Eliminou-lhes o cancro, então sabemos que tem as propriedades
Nas profundezas geladas da Antártida, investigadores da Universidade da Flórida do Sul trouxeram à superfície uma descoberta que a natureza guardou por milénios: uma bactéria que vive dentro de criaturas marinhas e que, em laboratório, eliminou tumores de melanoma em ratos sem lhes causar dano. A substância, descoberta há duas décadas mas apenas agora testada com resultados significativos, recorda-nos que os ambientes mais hostis do planeta podem guardar as respostas às doenças mais agressivas da humanidade. O caminho até um medicamento é ainda longo, mas a ciência deu um passo que a natureza já tinha dado muito antes.
- Uma toxina produzida por ascídias marinhas antárticas destruiu células de melanoma em ratos sem provocar danos nos animais — um resultado que raramente aparece tão limpo nos primeiros testes.
- A bactéria foi identificada há 20 anos, mas ficou à espera: só agora a tecnologia e os recursos permitiram testá-la de forma significativa, criando uma tensão entre urgência médica e ritmo lento da ciência.
- Extrair quantidades suficientes para estudos maiores exigiria colheitas massivas de ascídias, o que causaria danos ambientais irreversíveis num ecossistema frágil — a cura não pode destruir o que a originou.
- A solução passa por reproduzir a toxina em laboratório, um desafio técnico que a equipa agora persegue com financiamento federal americano e o conhecimento aprofundado trazido da expedição.
- O melanoma, a forma mais letal de cancro da pele, continua a precisar de novas armas terapêuticas — e esta descoberta, ainda que distante da clínica, abre uma frente de investigação com bases sólidas.
Seis semanas de mergulhos entre 18 e 24 metros de profundidade, em águas geladas e correntes imprevisíveis, trouxeram à superfície algo inesperado: uma bactéria minúscula que vive dentro de ascídias marinhas antárticas e que, em testes laboratoriais, eliminou tumores de melanoma em ratos sem os prejudicar. A expedição foi liderada por Bill Baker, professor de Química na Universidade da Flórida do Sul, que tinha descoberto esta bactéria — Candidatus Synoicihabitans palmerolidicus — há cerca de 20 anos, mas só agora conseguiu testá-la com resultados expressivos.
A toxina é produzida pelas ascídias como mecanismo de defesa contra predadores. O que surpreendeu os investigadores foi que essa mesma defesa natural parece funcionar contra o melanoma, a forma mais agressiva de cancro da pele. Os testes, realizados em colaboração com o Desert Research Institute e o Scripps Institution of Oceanography, foram inequívocos: a substância tem as propriedades fisiológicas necessárias para funcionar como medicamento.
O maior obstáculo agora não é científico — é ambiental. Para avançar para estudos maiores, seriam necessárias gramas de material, o que implicaria colheitas massivas de ascídias e danos significativos num ecossistema frágil. A equipa trabalha agora para reproduzir a toxina em laboratório, o próximo passo essencial, financiado parcialmente pela Fundação Nacional de Ciência dos Estados Unidos.
Baker acredita que o conhecimento aprofundado sobre como a bactéria sobrevive num ambiente tão extremo — a sua ecologia, as suas relações com o organismo hospedeiro — pode acelerar o cronograma de investigação clínica. A Antártida, que parecia apenas um deserto gelado, revelou-se um laboratório natural. Os próximos anos dirão se esta promessa inicial consegue tornar-se uma realidade terapêutica.
Seis semanas debaixo de água, em profundidades entre 18 e 24 metros, numa das regiões mais hostis do planeta. Investigadores da Universidade da Flórida do Sul mergulharam na Antártida este ano à procura de algo que ninguém esperava encontrar: uma cura para o melanoma. O que trouxeram à superfície foi uma bactéria tão pequena que vive dentro de ascídias marinhas — criaturas em forma de saco que habitam os fundos do oceano — e que, quando testada em laboratório, eliminou células cancerígenas em ratos sem os prejudicar.
Bill Baker, professor de Química na universidade americana, liderou a expedição. Há cerca de 20 anos tinha descoberto esta bactéria numa outra viagem à Antártida, mas apenas agora conseguiu testá-la de forma significativa. A bactéria, conhecida pelo nome científico Candidatus Synoicihabitans palmerolidicus, é uma toxina que as ascídias marinhas produzem naturalmente como defesa contra predadores. O que torna isto relevante é que essa mesma defesa parece funcionar contra o melanoma, a forma mais agressiva de cancro da pele.
Os testes foram feitos em colaboração com o Desert Research Institute e o Scripps Institution of Oceanography. Os resultados foram claros: a toxina não matou os ratos, mas eliminou-lhes o cancro. Baker explicou à BBC Science Focus e ao The Guardian que isto significa que a substância tem as propriedades fisiológicas necessárias para funcionar como medicamento. Mas há um pormenor importante: para fazer um estudo maior, em mais ratos, noutros animais e eventualmente em humanos, seriam necessárias gramas de material.
Aqui surge o primeiro grande desafio. Extrair essas quantidades de bactérias das ascídias marinhas causaria danos ambientais significativos. Baker e a sua equipa precisariam de uma coleção de ascídias do tamanho de uma bola de basquetebol apenas para conseguir centenas de miligramas a gramas do metabólito. A solução, portanto, é aprender a reproduzir a toxina em laboratório, tal como já acontece com vários medicamentos aprovados pela agência reguladora norte-americana. Isto é o próximo passo da investigação, financiada parcialmente pela Fundação Nacional de Ciência dos Estados Unidos.
O caminho até um medicamento disponível ainda é longo. Mas Baker acredita que o conhecimento adquirido durante a expedição pode acelerar significativamente o cronograma. A equipa aprofundou a compreensão de como a bactéria vive dentro do micro-organismo, qual é a relação ecológica entre elas, e como consegue sobreviver num ecossistema tão extremo como o da Antártida. Estes detalhes podem ser cruciais para conseguir replicar o processo em laboratório.
A própria expedição foi um feito de engenharia e coragem. Os mergulhadores desceram em águas muito frias, em áreas de correntes fortes, com visibilidade frequentemente limitada. Utilizaram dois veículos subaquáticos operados remotamente para capturar as ascídias. Ben Meinster, o oficial de segurança de mergulho da investigação, recordou ao Discover Magazine que na Antártida é preciso lidar com gelo, focas-leopardo, mares em constante mudança. Cada mergulho tinha de ser cuidadosamente planeado para equilibrar o trabalho científico com a segurança de todos.
O que torna esta história particularmente interessante é que combina duas dimensões: a ambiental e a médica. Baker sublinhou isto à BBC Science Focus. Não se trata apenas de encontrar um novo tratamento para o cancro — trata-se de compreender como os organismos vivos nos ambientes mais extremos do planeta desenvolveram soluções biológicas que podem ter aplicações humanas. A Antártida, um continente que parecia apenas um deserto gelado, revelou-se um laboratório natural de possibilidades. Os próximos meses e anos dirão se esta promessa inicial consegue transformar-se numa realidade clínica.
Notable Quotes
Esta pesquisa é importante tanto do ponto de vista ambiental quanto médico— Bill Baker, professor de Química na Universidade da Flórida do Sul
Na Antártida, tu lidas com gelo, focas-leopardo, mares em constante mudança e, às vezes, visibilidade muito limitada— Ben Meinster, oficial de segurança de mergulho da investigação
The Hearth Conversation Another angle on the story
Porque é que uma bactéria da Antártida teria propriedades contra o melanoma? Parece demasiado específico.
Não é tão específico quanto parece. As ascídias marinhas vivem num ambiente hostil — predadores, frio extremo, competição. Desenvolveram toxinas para se protegerem. Essas toxinas são moléculas sofisticadas. Quando testadas contra células cancerígenas, algumas funcionam porque o cancro é também uma forma de vida que cresce sem controlo. A toxina ataca o que a ascídia precisa de atacar.
Mas porque é que levou 20 anos desde a descoberta até aos testes?
Porque descobrir algo e conseguir testá-lo são duas coisas diferentes. Primeiro, precisavam de financiamento. Depois, precisavam de parceiros — institutos de investigação especializados. E depois precisavam de uma razão convincente para voltar à Antártida e recolher mais material. Os resultados em ratos deram-lhes essa razão.
Os ratos não morreram. Mas isso é suficiente para dizer que é seguro para humanos?
Não. É apenas o primeiro sinal. Significa que a toxina tem potencial. Mas há muitos passos entre ratos e humanos — testes em outros animais, compreensão dos efeitos secundários, dosagem correta. É por isso que Baker diz que o caminho ainda é longo.
E o problema ambiental? Não é contraditório procurar um medicamento destruindo o ecossistema?
É exatamente por isso que o próximo passo é reproduzir a toxina em laboratório. Se conseguirem fazer isso, deixam de precisar de recolher ascídias. É uma solução elegante — usam a natureza para aprender, depois replicam em laboratório sem danificar nada.
Quantas pessoas poderiam beneficiar disto, se funcionar?
O melanoma mata dezenas de milhares de pessoas por ano em todo o mundo. Mas isto não é uma cura garantida — é uma possibilidade. Mesmo que funcione, levará anos até estar disponível. A importância agora é que existe uma pista, um caminho a seguir.