de 30 anos, permanece concentrado nos solos florestais ucranianos
- Limite legal na UE: 600 becqueréis por quilograma; bagas ilegais apreendidas chegaram a 2.400 becqueréis
- Recolha ilegal: punível com multas ou prisão até 3 anos na Ucrânia
O césio-137 permanece concentrado nos solos florestais ucranianos, contaminando bagas silvestres que ultrapassam limites de radioatividade permitidos para consumo humano. A Ucrânia é o segundo maior produtor mundial de groselhas e terceiro de mirtilos silvestres, exportando 15.400 toneladas em 2025 para a UE, Reino Unido e EUA.
Quarenta anos após o desastre nuclear, bagas silvestres contaminadas com césio-137 da Ucrânia são misturadas com frutos limpos para cumprir limites legais e chegar aos mercados europeus, incluindo através de recolha ilegal na Zona de Exclusão.
Quarenta anos depois da explosão que devastou Chernóbil, o césio-137 continua enraizado nos solos das florestas ucranianas. Este isótopo radioativo, produto da fissão nuclear, não desapareceu. Circula ainda pelos ecossistemas, absorvido pelas raízes superficiais das bagas silvestres — mirtilos, groselhas — que crescem naturalmente nessas terras contaminadas. A semivida do césio-137 é de aproximadamente trinta anos. Isso significa que quatro décadas depois do acidente de 26 de abril de 1986, a radioatividade permanece concentrada nas camadas superiores dos solos florestais, exatamente onde estas plantas retiram seus nutrientes.
A Ucrânia é o segundo maior produtor mundial de groselhas, atrás apenas da Polónia, e o terceiro maior produtor de mirtilos silvestres, depois do Canadá e dos Estados Unidos. O país lidera este setor na Europa de Leste, com cerca de seis mil hectares dedicados ao cultivo. Em 2025, apesar das dificuldades impostas pela guerra, a Ucrânia exportou 15.400 toneladas de bagas, avaliadas em quase 40 milhões de euros. A União Europeia é um dos principais destinos — Países Baixos e Polónia recebem grandes volumes — mas também há exportações para o Reino Unido e os Estados Unidos. Estes números explicam por que a questão da contaminação radioativa nestes frutos tem relevância internacional.
O problema começa na origem. Muitas das bagas silvestres recolhidas nas regiões contaminadas da Ucrânia — particularmente na Zona de Exclusão de Chernóbil, na Polésia e nas províncias de Rivne e Jitomir — apresentam níveis de radioatividade que ultrapassam os limites permitidos para consumo humano. Mas existe um caminho legal para colocá-las no mercado. Os frutos são medidos com detetores. Quando o nível de césio-137 é demasiado elevado, as bagas contaminadas são misturadas com frutos limpos cultivados ou recolhidos noutras regiões. O objetivo é reduzir a concentração média de radioatividade do lote até um valor inferior ao limite estabelecido — na União Europeia, a referência é 600 becqueréis por quilograma. Um conjunto de bagas que individualmente ultrapassava esse valor pode, depois de misturado com frutos não contaminados, integrar um lote que cumpre os parâmetros legais para comercialização.
Há ainda uma particularidade que complica o quadro. Por serem frutos silvestres que crescem naturalmente, sem recurso a pesticidas artificiais, estas bagas podem obter certificação biológica nos mercados ocidentais. Os critérios de certificação avaliam a utilização de produtos químicos agrícolas, mas não a radioatividade existente no solo. Assim, bagas contaminadas com césio-137 podem ser legalmente vendidas como produtos biológicos na Europa.
Para além das cadeias de exportação controladas, existe um mercado clandestino que levanta riscos ainda maiores. Pessoas entram ilegalmente na própria Zona de Exclusão para apanhar bagas e outros produtos silvestres, apesar dos níveis de radiação e de um novo perigo acrescentado pela guerra: as minas terrestres, armadilhas explosivas e munições por detonar deixadas pelas forças russas durante a ocupação temporária da região em 2022. A polícia ucraniana apreende regularmente dezenas ou centenas de quilos de frutos retirados ilegalmente. Alguns lotes apresentaram níveis de radioatividade que chegaram a quadruplicar os limites permitidos para consumo humano. A organização Chernobyl Children International alerta que uma parte destas bagas acaba por chegar aos mercados locais e sustenta que alguns produtos conseguem mesmo entrar nas cadeias comerciais através de subornos e falsificação de documentos. Adi Roche, diretora voluntária da organização, sublinha que a recolha proibida representa riscos tanto para quem entra nas áreas contaminadas como para quem posteriormente consome os produtos.
A recolha de bagas silvestres nas zonas contaminadas é ilegal na Ucrânia — considerada uma violação do regime de segurança radiológica e passível de multas ou penas de prisão até três anos. Mas as sanções não eliminaram a atividade. Para as comunidades rurais próximas de Chernóbil, onde as dificuldades económicas são profundas, a apanha de bagas e cogumelos representa uma importante fonte de rendimento. A necessidade de garantir subsistência pode sobrepor-se à preocupação com os efeitos de uma exposição acumulada à radiação. Os produtos silvestres são vendidos diretamente na rua a preços inferiores aos dos supermercados ou adquiridos por grossistas que desconhecem a eventual origem contaminada.
A guerra veio tornar o acompanhamento ainda mais difícil. O conflito dificultou a monitorização científica regular dos níveis de radiação presentes nos alimentos silvestres dentro da Zona de Exclusão. Mantêm-se recomendações rigorosas para que investigadores e militares não consumam produtos locais. A Ucrânia não dispõe de programas abrangentes de controlo alimentar destinados a reduzir a exposição, nem de uma avaliação contínua dos níveis atuais e futuros de exposição humana que permita definir medidas adicionais. É esta combinação entre necessidade económica, persistência do césio-137 nos ecossistemas e procura internacional que permite que a atividade continue quatro décadas depois de Chernóbil. A contaminação deixada pelo maior acidente nuclear da história permanece assim presente nas florestas ucranianas — e algumas das bagas que aí crescem continuam a integrar uma cadeia alimentar que abastece o mercado europeu.
Citações Notáveis
A recolha proibida de bagas e cogumelos representa riscos tanto para quem entra nas áreas contaminadas como para quem posteriormente consome os produtos— Adi Roche, diretora voluntária da Chernobyl Children International
A Ucrânia não dispõe de programas abrangentes de controlo alimentar destinados a reduzir a exposição, nem de uma avaliação contínua dos níveis atuais e futuros de exposição humana— Análise do artigo sobre a situação regulatória ucraniana