A radioterapia deixou de ser discutida apenas pela dose ou número de sessões
Estudo INTERLACE mostra que quimioterapia antes da quimiorradioterapia aumenta sobrevida em câncer de colo do útero de 72% para 80% em cinco anos. Pesquisa LAURA demonstra que osimertinibe após quimiorradioterapia reduz em 84% o risco de progressão em câncer de pulmão com mutação EGFR.
- Estudo INTERLACE: quimioterapia antes da quimiorradioterapia aumenta sobrevida em câncer de colo do útero de 72% para 80% em cinco anos
- Pesquisa LAURA: osimertinibe após quimiorradioterapia reduz em 84% o risco de progressão em câncer de pulmão com mutação EGFR
- PACE-B: radioterapia estereotáxica em cinco sessões mantém resultados equivalentes a esquemas convencionais no câncer de próstata
- 28º Congresso SBRT: 29 de julho a 1º de agosto de 2026, em Brasília
O 28º Congresso da SBRT reunirá especialistas para discutir estudos que modificam decisões em radioterapia para diversos cânceres, incluindo estratégias de intensificação, desintensificação e integração com terapias sistêmicas.
Brasília receberá em julho o maior encontro anual de radioterapeutas do Brasil, um congresso que chega em momento de transformação profunda na forma como se trata o câncer. Não se trata apenas de novas máquinas ou técnicas mais sofisticadas. Os estudos que serão debatidos no 28º Congresso da Sociedade Brasileira de Radioterapia, de 29 de julho a 1º de agosto, mostram algo mais fundamental: a radioterapia deixou de ser uma decisão isolada e virou parte de uma conversa muito mais complexa sobre como combinar diferentes armas contra o tumor.
O estudo INTERLACE exemplifica essa mudança. Pesquisadores avaliaram mulheres com câncer de colo do útero em estágio avançado — a doença já havia ultrapassado o colo e atingido tecidos vizinhos da pelve, mas ainda não havia se espalhado para órgãos distantes. O grupo que recebeu seis semanas de quimioterapia com carboplatina e paclitaxel antes da radioterapia combinada com quimioterapia apresentou resultados significativamente melhores. Após cinco anos, 80% dessas pacientes estavam vivas, contra 72% daquelas que receberam apenas o tratamento convencional. O risco de progressão da doença ou morte caiu aproximadamente 35%. O que torna esse resultado particularmente relevante é que usou medicamentos já conhecidos e disponíveis em um país como o Brasil, onde o câncer de colo do útero continua sendo um problema de saúde pública importante.
No câncer de pulmão, o estudo LAURA trouxe evidências igualmente transformadoras. Pacientes com câncer de pulmão de não pequenas células localmente avançado — doença restrita ao tórax mas que não podia ser removida por cirurgia — e que tinham uma mutação específica no gene EGFR receberam osimertinibe após quimiorradioterapia. O medicamento reduziu em cerca de 84% o risco de progressão ou morte. Um ano após o início do tratamento, 74% dos pacientes que receberam a droga estavam vivos e sem piora do câncer, comparado a apenas 22% daqueles que receberam placebo. Três anos depois, 84% dos tratados com a terapia-alvo permaneciam vivos, contra 74% no grupo controle. Esses números reforçam um princípio que está mudando a oncologia: a radioterapia não funciona isolada. Ela precisa conversar com terapias-alvo, imunoterapia, quimioterapia e cirurgia.
Raquel Guimarães, diretora de Assuntos Regionais da SBRT e chefe da Divisão de Diagnóstico do HC1/INCA, resume essa transformação: a pergunta que os oncologistas fazem hoje não é mais sobre dose ou número de sessões. É como integrar melhor a radioterapia com todas as outras ferramentas disponíveis para oferecer o tratamento mais adequado a cada paciente. Isso significa que o congresso não será apenas sobre intensificar o tratamento. Também discutirá quando é possível fazer menos.
No câncer de mama, estudos como o DEBRA e o HERO investigam se pacientes com tumores iniciais, de baixo risco genômico e características biológicas favoráveis podem evitar radioterapia completamente após cirurgia. O FAST-Forward já mostrou que mulheres selecionadas podem receber radioterapia em apenas cinco sessões ao longo de uma semana, em vez das 15 sessões tradicionais em três semanas, mantendo os mesmos resultados de controle da doença após cinco anos. Mas Guimarães deixa claro que esses estudos não significam que a radioterapia possa ser retirada da maioria das pacientes. A decisão precisa considerar idade, características do tumor, resposta ao tratamento sistêmico, risco de recidiva e preferências da paciente.
No câncer de próstata, o estudo PACE-B comparou radioterapia estereotáxica em cinco sessões com esquemas convencionais ou moderadamente hipofracionados. Após cinco anos, 95,8% dos pacientes tratados com a técnica mais curta estavam livres de falha bioquímica ou clínica, comparado a 94,6% no grupo com radioterapia convencional. O resultado demonstrou não inferioridade — o esquema mais curto não teve desempenho pior. Na prática, isso significa menos deslocamentos para o paciente, menos uso da infraestrutura hospitalar e custos reduzidos, mas exige planejamento rigoroso e equipes experientes.
O congresso também abordará tecnologia. Radioterapia adaptativa permite ajustar o planejamento ao longo do tratamento conforme mudanças anatômicas do paciente ou do tumor. Equipamentos como MR-Linac, que combinam acelerador linear e ressonância magnética, oferecem visualização mais precisa de tecidos moles. Inteligência artificial está sendo incorporada principalmente ao contorno automático de órgãos, uma das etapas mais trabalhosas do planejamento. Mas Guimarães ressalta que a tecnologia não substitui a equipe — ela amplia a capacidade quando usada dentro de protocolos bem definidos, com treinamento e avaliação de qualidade.
Por fim, o congresso dedicará tempo a um tema que permeia toda essa discussão: acesso. Muitos dos avanços dependem de infraestrutura, equipes treinadas, equipamentos atualizados e integração com outros serviços de oncologia. No Brasil, o acesso à radioterapia ainda é desigual, com diferenças regionais importantes que afetam diretamente o tempo entre diagnóstico e início do tratamento. A proposta do 28º Congresso é conectar evidência científica, inovação tecnológica e desafios concretos de implementação — discutir não apenas o que há de novo, mas quais avanços já têm força para mudar decisões clínicas e como aproximar essas transformações da realidade dos pacientes brasileiros.
Notable Quotes
Os estudos mais recentes mostram que a radioterapia deixou de ser discutida apenas pela dose ou pelo número de sessões. Hoje, a pergunta é como integrar melhor a radioterapia com quimioterapia, imunoterapia, terapias-alvo, cirurgia e biomarcadores para oferecer o tratamento mais adequado a cada paciente— Raquel Guimarães, diretora de Assuntos Regionais da SBRT
A inteligência artificial e a radioterapia adaptativa não substituem a equipe. Elas ampliam a capacidade de planejamento, revisão e segurança quando usadas dentro de protocolos bem definidos— Raquel Guimarães
The Hearth Conversation Another angle on the story
Por que um congresso de radioterapia em 2026 está gerando tanta expectativa? Não é apenas mais uma reunião de especialistas?
Porque a radioterapia deixou de ser uma decisão isolada. Até pouco tempo, o oncologista perguntava: qual dose? Quantas sessões? Hoje a pergunta é: como combino isso com quimioterapia, terapia-alvo, imunoterapia? É uma mudança fundamental na forma de pensar o tratamento.
Mas isso não torna as coisas mais complicadas para o paciente? Mais medicamentos, mais efeitos colaterais?
Pode parecer, mas na verdade muitas vezes é o oposto. Alguns pacientes conseguem fazer menos radioterapia porque a terapia-alvo está funcionando bem. Outros evitam radioterapia completamente porque o risco de recidiva é muito baixo. A complicação está na decisão, não no tratamento.
E como os hospitais brasileiros estão preparados para isso? Parece exigir muita tecnologia, muita expertise.
Essa é a questão central que o congresso vai enfrentar. Muitos avanços dependem de infraestrutura que ainda não está uniformemente distribuída no Brasil. Há diferenças regionais importantes. Por isso o congresso vai discutir não apenas o que é novo, mas como tornar esses avanços acessíveis.
Qual é o estudo que mais muda as coisas?
Provavelmente o INTERLACE, no câncer de colo do útero. Mostrou que adicionar quimioterapia antes do tratamento padrão aumenta a sobrevida de 72% para 80% em cinco anos. E usou medicamentos que já existem e custam menos. Para um país como o Brasil, onde esse câncer ainda é um problema de saúde pública importante, isso é transformador.
E no câncer de mama, que é mais comum, o que muda?
A possibilidade de fazer menos ou até nada em mulheres com muito baixo risco. Alguns estudos mostram que pacientes selecionadas podem evitar radioterapia após cirurgia se o tumor tem características biológicas favoráveis. Mas isso não vale para a maioria. A decisão precisa ser muito individualizada.