Autor do gol marroquino nasceu na Holanda e quase defendeu outra seleção

Escolhi a religião, tradição e valores que meus pais me deram
Aboukhlal explicou sua decisão de não seguir o caminho de muitos jogadores profissionais.
Mark

Por que a história de Aboukhlal importa além do gol que marcou?

Mimi

Porque ele representa algo que o futebol moderno raramente mostra: um atleta que não deixa a identidade pessoal e espiritual ser consumida pela carreira. Ele poderia ter sido holandês, poderia ter sido líbio, mas escolheu Marrocos e mantém essa escolha como parte de quem é.

Mark

As ameaças líbias parecem ter sido sérias. Como alguém lida com isso?

Mimi

Aboukhlal foi honesto sobre isso. Não era medo, era cansaço. Quando você está construindo uma carreira, lidar com hostilidade nas redes sociais é um peso real. Ele bloqueou o perfil, criou distância, e seguiu em frente. Mas não esqueceu.

Mark

Ele fala muito sobre religião. Isso é comum entre jogadores de futebol?

Mimi

Não é comum da forma como ele faz. Muitos atletas mencionam fé, mas Aboukhlal publica sobre oração, lê o Alcorão publicamente, e estrutura sua vida inteira em torno disso. Ele está dizendo que recusou o caminho que muitos jogadores seguem — festas, excessos — e escolheu outra coisa.

Mark

E esse plano de caridade com o Imame de Amsterdã?

Mimi

É onde você vê que para ele, o futebol é um meio, não um fim. Ele quer usar a plataforma que o futebol lhe dá para fazer algo que importa além do esporte. Ajudar países muçulmanos em dificuldade. Isso não é retórica; ele já estava falando disso antes da Copa.

Mark

Qual é o significado de ele ter marcado justamente contra a Bélgica, seu país vizinho?

Mimi

Provavelmente nenhum significado profundo, mas há uma ironia bonita. Ele nasceu ao lado da Bélgica, poderia ter sido belga ou holandês, e em vez disso marcou contra ambos os vizinhos. Marrocos é quem ele escolheu ser.

  • Nascido em Roterdã, Holanda; atuou pelas seleções de base holandesas
  • Marcou o segundo gol na vitória de Marrocos sobre a Bélgica por 2 a 0
  • Enfrentou ameaças de torcedores líbios nas redes sociais após escolher Marrocos
  • Planeja fundar associação de caridade com Imame de Amsterdã para auxiliar países muçulmanos

Aboukhlal nasceu em Roterdã e atuou pelas seleções de base da Holanda antes de optar por Marrocos, país natal de sua mãe. O atacante enfrentou ameaças de torcedores líbios nas redes sociais após escolher Marrocos em vez da Líbia, país de seu pai.

Zakaria Aboukhlal marcou gol decisivo na vitória de Marrocos sobre a Bélgica na Copa do Catar. Nascido na Holanda, o atacante escolheu defender Marrocos e é conhecido por suas pregações muçulmanas nas redes sociais.

Zakaria Aboukhlal sorriu largo depois de colocar a bola na rede. Era o segundo gol de Marrocos contra a Bélgica, neste domingo, na Copa do Catar — o placar que fechava a vitória em 2 a 0 e mantinha os marroquinos vivos no Grupo F. Mas o atacante que brilhava naquele momento no estádio carregava uma história de escolhas que poderia ter o levado para muito perto dali, geograficamente falando, ou para bem longe, dependendo de como se vê o mapa.

Aboukhlal nasceu em Roterdã, na Holanda, a poucos quilômetros da Bélgica. Cresceu em um país que poderia tê-lo reclamado como seu — de fato, o reclamou, por um tempo. Ele atuou pelas seleções de base holandesas, o caminho natural para um menino nascido em solo neerlandês. Mas quando chegou à idade adulta, fez uma escolha diferente. Optou por Marrocos, o país de sua mãe, deixando para trás a Holanda, que agora disputava o torneio no Grupo A.

Os holandeses, ao que tudo indica, aceitaram a decisão sem maiores conflitos. Não foi o mesmo com a Líbia. O pai de Aboukhlal é líbio, e torcedores líbios nas redes sociais não receberam bem a notícia de que ele escolheria Marrocos em vez de seu país. As ameaças começaram. Foram suficientemente intensas para que o atacante precisasse bloquear seu perfil por um tempo, buscando se afastar da negatividade que o cercava. "Não estava com medo, mas você precisa evitar tanta negatividade", disse ele em entrevista recente, descrevendo aquele período com a clareza de quem já havia processado o episódio.

O que distingue Aboukhlal entre muitos de seus colegas de profissão não é apenas a trajetória de identidades nacionais entrelaçadas. Nas redes sociais, ele é conhecido por algo raro no futebol de alto nível: pregações muçulmanas. Aboukhlal é praticante devoto de sua fé. Publica fotos em oração, é leitor assíduo do Alcorão, e usa sua plataforma para espalhar mensagens de espiritualidade e positividade. No início deste ano, em participação em um podcast islâmico, ele explicou sua visão de vida de forma direta.

"Quando você sai de casa para ser jogador, muitos escolhem o caminho errado: sair à noite, ir a festas", disse ele. "No meu caso, escolhi a formação que meus pais me deram: religião, tradição e valores." Aboukhlal descreveu como a prática genuína de sua religião transformou sua relação com o dinheiro e os bens materiais. "Depois que comecei a praticar minha religião da forma correta, dinheiro e bens materiais não são mais nada para mim. É claro que quero alcançar coisas importantes no futebol, mas no fim das contas o que mais importa é a vida após a morte."

Essa perspectiva não é meramente pessoal. Aboukhlal tem planos maiores. Ele declarou ao mesmo podcast que seu objetivo principal é fundar uma associação de caridade em parceria com o Imame de Amsterdã — a cidade holandesa onde cresceu — para prestar auxílio a países de maioria muçulmana que enfrentam dificuldades econômicas e sociais. É uma ambição que conecta sua fé, sua história de múltiplas identidades, e seu desejo de impacto além do campo de jogo.

Naquele domingo, quando Aboukhlal marcou e Marrocos avançou, a história que se desenrolava na Copa do Catar era também a história de um homem que havia navegado escolhas complexas de identidade, enfrentado hostilidade, e construído uma vida baseada em princípios que transcendem o futebol. O gol foi apenas o momento mais visível de uma trajetória muito mais profunda.

Quando você sai de casa para ser jogador, muitos escolhem o caminho errado: sair à noite, ir a festas. No meu caso, escolhi a formação que meus pais me deram: religião, tradição e valores.
— Zakaria Aboukhlal
Chegou até a ameaças. Foi o suficiente para bloquear meu perfil por um tempo. Eu não estava com medo, mas você precisa evitar tanta negatividade.
— Zakaria Aboukhlal, sobre as ameaças de torcedores líbios
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