Avó lamenta morte de neto por Covid e defende vacinação de crianças no DF

Criança de 10 anos com síndrome de Down faleceu após 12 dias internado com Covid-19, deixando avó e família em luto.
Se ele tivesse tomado a vacina, com certeza estaria aqui com a gente
Socorro reflete sobre o que poderia ter salvado seu neto Guilherme, morto de Covid antes da vacinação infantil estar disponível.

Guilherme Monteiro, 10 anos com síndrome de Down, faleceu após 12 dias internado com Covid em agosto de 2021, antes da vacinação infantil estar disponível. Avó Socorro de Jesus acredita que a vacina teria salvado o neto e critica obstáculos do governo federal para inclusão de crianças na campanha de imunização.

  • Guilherme Monteiro, 10 anos com síndrome de Down, faleceu em agosto de 2021 após 12 dias internado com Covid
  • Avó Socorro de Jesus da Silva ligava regularmente para postos de saúde pedindo informações sobre vacinação infantil
  • Ministério da Saúde anunciou chegada de vacinas pediátricas para crianças de 5 a 11 anos em 13 de janeiro de 2022
  • Vittório, filho de Daniel Salgueiro, desenvolveu síndrome hemolítico-urêmica após Covid e foi internado em UTI, mas se recuperou

Avó de criança com síndrome de Down que morreu de Covid-19 defende vacinação infantil e critica atrasos do governo. Ministério da Saúde anuncia chegada de vacinas pediátricas para crianças de 5 a 11 anos.

Socorro de Jesus da Silva, uma mulher de 51 anos que trabalha como auxiliar de serviços gerais, carrega uma perda que a marcou para sempre. Em agosto de 2021, seu neto Guilherme Monteiro, uma criança de dez anos com síndrome de Down, morreu de Covid-19 após doze dias internado. "Não perdi só meu neto, perdi o amor da minha vida", ela diz, e naquelas palavras está toda a dimensão de um luto que não se mede apenas em ausência.

Guilherme começou a apresentar febre e mal-estar no final de julho. A família pensou que fosse uma reação a um medicamento para anemia que ele havia começado a tomar dias antes. Quando os sintomas persistiram, levaram o menino ao Hospital Materno Infantil de Brasília. O teste de Covid veio positivo — uma surpresa que chocou a família, que havia feito tudo ao seu alcance para protegê-lo. Ele foi internado imediatamente e depois transferido para o Hospital da Criança de Brasília José Alencar, onde lutou pela vida durante doze dias antes de sucumbir à doença, em primeiro de agosto.

Socorro lamenta que os médicos tenham feito tudo que estava ao seu alcance, mas que Guilherme perdeu aquela batalha. O que a avó não consegue deixar de pensar é no que poderia ter sido diferente. Ela ligava regularmente para os postos de saúde perguntando sobre a vacinação para crianças, esperando por uma proteção que não chegou a tempo. "Se ele tivesse tomado a vacina, com certeza estaria aqui com a gente", ela afirma, e essa certeza é tanto esperança quanto remorso. Guilherme vivia com os avós desde que nasceu. O casal havia se mudado de Cidade Ocidental, no Goiás, para um apartamento no Recanto das Emas, em Brasília, para oferecer melhores condições ao menino. Depois de sua morte, não conseguiram ficar no lugar. Tudo ali os fazia lembrar dele — uma criança cheia de vida, inteligente, que eles chamavam de seu milagre. Decidiram voltar para o Entorno.

O caso de Guilherme não é isolado. Daniel Salgueiro, um veterinário, viu seus filhos Lucca e Vittório, de sete e nove anos, testarem positivo para Covid em setembro de 2021. O mais novo teve sintomas leves e o mais velho foi assintomático. Após dezoito dias isolados, a família retomou a rotina. Mas duas semanas depois, Vittório adoeceu novamente, desta vez com síndrome hemolítico-urêmica, uma doença grave caracterizada por anemia, baixa produção de plaquetas e lesão renal aguda. Vários médicos que acompanharam o caso consideram que o quadro pode estar ligado à Covid, embora nenhum deles consiga afirmar isso com certeza absoluta. O que é certo é que o menino desenvolveu uma síndrome extremamente grave e potencialmente letal que tem ocorrido com mais frequência em crianças que tiveram Covid.

Vittório adoeceu, foi hospitalizado no dia seguinte e, no terceiro dia, precisou ser internado em Unidade de Terapia Intensiva. Tinha anemia muito grave, os rins parados, dificuldade respiratória. Foi algo super agressivo, como Daniel descreve. Mas, diferentemente de Guilherme, Vittório conseguiu se recuperar. Daniel agora é um defensor da vacinação infantil. Ele já tem a terceira dose de reforço e pretende vacinar seus filhos. "Sabemos que a vacina salva vidas. Isso é notório. Nem todos tiveram a sorte do Vittório", ele diz.

Em janeiro de 2022, quando essa história foi publicada, o Ministério da Saúde havia anunciado as regras para imunização de crianças de cinco a onze anos contra Covid. O primeiro lote de vacinas pediátricas estava previsto para chegar ao país em treze de janeiro. O caminho até esse anúncio não foi direto. Em vinte de dezembro, o ministro havia dito que "a pressa é inimiga da perfeição" e que a pasta só teria uma posição sobre o tema em janeiro. Na noite de vinte e três de dezembro, o Ministério abriu uma consulta pública que ficou aberta até dois de janeiro, permitindo que qualquer pessoa preenchesse um formulário online com contribuições. O ministério havia inicialmente exigido receita médica para a vacinação dessa faixa etária, mas voltou atrás nessa decisão.

Sociedades médicas e científicas defenderam a vacinação de crianças de cinco a onze anos. Andrea Jacomo, coordenadora do departamento de pediatria da Sociedade de Pediatria do Distrito Federal, ressalta que, embora os índices de casos graves de Covid entre crianças sejam menores, eles merecem atenção. "As crianças não podem ser esquecidas. Vale lembrar que esses casos existem", ela diz. Ela também aponta que enfermarias e UTIs pediátricas já estavam enchendo com vários vírus circulando, e que os pais não precisam entrar em pânico — existem dados seguros sobre as vacinas contra Covid que podem proteger contra outras extensões da doença. A melhor decisão, segundo ela, é a de proteger os filhos.

Socorro espera que a história de Guilherme sirva de alerta para outras famílias. "Tem que se vacinar", ela diz, e nessas palavras está tanto o peso de uma perda irreversível quanto a esperança de que outras crianças possam ser poupadas do mesmo destino.

Não perdi só meu neto, perdi o amor da minha vida
— Socorro de Jesus da Silva, avó de Guilherme
As crianças não podem ser esquecidas. Vale lembrar que esses casos existem. Por isso, mais do que nunca, é preciso vacinar esse público
— Andrea Jacomo, coordenadora do departamento de pediatria da Sociedade de Pediatria do Distrito Federal
The Hearth Conversation Another angle on the story
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O que levou Socorro a ligar regularmente para os postos de saúde antes da morte de Guilherme?

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Ela sabia que a vacinação era a melhor forma de proteger o neto, especialmente porque ele tinha síndrome de Down e era mais vulnerável. Aquelas ligações eram um ato de vigilância maternal, uma tentativa de antecipar a proteção que nunca chegou a tempo.

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Como a família explicava para si mesma o que estava acontecendo quando Guilherme começou a ficar doente?

Model

No início, acharam que era uma reação ao medicamento para anemia que ele havia começado a tomar dias antes. A Covid era algo que eles acreditavam ter evitado através de todos os cuidados possíveis. O diagnóstico foi uma surpresa que os derrubou.

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Por que a família se mudou de volta para o Goiás após a morte de Guilherme?

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Porque o apartamento em Brasília estava cheio de memórias dele. Cada canto, cada objeto, cada rotina os remetia ao menino que havia sido seu milagre. Ficar lá era viver constantemente com a ausência.

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O que diferencia a experiência de Daniel Salgueiro da de Socorro?

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Daniel teve a sorte que Socorro não teve — seu filho sobreviveu. Mas essa experiência o transformou em um defensor convicto da vacinação. Ele entende agora que nem todas as crianças têm essa sorte, e que a vacina é a forma de aumentar as chances.

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Por que o governo demorou tanto para autorizar a vacinação infantil?

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Havia uma hesitação política. O ministro falou em "pressa é inimiga da perfeição" e adiou a decisão. Depois abriram uma consulta pública que durou dez dias. Enquanto isso, crianças como Guilherme já tinham morrido.

Inventor

O que as sociedades médicas dizem sobre o risco real para crianças?

Model

Reconhecem que casos graves são menos frequentes em crianças do que em adultos, mas insistem que esses casos existem e merecem atenção. E apontam que a vacinação protege contra outras extensões da doença além da Covid.

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